A atriz Isabelle Huppert

A atriz Isabelle Huppert

As sombras de Isabelle

No cinema

18.11.16

Numa sema­na reple­ta de boas estrei­as, a mais impor­tan­te cer­ta­men­te é Elle, o novo fil­me de Paul Verhoeven, que não tinha uma obra lan­ça­da por aqui des­de A espiã, de dez anos atrás.

Primeiro tra­ba­lho do dire­tor holan­dês roda­do na França, Elle é base­a­do no roman­ce Oh…, de Philippe Djian e gira em tor­no de uma enér­gi­ca empre­sá­ria, Michèle Leblanc, dona de uma pro­du­to­ra de vide­o­ga­mes. Melhor seria dizer: gira em tor­no de Isabelle Huppert, a fan­tás­ti­ca atriz que a encar­na.

Michèle/elle/Isabelle está em cena o tem­po todo, mas não se pode dizer que o espec­ta­dor a com­pre­en­da e, mui­to menos, que se iden­ti­fi­que com ela. Em suas rela­ções com seus fun­ci­o­ná­ri­os, com o ex-mari­do, com o filho fei­to de bobo pela namo­ra­da, com a mãe que com­pra a com­pa­nhia sexu­al de um jovem, com vizi­nhos e aman­tes, ela man­tém sem­pre uma opa­ci­da­de irre­du­tí­vel, uma zona de som­bra impe­ne­trá­vel – e é isso o que tor­na tão des­con­cer­tan­te o fil­me de Paul Verhoeven.

Na pri­mei­ra cena, Michèle sofre um estu­pro bru­tal (e qual estu­pro não o é?) por um homem mas­ca­ra­do, sob os olhos indi­fe­ren­tes de seu gato, que alguns crí­ti­cos viram como um duplo do espec­ta­dor de cine­ma. Apresentada, por­tan­to, na situ­a­ção de víti­ma, ela não demo­ra­rá a virar esse jogo, mos­tran­do-se tirâ­ni­ca, para não dizer sádi­ca, ao coman­dar sua equi­pe na cri­a­ção de um vide­o­ga­me eró­ti­co e ultra­vi­o­len­to.

Subversão das fór­mu­las

Violência e ero­tis­mo, víti­ma e algoz, sedu­ção e opres­são, todos esses ter­mos serão emba­ra­lha­dos e tro­ca­rão de sinal ao lon­go da nar­ra­ti­va. O talen­to do dire­tor (e da atriz) con­sis­te em cami­nhar o tem­po todo sobre a cor­da bam­ba da ambi­gui­da­de, sem dar ao espec­ta­dor o con­for­to dos jul­ga­men­tos morais e sem per­mi­tir que a his­tó­ria siga rumos pre­vi­sí­veis.

Depois de déca­das nos Estados Unidos, tal­vez Verhoeven tenha vol­ta­do a fil­mar na Europa (seus dois lon­gas ante­ri­o­res foram fei­tos na sua Holanda natal) por­que Hollywood já não assi­mi­la­va mais sua com­ple­xi­da­de, sua estra­nhe­za. Tropas este­la­res (1997), uma crí­ti­ca feroz ao mun­do glo­ba­li­za­do sob a égi­de dos mais for­tes, foi acu­sa­do de “nazis­ta” por espí­ri­tos taca­nhos que não alcan­çam o con­cei­to de iro­nia.

Com sua pro­ta­go­nis­ta amo­ral, com seu con­tí­nuo des­lo­ca­men­to de sen­ti­do, sua sub­ver­são dos gêne­ros e fór­mu­las nar­ra­ti­vas con­ven­ci­o­nais, um fil­me como Elle seria impen­sá­vel hoje no cine­ma ame­ri­ca­no de gran­de pro­du­ção. A iro­nia supre­ma seria se ele con­quis­tas­se o Oscar de fil­me estran­gei­ro. Aliás, seria curi­o­so cote­já-lo com o con­cor­ren­te bra­si­lei­ro a uma indi­ca­ção, Pequeno segre­do, tam­bém em car­taz. Mas tal­vez seja covar­dia.

BR 716

O títu­lo do novo fil­me do vete­ra­no Domingos de Oliveira não se refe­re a uma rodo­via, mas ao apar­ta­men­to da rua Barata Ribeiro, em Copacabana, onde o dire­tor morou nos anos 1960. Rodado em pre­to e bran­co, o fil­me é uma evo­ca­ção sen­ti­men­tal e autoirô­ni­ca da juven­tu­de de sua gera­ção, com seu hedo­nis­mo, sua libe­ra­ção dos cos­tu­mes, sua bus­ca meio des­tram­be­lha­da de refe­rên­ci­as filo­só­fi­cas e polí­ti­cas.

É qua­se uma fes­ta per­ma­nen­te, com as oca­si­o­nais res­sa­cas ine­vi­tá­veis, as bri­gas, ciú­mes, trai­ções e per­das. O fil­me alia o fres­cor e a liber­da­de que carac­te­ri­zam o melhor cine­ma de Domingos, mas sem o des­lei­xo de mui­tos de seus tra­ba­lhos recen­tes. É qua­se como se ele reen­con­tras­se a ver­ve e a ins­pi­ra­ção poé­ti­ca de seus pri­mei­ros lon­gas, em espe­ci­al de Todas as mulhe­res do mun­do (1967).

Um dos acer­tos de BR 716, ao lado da calo­ro­sa tri­lha sono­ra, é a esca­la­ção de Caio Blat no papel do pro­ta­go­nis­ta Felipe, dono do apar­ta­men­to em que tudo se pas­sa. Mais que um alter ego, Blat é qua­se um remo­ça­do clo­ne do dire­tor, mime­ti­zan­do de modo impres­si­o­nan­te seu ges­tu­al e seu modo de falar. Uma bela atu­a­ção num belo fil­me.

Japoneses

Estão entran­do em car­taz tam­bém, numa coin­ci­dên­cia pou­co usu­al des­de que fecha­ram os cine­mas da Liberdade, em São Paulo, dois bons fil­mes japo­ne­ses, o dra­ma fami­li­ar Depois da  tem­pes­ta­de, de Hirokazu Kore-eda, e o thril­ler Creepy, de Kiyoshi Kurosawa, tam­bém em car­taz no IMS-RJ. Mas sobre eles seria neces­sá­rio desen­vol­ver um tex­to espe­cí­fi­co. Quem sabe na pró­xi­ma sema­na.

, , , , , ,