As crianças invisíveis

No cinema

10.06.16

Crianças pobres só atra­em nos­sa aten­ção, e com gran­de estar­da­lha­ço, quan­do estão envol­vi­das em tiro­tei­os, assal­tos, estu­pros ou assas­si­na­tos. No res­tan­te do tem­po são invi­sí­veis. É como se não exis­tis­sem.

Campo Grande, de Sandra Kogut, rom­pe com essa indi­fe­ren­ça pas­si­va ao tra­zer para dian­te dos nos­sos olhos dois des­ses peque­nos seres, os irmãos Ygor (Ygor Manoel), de uns oito anos, e Rayane (Rayane do Amaral), de uns seis. Eles apa­re­cem de sur­pre­sa no apar­ta­men­to de Regina (Carla Ribas), uma mulher de clas­se média e meia-ida­de, que não sabe quem são e nem o que fazer com eles.

Não cabe repro­du­zir aqui a saga de Regina em bus­ca da famí­lia dos dois irmãos ou, na fal­ta dela, de um abri­go ade­qua­do para eles. O que impor­ta é que, o tem­po todo, essas duas cri­a­tu­ras aris­cas e lacô­ni­cas apre­sen­tam-se à per­so­na­gem (e por exten­são a nós, espec­ta­do­res) como um enig­ma a ser deci­fra­do. Sua irrup­ção no apar­ta­men­to de Regina não ape­nas desar­ran­ja sua vida como tam­bém reve­la a dis­tân­cia entre dois mun­dos, o abis­mo ver­ti­gi­no­so entre Copacabana e Campo Grande, bair­ro da zona oes­te cari­o­ca que dá títu­lo ao fil­me e de onde os irmãos dizem ter saí­do.

Na afli­ção de Regina há um movi­men­to pen­du­lar entre o dese­jo de livrar-se logo do pro­ble­ma e a neces­si­da­de de com­pre­en­der aque­las cri­an­ças, de pro­te­gê-las de algum modo das dure­zas do mun­do. Entram em jogo tam­bém suas pró­pri­as carên­ci­as afe­ti­vas de mulher recém-sepa­ra­da e com um rela­ci­o­na­men­to difí­cil com a filha (Julia Bernat).

Mundo frag­men­tá­rio

Resumindo assim, pode-se dar a impres­são de um melo­dra­ma soci­al cor­ri­quei­ro, mas o fil­me não é nada dis­so. Sua for­ça e sua ori­gi­na­li­da­de estão no seu modo de cons­tru­ção, que pre­ser­va e exa­cer­ba o cará­ter frag­men­tá­rio, trun­ca­do, incom­ple­to do espa­ço físi­co, bem como da iden­ti­da­de dos per­so­na­gens e das rela­ções entre eles.

A pai­sa­gem urba­na que o fil­me apre­sen­ta é de um gran­de can­tei­ro de obras, com tapu­mes e guin­das­tes obs­truin­do par­te do qua­dro, sob o som de moto­res, ser­ras e bate-esta­cas. A câme­ra é colo­ca­da no mais das vezes ao nível do olhar das cri­an­ças, o que tor­na tudo mais ame­a­ça­dor e opres­si­vo. O mun­do é um lugar con­fu­so e inós­pi­to, sobre­tu­do para esses peque­nos per­so­na­gens a quem todos olham com des­con­fi­an­ça ou indi­fe­ren­ça, quan­do olham.

A rela­ção ten­sa e ins­tá­vel entre a adul­ta Regina e o meni­no Ygor faz lem­brar em alguns momen­tos Gloria (1980), de John Cassavetes, e sua mal dis­far­ça­da ver­são bra­si­lei­ra, Verônica (2008), de Mauricio Farias. Só que de Campo Grande o cri­me está ausen­te, bem como as armas e a vio­lên­cia explí­ci­ta.

No fil­me de Sandra Kogut não há mani­queís­mo, nem dis­cur­so soci­o­ló­gi­co, nem ênfa­se decla­ra­tó­ria, nem resquí­cio de pie­gui­ce. O olhar da dire­to­ra é ao mes­mo tem­po deli­ca­do e fran­co. Equilibra admi­ra­vel­men­te o regis­tro docu­men­tal, vívi­do e des­po­ja­do (gra­ças em gran­de par­te à habi­li­da­de do dire­tor de foto­gra­fia Ivo Lopes Araújo), com a segu­ran­ça nar­ra­ti­va que faz tudo aos pou­cos se escla­re­cer, mas de modo indi­re­to, soli­ci­tan­do a par­ti­ci­pa­ção ati­va do espec­ta­dor.

As coi­sas pare­cem se pas­sar natu­ral­men­te dian­te de uma câme­ra invi­sí­vel – não no sen­ti­do da invi­si­bi­li­da­de “clás­si­ca”, em que a decu­pa­gem cria uma con­ti­nui­da­de macia, sem tro­pe­ços, mas sim no de uma cap­ta­ção espon­tâ­nea e pro­vi­só­ria, que colhe os acon­te­ci­men­tos de modo par­ci­al, quan­do já estão em cur­so (in media res, para dizer de um modo per­nós­ti­co). Não há des­cui­do aqui: os enqua­dra­men­tos são sem­pre os mais expres­si­vos e ricos de infor­ma­ção. Mas há uma poro­si­da­de que per­mi­te que a cida­de res­pi­re e pul­se como os pró­pri­os per­so­na­gens.

Atores mirins

Uma últi­ma pala­vra sobre o elen­co. Se Sandra Kogut já demons­tra­ra, em Mutum (2007), uma gran­de com­pe­tên­cia para diri­gir cri­an­ças, aqui esse talen­to se mos­tra pro­di­gi­o­so: raras vezes se viu na tela um desem­pe­nho tão crí­vel e pun­gen­te como o de Ygor e Rayane. Carla Ribas, que até ago­ra teve pou­cas mas mar­can­tes apa­ri­ções no cine­ma (O outro lado da rua, A casa de Alice, O abis­mo pra­te­a­do) ofe­re­ce aqui sua mais tocan­te e cora­jo­sa atu­a­ção.

Por fim, cabe lem­brar que o fil­me não esta­va pro­gra­ma­do para nenhu­ma das dez salas de cine­ma exis­ten­tes no bair­ro de Campo Grande, qua­se todas ocu­pa­das com block­bus­ters ame­ri­ca­nos, mas um movi­men­to de mora­do­res con­se­guiu que fos­se exi­bi­do num shop­ping local. Agora outros bair­ros peri­fé­ri­cos do Rio, sobre­tu­do da zona nor­te, mobi­li­zam-se para ver Campo Grande. Essa pres­são para a ampli­a­ção do cir­cui­to de cer­ta for­ma é um des­do­bra­men­to do pro­je­to polí­ti­co, éti­co e esté­ti­co do fil­me, de aber­tu­ra, inclu­são, conhe­ci­men­to e tro­ca.

Cinema fran­cês

O cine­ma fran­cês rea­li­za uma bem-vin­da inva­são das telas bra­si­lei­ras. Até o pró­xi­mo dia 22, a séti­ma edi­ção do Festival Varilux exi­be quin­ze fil­mes recen­tes e iné­di­tos em cin­quen­ta cida­des do país. No Rio, uma das salas exi­bi­do­ras é o Instituto Moreira Salles.

Entre os des­ta­ques estão Chocolate, de Roschdy Zem, em que Omar Sy (o astro de Intocáveis e Samba) encar­na o ex-escra­vo que se tor­nou o pri­mei­ro clown negro da França, no final do sécu­lo 19; o dra­ma de amor Meu rei, diri­gi­do pela atriz Maïwenn, que deu a Emmanuelle Bercot o prê­mio de atriz em Cannes; a ani­ma­ção Abril e o mun­do extra­or­di­ná­rio, de Christian Desmares e Franck Ekinci, ganha­do­ra do fes­ti­val de Annecy; e Um belo verão, de Catherine Corsini, his­tó­ria do roman­ce entre duas jovens no iní­cio dos anos 1970.

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