As palavras da menina Ana C.

Por dentro do acervo

29.10.13

Ana Cristina Cesar (1952-1983)

Ana Cristina Cesar (1952–1983)

Crianças são natu­ral­men­te capa­zes de fabu­lar, de inter­pre­tar dife­ren­tes papéis soci­ais, de ver o mun­do pela pers­pec­ti­va ain­da não enqua­dra­da dos adul­tos. São natu­ral­men­te poé­ti­cas. Logo, não deve­ri­am cau­sar espan­to os escri­tos des­sa fase da vida de Ana Cristina Cesar. Mas cau­sam. O espan­to aumen­ta quan­do pen­sa­mos que boa par­te dos tex­tos de sua infân­cia se mani­fes­ta no gêne­ro lite­rá­rio con­si­de­ra­do um dos que exi­gem mai­or labor com a lín­gua: o poe­ma.

Um dos pri­mei­ros poe­mas publi­ca­dos de Ana Cristina Cesar é “Uma poe­sia de cri­an­ça”. A com­po­si­ção, com cin­co estro­fes, saiu em agos­to de 1958 no bole­tim esco­lar dire­ci­o­na­do aos pro­fes­so­res da edu­ca­ção infan­til do Colégio Bennett, onde ela estu­da­va. É bem ver­da­de que, aos seis anos de ida­de, Ana, que cur­sa­va o pré-pri­má­rio, ain­da não tinha o domí­nio da escri­ta, o que não a impe­diu de, não ape­nas uma ou duas vezes, ditar os ver­sos aos pais.

Não demo­rou mui­to e seu talen­to pre­co­ce foi reco­nhe­ci­do pela escri­to­ra Lúcia Benedetti. Em arti­go de novem­bro de 1959, “Poetisas de ves­ti­dos cur­tos”, publi­ca­do no jor­nal cari­o­ca Tribuna da Imprensa,Benedetti afir­ma:

“Ao entre­gar ao públi­co os ver­sos de Ana Cristina, sin­to a mes­ma natu­ral rea­ção de alguém que vê nas­cer uma flor num can­tei­ro cul­ti­va­do. Ana Cristina come­çou a fazer poe­mas antes de saber ler e escre­ver. O meca­nis­mo de escri­ta ain­da não está para ela sufi­ci­en­te­men­te ades­tra­do para cor­rer em socor­ro de sua ins­pi­ra­ção poé­ti­ca”.

Em 1960, Ana Cristina Cesar já sabia e gos­ta­va de escre­ver. É o que com­pro­va o bilhe­te de 3 de dezem­bro des­se ano, cujo des­ti­na­tá­rio seria o Papai Noel. Em um dos dese­jos, Ana soli­ci­ta, com a gra­fia ain­da não mui­to fir­me, aqui­lo que seria sua maté­ria-pri­ma: “três cader­ne­tas e um blo­co gran­de com pau­ta”, e con­ti­nua: “Papai Noel, em todos os meus pre­sen­tes que­ro um car­tão. Escrito com a letra do Sr., hein?”.

Ana Cristina escre­ve. E pede ao bom velhi­nho que escre­va. Saber escre­ver impli­ca cons­truir mun­dos, ain­da que seja o seu pró­prio. Escrever é ter um gran­de poder: o uso da pala­vra. Aos oito anos, tal­vez Ana Cristina Cesar não sou­bes­se dis­so. Mas quan­do, na déca­da de 1970, compôs “as pala­vras escor­rem como líquidos/ lubri­fi­can­do pas­sa­gens res­sen­ti­das”, poe­ma reco­lhi­do no exem­plar pós­tu­mo Inéditos e dis­per­sos,esta­va cons­ci­en­te da plu­ra­li­da­de semân­ti­ca que esses ver­sos peque­nos, mas eco­an­tes, pode­ri­am suge­rir.

Seu decla­ra­do inte­res­se pela pala­vra ficou regis­tra­do não ape­nas nos livros publi­ca­dos, mas em mui­tos dos cader­nos que estão em seu arqui­vo aos cui­da­dos do IMS: estu­dos, rese­nhas, poe­mas, rasu­ras e mais poe­mas. Em um deles, que data de 1961 (quem sabe um pre­sen­te de Papai Noel no ano ante­ri­or), Ana Cristina Cesar, ago­ra aos nove anos e já se con­si­de­ran­do “auto­ra”, dei­xa o avi­so ao lei­tor: “Poesias — Só leia se esti­ver com o cora­ção puro e doce”. Ler com o cora­ção: pres­su­pos­to reque­ri­do para enten­der o rit­mo ora den­so, ora flui­do da lite­ra­tu­ra de Ana Cristina Cesar.

Se jul­ga­mos pre­ma­tu­ra sua mor­te, aos 31 anos, no dia 29 de outu­bro de 1983, vemos por outro lado que seu iní­cio na vida lite­rá­ria, feliz­men­te, tam­bém o foi. Com incrí­vel desen­vol­tu­ra reve­la­da não só nos livros publi­ca­dos até aque­le ano como nos iné­di­tos post-mor­tem, a auto­ra de A teus pés ain­da hoje nos dei­xa na mes­ma sus­pen­são em que ficou antes de ir, por von­ta­de pró­pria, ao encon­tro da “Dama bran­ca”, que, como escre­veu Manuel Bandeira, lhe sor­riu em todos os desen­ga­nos.

* Elizama Almeida é assis­ten­te cul­tu­ral da coor­de­na­do­ria de lite­ra­tu­ra do IMS.

NA LOJA DO IMS

Crítica e tra­du­ção — reu­nin­do três livros num só volu­me, apre­sen­ta o pen­sa­men­to crí­ti­co de Ana Cristina Cesar nas suas mais diver­sas ver­ten­tes.