August Sander, a fotografia e o tipo

Fotografia

06.12.12

Fotografia de August Sander (30ª Bienal/Divulgação)

Em 1931, o fotó­gra­fo ale­mão August Sander (1876–1964) pro­fe­riu em Colônia uma série de seis emis­sões radi­ofô­ni­cas inti­tu­la­da “Essência e evo­lu­ção da foto­gra­fia”. Com exce­ção da quin­ta con­fe­rên­cia, que já havia sido publi­ca­da em inglês e que a ZUM publi­cou pela pri­mei­ra vez em por­tu­guês, elas são iné­di­tas. Thomas Schatz-Nett, estu­di­o­so da obra de Sander, escre­veu um tex­to exclu­si­vo para a ZUM comen­tan­do “A foto­gra­fia como lin­gua­gem uni­ver­sal”. Ele está no momen­to pre­pa­ran­do uma edi­ção crí­ti­ca das seis pales­tras, que será publi­ca­da em bre­ve na Alemanha.

O pro­je­to mais impor­tan­te de Sander foi Os homens do sécu­lo 20, um arqui­vo tipo­ló­gi­co do povo ale­mão em uma épo­ca que o país se trans­for­ma­va dra­ma­ti­ca­men­te. Os mais de 600 retra­tos que com­põem o livro, tira­dos ao lon­go de mui­tos anos, podem ser con­fe­ri­dos até o fim des­ta sema­na na Trigésima Bienal de São Paulo. Leia abai­xo o tex­to de Thomas Schatz-Nett:

August Sander, a foto­gra­fia e o tipo

Portanto, vemos que o ser huma­no tam­bém impri­me sua mar­ca em seu tem­po, e a par­tir dis­so é dada ao fotó­gra­fo a pos­si­bi­li­da­de de com­pre­en­der a ima­gem fisi­onô­mi­ca de uma épo­ca por meio de sua câme­ra. Não ape­nas o ros­to, mas tam­bém o movi­men­to de uma pes­soa, faz par­te de seu cará­ter par­ti­cu­lar. Cabe ao fotó­gra­fo saber esta­bi­li­zar ou cap­tar esse movi­men­to carac­te­rís­ti­co, que refle­ti­rá então a fisi­o­no­mia em sua ver­são aca­ba­da na ima­gem indi­vi­du­al. O homem está no pri­mei­ro pla­no de todos os acon­te­ci­men­tos, pois é ele quem dá for­ma à ima­gem do mun­do, não con­ta­das, cla­ro, as ins­tân­ci­as supe­ri­o­res.”

Na estei­ra do ico­nic turn e do ambi­en­te visu­al­men­te cada vez mais pro­du­ti­vo, e por isso tal­vez mais difí­cil de com­pre­en­der, artis­tas e cien­tis­tas se ocu­pam hoje mais que nun­ca da ampla pro­du­ção de August Sander. É da quin­ta con­fe­rên­cia — “A foto­gra­fia como lin­gua­gem uni­ver­sal” -, repro­du­zi­da na ínte­gra na ZUM # 3, que vem a cita­ção que abre esta bre­ve intro­du­ção. Se a con­tem­pla­mos mais de per­to, logo resul­tam dis­so vári­as per­gun­tas: o que Sander com­pre­en­de como fisi­og­no­mo­nia? Que mei­os se encon­tram à dis­po­si­ção do fotó­gra­fo? E, por fim — para usar as pala­vras de Albert Renger-Patzsch (1961) -, a foto­gra­fia pode retra­tar um tipo?

O fotó­gra­fo ale­mão August Sander (1876–1964) ain­da conhe­ceu, no prin­cí­pio de sua lon­ga fase pro­du­ti­va, de mais de meio sécu­lo, os anti­gos pro­ce­di­men­tos foto­grá­fi­cos do sécu­lo 19. Depois da Primeira Guerra Mundial, ele se des­ta­cou a pon­to de tor­nar-se um dos prin­ci­pais repre­sen­tan­tes do movi­men­to artís­ti­co Nova Objetividade (NeueSachlichkeit). Sander fez, entre outros, regis­tros foto­grá­fi­cos de pai­sa­gens, da natu­re­za e da arqui­te­tu­ra. Mais conhe­ci­dos hoje, no entan­to, são seus retra­tos. Sobretudo com a publi­ca­ção de Semblante da épo­ca (Antlitz der Zeit), de 1929, Sander mere­ceu gran­de aten­ção. O volu­me foto­grá­fi­co apre­sen­ta um cor­te trans­ver­sal da soci­e­da­de da República de Weimar, e é, por­tan­to, uma sín­te­se des­sa soci­e­da­de. Semblante da épo­ca foi pen­sa­do por Sander como volu­me intro­du­tó­rio de seu pro­je­to de gran­de vul­to Os homens do sécu­lo 20 (Menschendes 20. Jahrhunderts). Provavelmente Sander come­çou a con­ce­bê-lo no iní­cio da déca­da de 1920, esti­mu­la­do por dis­cus­sões no âmbi­to do gru­po artís­ti­co cha­ma­do “pro­gres­sis­tas de Colônia” (Kölner pro­gres­si­ve), com o qual man­ti­nha estrei­to con­ta­to. Partindo de retra­tos de cli­en­tes no Westerwald, que ele visi­ta­va como fotó­gra­fo iti­ne­ran­te, sain­do do ate­liê em Colônia, e de outras foto­gra­fi­as que sur­gi­ram ao lon­go de déca­das, tan­to do cír­cu­lo de seus cli­en­tes na cida­de como tam­bém no de conhe­ci­dos, fami­li­a­res e de encon­tros casu­ais, Sander desen­vol­veu um obra arqui­vís­ti­ca orga­ni­za­da de modo qua­se enci­clo­pé­di­co. Isso ape­sar de as ima­gens não mos­tra­rem — pelo menos da for­ma como Sander as con­ce­bia — indi­ví­du­os, e sim repre­sen­tan­tes de uma cate­go­ria. O fotó­gra­fo expan­diu, cor­ri­giu e reor­de­nou seus arqui­vos duran­te a vida intei­ra, e sua obra só ganhou uma ver­são defi­ni­ti­va pos­tu­ma­men­te. Semblante da épo­ca está hoje entre os incu­ná­bu­los da his­tó­ria da foto­gra­fia, embo­ra os outros pro­je­tos, como suas fotos de pai­sa­gens, cons­ti­tu­am uma par­ce­la igual­men­te con­si­de­rá­vel de sua cri­a­ção.

Na pri­ma­ve­ra de 1931, dois anos após a publi­ca­ção de Semblante da épo­ca, Sander ela­bo­rou, para o Westdeutscher Rundfunk (wdr), a já men­ci­o­na­da série de con­fe­rên­ci­as, que per­mi­tiu ao con­ti­do Sander — no que dizia res­pei­to a escri­tos — uma nova pos­si­bi­li­da­de de expres­sar suas idei­as sobre a foto­gra­fia. Já há alguns anos havia uma cola­bo­ra­ção bas­tan­te estrei­ta entre ele e o wdr, e é pos­sí­vel que o tra­ba­lho, finan­cei­ra­men­te não des­pro­vi­do de inte­res­se, tenha sur­gi­do de uma ini­ci­a­ti­va de Walter Stern, reda­tor res­pon­sá­vel pelos seto­res de arqui­te­tu­ra e das artes plás­ti­cas no wdr, cujo nome era asso­ci­a­do aos “pro­gres­sis­tas de Colônia”.

A cita­ção repro­du­zi­da aqui des­cre­ve a com­pre­en­são da fisi­og­no­mo­nia por meio da “foto­gra­fia pura”, con­for­me o fotó­gra­fo se expres­sa em outra pas­sa­gem. Sander com­pre­en­de o con­cei­to de fisi­og­no­mo­nia de modo dife­ren­te de, por exem­plo, Johann Caspar Lavater (1741–1801) ou Franz Joseph Gall (1758–1828), que a enten­dem como a inter­pre­ta­ção das for­mas do ros­to e do crâ­nio. Para Sander, os ges­tos, as rou­pas, os atri­bu­tos, o ambi­en­te, a pos­tu­ra e até os movi­men­tos de uma pes­soa fazem par­te de sua fisi­og­no­mo­nia. Ele pare­ce sub­su­mir no con­cei­to de fisi­og­no­mo­nia tudo o que hoje com­pre­en­de­mos como aspec­tos da comu­ni­ca­ção não ver­bal, incluin­do o con­cei­to amplo da comu­ni­ca­ção visu­al. Sander tam­bém pare­ce reco­nhe­cer o poten­ci­al de uma fisi­og­no­mo­nia legí­vel sem­pre que tem­po, ambi­en­te ou a pró­pria pes­soa atu­em como um “selo”, e por isso fala de uma “ima­gem fisi­onô­mi­ca da épo­ca”. Isso diz res­pei­to não só a seres huma­nos mas tam­bém a cida­des e até pai­sa­gens, o que entre outras coi­sas tor­na com­pre­en­sí­vel seu gran­de inte­res­se pela foto­gra­fia pai­sa­gís­ti­ca.

O cre­do de Sander, fre­quen­te­men­te pro­cla­ma­do, era: ver, obser­var, pen­sar. Na psi­co­lo­gia da cog­ni­ção atu­al tal­vez se falas­se de pro­ces­sos top-down, bot­tom-up e de apren­di­za­do. E, se pen­sar­mos na sémi­o­lo­gie de Ferdinand de Saussure — ain­da que Sander pro­va­vel­men­te não a conhe­ces­se -, tam­bém se pode­ria falar, ana­lo­ga­men­te, em uma bus­ca por vín­cu­los entre ima­gem e con­cei­to, vín­cu­los que podem ser for­ma­dos nova­men­te ou dife­ren­ci­a­dos atra­vés da obser­va­ção inten­si­va. Mas o decor­rer des­se pro­ces­so de conhe­ci­men­to, teo­ri­ca­men­te apre­sen­ta­do em três fases, na prá­ti­ca suce­de con­di­ci­o­na­do de modo menos line­ar que situ­a­ci­o­nal, é pos­sí­vel inclu­si­ve que em inter­câm­bio irre­gu­lar. A câme­ra é o meio mais ade­qua­do para visu­a­li­zar esses três pas­sos cir­cu­la­res do encon­tro com o obje­to a ser inves­ti­ga­do. “Por meio de seu apa­re­lho”, con­for­me se com­pre­en­de, seria pos­sí­vel abran­ger “a ima­gem fisi­onô­mi­ca da épo­ca”.

E o que dizer, pois, do tipo? Por tipo deve-se com­pre­en­der um indi­ví­duo cujas carac­te­rís­ti­cas repre­sen­tam o fun­da­men­to para a deter­mi­na­ção de um gêne­ro ou espé­cie. E isso se asse­me­lha a um pro­tó­ti­po, que é o melhor repre­sen­tan­te de sua cate­go­ria. Mas ain­da assim a fisi­og­no­mo­nia de deter­mi­na­dos indi­ví­du­os se adé­qua mais a um pro­tó­ti­po do que a de outros. O que isso quer dizer para a foto­gra­fia? Pressupondo que o fotó­gra­fo encon­tre um repre­sen­tan­te ide­al e con­si­ga “esta­bi­li­zar e cap­tar” sua carac­te­rís­ti­ca pro­to­tí­pi­ca, sua fisi­og­no­mo­nia pode­rá retra­tar, na ima­gem foto­grá­fi­ca indi­vi­du­al, o tipo “em sua ver­são aca­ba­da”. É pos­sí­vel, por­tan­to, elu­ci­dar, pura­men­te com a foto­gra­fia, um pro­tó­ti­po, e assim esta­be­le­cer a foto­gra­fia de um tipo. August Sander diz: o homem “deli­neia a ima­gem do mun­do” e reco­nhe­ce para si, na con­di­ção de fotó­gra­fo, de modo inques­ti­o­na­vel­men­te lógi­co, a res­pon­sa­bi­li­da­de do docu­men­tá­rio.

* Thomas Schatz-Nett (Suíça, 1978) tra­ba­lha des­de 2009 em sua tese de dou­to­ra­do sobre August Sander, sob ori­en­ta­ção do cate­drá­ti­co dr. Bernd Stiegler, na Universidade de Constança, na Alemanha.

* Tradução de Marcelo Backes

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