José Geraldo Couto

Cinema líquido

José Geraldo Couto

21.07.17

De canção em canção, o novo filme de Terrence Malick, é um objeto – melhor seria dizer: um organismo – difícil de apreender, pois tudo nele é fluido: a história, os personagens, o modo de filmá-los. São fragmentos, retalhos, sem ordem cronológica ou progressão dramática aparente, das vidas de quatro personagens centrais.

Inventário de solidões

José Geraldo Couto

14.07.17

Fala comigo, longa-metragem de estreia do carioca Felipe Sholl, começa e termina no escuro, isto é, com palavras sendo ditas sobre a tela preta. O filme parece partir do princípio de que sempre haverá coisas – nos outros, no mundo e em nós mesmos – que nunca saberemos por completo. Enfeixando pulsões delicadas e complexas, esse filme surpreendentemente seguro para um estreante demonstra integridade e consistência cinematográfica.

Desmesurada poesia

José Geraldo Couto

07.07.17

Depois de realizar uma obra pouco numerosa mas com momentos cintilantes como El topo (1970), A montanha sagrada (1973) e Santa sangre (1989), o cineasta chileno Alejandro Jodorowsky ficou vinte e três anos sem filmar. Em 2013, aos 84 anos, retornou ao seu país e ao cinema para passar em revista sua vida e obra numa planejada série de cinco longas-metragens, dos quais A dança da realidade (2013) foi o primeiro. Poesia sem fim, seu novo filmeé o segundo.

Cinema sem arestas

José Geraldo Couto

30.06.17

Talvez não seja casual que, a certa altura de Uma família de dois, de Hugo Gélin, se faça referência a Eddie Murphy. Omar Sy está hoje para o cinema comercial francês como o comediante norte-americano estava para Hollywood nos anos 1980: é o astro negro oficial, escalado para dar aos filmes um verniz de simpatia e correção política e, no fim das contas, ajudar a mascarar ou edulcorar tensões raciais mais incômodas e verdadeiras.

Eros e Tânatos

José Geraldo Couto

22.06.17

Dia de falar brevemente de assuntos diversos. Um deles é Tabu (1931), último filme do gênio Friedrich Murnau. A história do trágico amor proibido entre dois jovens nativos de uma ilha dos Mares do Sul será exibido na Sessão Cinética desta quinta, dia 22/6, no cinema do IMS Rio. Como de costume, depois da exibição haverá um debate com os críticos da revista.

Os fundos falsos da guerra

José Geraldo Couto

14.06.17

Entre os filmes franceses da nova safra exibidos no Festival Varilux, um dos mais interessantes é sem dúvida Frantz, de François Ozon. Ser um drama de época não tira nem um pouco de sua atualidade, muito pelo contrário: ao evocar a animosidade da atmosfera europeia logo após a Primeira Guerra, coloca em relevo temas urgentes como o nacionalismo, a xenofobia, a dificuldade de entender e conviver com o “outro”.

A revolução dos bichos

José Geraldo Couto

09.06.17

Animal político,  primeiro longa-metragem do premiado cineasta pernambucano Tião, é um filme brasileiro dos mais surpreendentes e originais. Uma coisa é certa: depois de assistir a esse filme você nunca mais verá com os mesmos olhos uma vaca – e, aliás, nem os seres humanos.

Travis, eleitor de Trump

José Geraldo Couto

02.06.17

Martin Scorsese realizou obras marcantes em vários gêneros, mas ficará na história do cinema sobretudo por filmes incontornáveis como Taxi Driver, que volta aos cinemas brasileiros.

Mundo em ruínas, cinema vivo

José Geraldo Couto

26.05.17

Mesmo num mercado exibidor estrangulado como o nosso, o cinema brasileiro às vezes encontra brechas para nos revelar boas surpresas. É o caso de três filmes de diretores estreantes em longas-metragens que estão em cartaz no país. São bem diferentes entre si em temática, linguagem narrativa e tamanho de produção, mas, cada um à sua maneira, trazem um novo alento para os cinéfilos.

Entre a província e o mundo

José Geraldo Couto

19.05.17

Nos filmes de Mariano Cohn e Gastón Duprat, como este O cidadão ilustre, há sempre uma relação tensa e ambígua entre uma Argentina culta, cosmopolita, europeizada, e uma Argentina profunda, rude e arcaica. Esse conflito se traduz invariavelmente, em termos dramatúrgicos, nos desajustes entre um artista de talento e seu entorno, entre o absoluto da criação estética e as contingências do cotidiano. Entre arte e cultura, em suma, entendida esta última em seu sentido mais amplo, antropológico.