O que as urnas dizem das ruas, o que as ruas dizem das urnas

Colunistas

15.10.14

Um dos refrãos mais bati­dos des­de o anún­cio do resul­ta­do do pri­mei­ro tur­no das elei­ções tem sido o do fra­cas­so das mani­fes­ta­ções de rua dian­te da vitó­ria de uma ban­ca­da legis­la­ti­va majo­ri­ta­ri­a­men­te con­ser­va­do­ra, con­si­de­ra­da sinal inde­lé­vel de que a indig­na­ção dos pro­tes­tos não se expres­sou nas urnas, onde teri­am pre­va­le­ci­do a esco­lha de repre­sen­tan­tes em nada afi­na­dos com as rei­vin­di­ca­ções de junho do ano pas­sa­do. É exa­ta­men­te con­tra esta pers­pec­ti­va que pre­ten­do argu­men­tar. Só quem par­te da pre­mis­sa de que a insa­tis­fa­ção mani­fes­ta nas ruas deve­ria ter sido neces­sa­ri­a­men­te cana­li­za­da para elei­to­res de esquer­da pode estar decep­ci­o­na­do.

Para argu­men­tar ao con­trá­rio, é pre­ci­so aban­do­nar pri­mei­ro essa pre­mis­sa. Primeiro, que­ro lem­brar alguns dos slo­gans e pau­tas das mani­fes­ta­ções: “Sem par­ti­do” ou “Vocês não me repre­sen­tam”, numa for­mu­la­ção em que  “vocês” se diri­ge a todos aque­les que foram elei­tos a fim de defen­der o inte­res­se de algum tipo de eli­te – econô­mi­ca, polí­ti­ca, cor­po­ra­ti­va, reli­gi­o­sa –, em prol do inte­res­se de todos.  “Não é só pelos 20 cen­ta­vos”, “Não vai ter Copa” ou “Queremos saú­de padrão Fifa” tam­bém podem ser úteis na recor­da­ção de que a voz das ruas gri­ta­va indig­na­ção não neces­sa­ri­a­men­te con­tra “o” gover­no, mas con­tra qual­quer tipo de gover­no que pre­ten­da esta­be­le­cer, de cima para bai­xo, a par­tir de cri­té­ri­os téc­ni­cos sob os quais se escon­dem inte­res­ses escu­sos, o que é o bem comum.

A expres­são “bem comum” pode res­so­ar um pou­co ingê­nua em con­tex­to tão com­ple­xo, mas se eu tomar como exem­plo o mote da mobi­li­da­de urba­na e a rei­vin­di­ca­ção por pas­sa­gens gra­tui­tas, “bem comum” tal­vez pos­sa dei­xar de ser um ter­mo vago. O sis­te­ma públi­co de trans­por­tes é um para­do­xo da vida soci­al bra­si­lei­ra. É públi­co, porém é cobra­do por ser ofe­re­ci­do por empre­sas pri­va­das. Assim, ao con­trá­rio dos hos­pi­tais públi­cos ou das esco­las públi­cas, o trans­por­te públi­co é mano­bra­do por empre­sas pri­va­das em con­ces­sões pau­ta­das por inte­res­ses que pas­sam lon­ge de aten­der o bem comum. A pau­ta dos 20 cen­ta­vos, nes­se sen­ti­do, cata­li­sou a soma de todas as insa­tis­fa­ções com deci­sões que, toma­das nos gabi­ne­tes, pre­ten­de deci­dir a vida de quem só pode e pre­ci­sa andar na rua.

Se é pos­sí­vel con­cor­dar que a revol­ta é con­tra essa insa­tis­fa­ção, então tal­vez tam­bém seja pos­sí­vel pen­sar no resul­ta­do das urnas como par­te do mes­mo fenô­me­no que nos levou para as ruas: a des­cren­ça nas for­mas polí­ti­cas esta­be­le­ci­das. Em núme­ros, é pos­sí­vel detec­tá-la. Somados, abs­ten­ção, bran­cos e nulos che­gam a 29,03% dos votos para a pre­si­dên­cia da República, num vis­to­so ter­cei­ro lugar, bem à fren­te da can­di­da­tu­ra de Marina Silva, por exem­plo (21,32%). No Rio de Janeiro, no plei­to para gover­na­dor, esse per­cen­tu­al é tão expres­si­vo – 37,67% na soma de abs­ten­ção, bran­cos e nulos – que alcan­ça o segun­do lugar, com dis­cre­ta dife­ren­ça em rela­ção aos 40,57% de Luiz Fernando Pezão e acen­tu­a­da dis­tân­cia dos 20,26% de Marcelo Crivella. Em núme­ros abso­lu­tos, 34,8 milhões de elei­to­res não vota­ram para pre­si­dên­cia e 4,14 milhões de elei­to­res não vota­ram para gover­na­dor do Estado do Rio de Janeiro.

Consulta aos resul­ta­dos divul­ga­dos pelo TSE vão indi­car per­cen­tu­ais pró­xi­mos em outras regiões e seria oci­o­so repe­ti-los. Os dados estão aqui ape­nas para me aju­dar a encon­trar onde as urnas voca­li­za­ram aqui­lo que as ruas gri­tam des­de o ano pas­sa­do. O des­cré­di­to com a polí­ti­ca tra­di­ci­o­nal e com as for­mas demo­crá­ti­cas que, a rigor, man­ti­ve­ram uma estru­tu­ra de total afas­ta­men­to entre esta­do e povo pode encon­trar dife­ren­tes for­mas de expres­são. Além de uma nega­ção expres­si­va, é pre­ci­so con­si­de­rar tam­bém – ou prin­ci­pal­men­te – que a vota­ção em can­di­da­tos da extre­ma-direi­ta é par­te do mes­mo fenô­me­no (tome-se, por exem­plo, a expan­são da extre­ma-direi­ta em paí­ses euro­peus como aná­lo­go).

A razão é sim­ples: se a crí­ti­ca é à dis­tân­cia entre Estado e anseio popu­lar, essa crí­ti­ca tan­to pode se mani­fes­tar pelo seu extre­mo à direi­ta quan­to pelo seu extre­mo à esquer­da, dois cami­nhos dife­ren­tes de expres­sar insa­tis­fa­ção “com tudo isso que está aí”, já que “tudo isso que está aí” não quer dizer neces­sa­ri­a­men­te opo­si­ção a este ou aque­le gover­no, mas afir­ma­ção de que a for­ma polí­ti­ca da repre­sen­ta­ção está em cri­se no Brasil e em todas as demo­cra­ci­as moder­nas oci­den­tais. Crise cuja his­tó­ria gira em tor­no da impos­si­bi­li­da­de de repre­sen­ta­ção de um obje­to ao sujei­to, do mun­do a um eu;  cri­se que se apre­sen­ta como a impos­si­bi­li­da­de de que uma dada iden­ti­da­de polí­ti­ca – par­la­men­tar ou exe­cu­ti­va – repre­sen­te ade­qua­da­men­te uma dada iden­ti­da­de de um sujei­to polí­ti­co – cidadã/o ou eleitor/a.

A insis­tên­cia nes­ta cri­se é o que me per­mi­te não ade­rir à pre­mis­sa de que a insa­tis­fa­ção mani­fes­ta nas ruas deve­ria ter sido neces­sa­ri­a­men­te cana­li­za­da para elei­to­res de esquer­da e pen­sar que o lugar des­sa cri­se é a rua, naqui­lo que ela tem de mais vul­gar, comum e indis­tin­to. Estar na rua, nes­se sen­ti­do, é rei­vin­di­car que, seja lá quem pre­ten­da repre­sen­tar os inte­res­ses do povo, não pode­rá mais fazê-lo como o exer­cí­cio de um pri­vi­lé­gio.

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