As reverberações da arte pós-Duchamp

Artes

03.06.13

Visitante olha para a obra Fonte (réplica de 1950 do original de 1917), de Marcel Duchamp
Visitante olha para a obra Fonte (réplica de 1950 do original de 1917), de Marcel Duchamp

As ima­gens da expo­si­ção The Bride and the Bachelors Duchamp with Cage, Cunningham, Rauschenberg and Johns uti­li­za­das nes­te post por cor­te­sia da Barbican Art Gallery são de Felix Clay (© 2013).

A car­rei­ra de pin­tor de Marcel Duchamp ter­mi­nou cedo, logo aos 25 anos. Nessa épo­ca o aspi­ran­te a pin­tor fre­quen­ta­va as reu­niões dos artis­tas de Puteaux, bair­ro nos arre­do­res de Paris onde Marcel tinha ido morar seguin­do os pas­sos dos dois irmãos, Raymond Duchamp-Villon e Jacques Villon. Com uma dife­ren­ça de 12 e 13 anos para Marcel, os mais velhos eram como men­to­res do jovem, e tam­bém líde­res da tur­ma que se for­ma­va com a inten­ção de ser a van­guar­da da van­guar­da. O Grupo de Puteaux tinha a pro­pos­ta de ir além das pes­qui­sas cubis­tas, pois para seus mem­bros, entre eles Jean Metzinger, Albert Gleizes e Robert Delaunay, o cubis­mo pode­ria ser ain­da mais soci­al­men­te enga­ja­do do que pro­pu­nha Picasso e mais radi­cal­men­te inte­lec­tu­al do que que­ria Braque. Esse obje­ti­vo pode­ria ser alcan­ça­do com tar­des de dis­cus­sões, tro­cas de expe­ri­ên­ci­as e o auxí­lio de pes­qui­sas sobre dis­ci­pli­nas que até então não se mis­tu­ra­vam ao rei­no da arte pari­en­se, como a mate­má­ti­ca. Foi nes­te con­tex­to ami­gá­vel que o mais novo dos Duchamp adqui­riu mais con­fi­an­ça para uma inves­ti­ga­ção artís­ti­ca pró­pria e levou adi­an­te a ideia de uma “pin­tu­ra a ser­vi­ço da men­te”.

No come­ço de 1912 o gru­po de Puteaux esta­va em alvo­ro­ço, pois Metzinger e Gleizes, por­ta-vozes do gru­po na épo­ca, esta­vam na comis­são jul­ga­do­ra do Salon des Indépendants que acon­te­ce­ria em mar­ço. Marcel Duchamp, por sua vez, tinha fina­li­za­do em janei­ro o seu Nu des­cen­do uma esca­da, pin­tu­ra resul­tan­te de um lon­go estu­do sobre a apre­sen­ta­ção do movi­men­to como uma capa­ci­da­de cere­bral. Um nu mecâ­ni­co, tão pou­co libi­di­no­so mas ao mes­mo tem­po mui­to pro­vo­ca­ti­vo, que ins­ti­ga­va a per­cep­ção e ao mes­mo tem­po fazia toda a his­tó­ria da arte, des­de o tor­so clás­si­co gre­go, des­cer alguns degraus de seu pata­mar ele­va­do. Resumindo, uma pin­tu­ra mui­to de van­guar­da até para quem que­ria ser mais que a van­guar­da. Os man­da-chu­vas de Puteaux caí­ram para trás ao ver a obra e acre­di­ta­ram que era uma tro­ça sobre toda a esté­ti­ca que esta­vam alme­jan­do popu­la­ri­zar. Assim, insis­ti­ram para que os mais ilus­tres e adul­tos irmãos de Duchamp pedis­sem que o caçu­la ao menos mudas­se o títu­lo da obra. Marcel Duchamp não res­pon­deu nada aos irmãos. Pegou o qua­dro, colo­cou debai­xo do bra­ço e foi embo­ra.

Visitante olha para a obra Dancers on a plane (1979), de Jasper Johns
Visitante olha para a obra Dancers on a pla­ne (1979), de Jasper Johns

Para o artis­ta, esta decep­ção oca­si­o­nou uma revi­ra­vol­ta, pois a par­tir des­se momen­to se viu livre de qual­quer rela­ção com movi­men­tos de arte em geral. Falando sobre o assun­to com o crí­ti­co Pierre Cabanne, Duchamp afir­mou: “Isso frus­trou-me tan­to, tal com­por­ta­men­to vin­do de artis­tas que eu acre­di­ta­va serem livres, que como rea­ção eu fui pro­cu­rar um empre­go e me tor­nei bibli­o­te­cá­rio”. O polê­mi­co Nu des­cen­do uma esca­da con­se­guiu a des­for­ra, sen­do o suces­so do Armory Show em Nova York no ano seguin­te e, embo­ra tenha aban­do­na­do ofi­ci­al­men­te a pin­tu­ra, Duchamp che­gou a pro­du­zir outros (não mui­tos) qua­dros algum tem­po depois. Esse sen­ti­men­to de liber­da­de que Duchamp tan­to valo­ri­za­va e que o fez rom­per com con­ven­ções, con­tu­do, é a gêne­se do pen­sa­men­to que per­me­ou outras ins­tân­ci­as de sua vida e lega­do artís­ti­co.

Com o des­fe­cho da his­tó­ria do pin­tor come­çou a his­tó­ria de um dos mais impor­tan­tes artis­tas do sécu­lo XX e, na opi­nião de mui­tos estu­di­o­sos (inclu­si­ve na minha), qui­çá o mais impor­tan­te artis­ta, que foi tam­bém um influ­en­te pen­sa­dor e pio­nei­ro no cam­po da cura­do­ria. É depa­ran­do-se com o Nu des­cen­do uma esca­da (nº 2) que a expo­si­ção The Bride and the Bachelors Duchamp with Cage, Cunningham, Rauschenberg and Johns se ini­cia. A gran­de mos­tra é uma ode ao que pode­mos cha­mar de arte pós-Duchamp e colo­ca lado a lado as cri­a­ções dos artis­tas aci­ma cita­dos, con­tex­tu­a­li­zan­do as mar­can­tes influên­ci­as que Marcel Duchamp exer­ceu nas men­tes das gera­ções seguin­tes.

Bailarinos dançam a coreografia de Merce Cunningham na mostra The Bride and the Bachelors Duchamp with Cage, Cunningham, Rauschenberg and Johns
Bailarinos dan­çam a core­o­gra­fia de Merce Cunningham na mos­tra

Além do famo­so Nu, a expo­si­ção no Barbican de Londres traz tam­bém uma répli­ca do Grande Vidro ou A Noiva des­pi­da por seus Celibatários, mes­mo, obra cujo títu­lo da expo­si­ção, que é par­te do fes­ti­val Dancing around Duchamp, faz refe­rên­cia. Na gale­ria de arte, dan­çan­do ao redor da “noi­va”, estão as obras dos ame­ri­ca­nos Jasper Johns, Robert Rauschenberg, John Cage e Merce Cunningham. Esses dois últi­mos, apre­sen­ta­dos ao públi­co no rit­mo de suas cri­a­ções.

No cen­tro da gale­ria foi mon­ta­do um pal­co para as core­o­gra­fi­as do íco­ne da dan­ça con­tem­po­râ­nea, Merce Cunningham. As com­po­si­ções do músi­co expe­ri­men­tal John Cage tam­bém são oni­pre­sen­tes no espa­ço. Há dois pia­nos de cal­da dis­kla­vi­er (uma espé­cie de pia­no­la hi-tech) pro­gra­ma­dos para tocar as par­ti­tu­ras de Cage, além de outras expe­ri­ên­ci­as sono­ras. Legendas nas pare­des se ilu­mi­nam para indi­car o que está sen­do ouvi­do. Durante a visi­ta ain­da se pode pre­sen­ci­ar uma equi­pe de bai­la­ri­nos entrar em cena para dan­çar os movi­men­tos con­ce­bi­dos por Cunningham.

Visitante olha para a obra Painted bronze (1960), de Jasper Johns
Visitante olha para a obra Painted bron­ze (1960), de Jasper Johns

Jasper Johns está pre­sen­te na expo­si­ção com 17 tra­ba­lhos entre pin­tu­ras e escul­tu­ras, incluin­do alguns exem­plos da série Painted Bronze da déca­da de 1960, que pode ser enten­di­da como o rever­so do ready-made. São repro­du­ções escul­tu­rais de obje­tos coti­di­a­nos, como latas de cer­ve­jas tipo ale e a lati­nha de café usa­da para guar­dar pin­céis, remo­de­la­das fide­dig­na­men­te em bron­ze fun­di­do e pin­ta­das à mão. Johns era tão pró­xi­mo a Duchamp que, após a mor­te des­te, escre­veu: “A comu­ni­da­de da arte sen­te a pre­sen­ça de Duchamp e a sua ausên­cia. Ele mudou a con­di­ção de estar aqui”. O par­cei­ro de Johns, e tam­bém pio­nei­ro da Pop Art, Robert Rauschenberg é repre­sen­ta­do por cer­ca de 20 tra­ba­lhos, em sua mai­or par­te das déca­das de 1950 e 1960. No extre­mo opos­to da gale­ria, em dire­ção ao Nu de Duchamp, encon­tra­mos Express, de 1963, em que Rauschenberg usa a téc­ni­ca de seri­gra­fia sobre­pos­ta para mos­trar alpi­nis­tas, dan­ça­ri­nos e jóqueis eco­an­do o movi­men­to da der­ra­dei­ra pin­tu­ra de Duchamp. Junto das telas e de alguns obje­tos, como Music Box (1953), foi remon­ta­do o pri­mei­ro cená­rio que Rauschenberg pro­je­tou para a com­pa­nhia de dan­ça de Cunningham.

A cura­do­ria é de Carlos Basualdo, cuja sele­ção de obras está mais flui­da no andar de bai­xo. O meza­ni­no traz seções mais defi­ni­das, com temas como xadrez, ready-made e o aca­so. O cura­dor argen­ti­no con­tou com a cola­bo­ra­ção do artis­ta e cine­as­ta fran­cês Philippe Parreno, res­pon­sá­vel pela mise en scè­ne da expo­si­ção. Conceberam toda a mos­tra como uma atmos­fe­ra úni­ca e inter­li­ga­da, tiran­do pro­vei­to da arqui­te­tu­ra aber­ta do espa­ço. Reproduziram cená­ri­os — não só o de Rauschenberg, mas é pos­sí­vel tam­bém encon­trar ade­re­ços cêni­cos base­a­dos no Grande Vidro da per­for­man­ce Walk-Around de Cunningham — que pro­vo­cam efei­tos de trans­pa­rên­cia, som­bras e luz.

The Bride and the Bachelors Duchamp with Cage, Cunningham, Rauschenberg and Johns
The Bride and the Bachelors Duchamp with Cage, Cunningham, Rauschenberg and Johns

A expo­si­ção traz uma mon­ta­gem tam­bém pós-Duchamp, mui­to pró­xi­ma ao que o artis­ta ima­gi­nou para as expo­si­ções orga­ni­za­das por seus ami­gos sur­re­a­lis­tas, com uma estra­té­gia cura­to­ri­al que colo­ca o layout da mos­tra refle­tin­do as estru­tu­ras inter­nas das obras expos­tas. Duchamp, em 1938 e 1942, já tinha tes­ta­do a colo­ca­ção de pin­tu­ras em por­tas gira­tó­ri­as, a cons­tru­ção de labi­rin­tos de fios de bar­ban­tes para o públi­co ultra­pas­sar e até a dis­tri­bui­ção de lan­ter­nas para os visi­tan­tes enxer­ga­rem obras em uma sala escu­ra com sacos de car­vão pen­du­ra­dos no teto.

A expe­ri­ên­cia reve­la-se um mode­lo que pode­ria ser repe­ti­do em outras oca­siões, com dife­ren­tes artis­tas, pois a heran­ça do homem que nutria uma pai­xão pelo xadrez pode ser reco­nhe­ci­da na pro­du­ção de mui­tos nomes de gera­ções pos­te­ri­o­res, que tam­bém incluí­ram ele­men­tos lúdi­cos e pro­ve­ni­en­tes do aca­so em suas obras. No caso espe­cí­fi­co des­ta dan­ça em tor­no de Duchamp, expor as ori­gens de seu pen­sa­men­to e seus des­do­bra­men­tos em artis­tas que foram seus con­tem­po­râ­ne­os, de manei­ra tão dire­ta, foi uma gran­de saca­da. Digna da home­na­gem a um pin­tor que pre­fe­riu o jogar além do seu tem­po.

* Caroline Menezes é jor­na­lis­ta e crí­ti­ca de arte, dou­to­ran­da em Teoria da Arte pela University of the Arts London.

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