José Geraldo Couto

O fator humano

José Geraldo Couto

16.12.16

Diante de um filme como Sully, de Clint Eastwood, o espectador ingênuo tem a impressão de que tudo estava dado de antemão – o acontecimento real, os personagens, o drama – e de que bastavam os recursos materiais e tecnológicos disponíveis em Hollywood para colocar essa história na tela. “Com um material desses, qualquer um poderia ter feito esse filme”, diria ele. Ledo engano.

Como mergulhar em Blow-up

José Geraldo Couto

09.12.16

Há duas maneiras, não necessariamente excludentes, de ver Blow-up (1966), a obra-prima de Michelangelo Antonioni que volta em cópia restaurada aos cinemas brasileiros no ano em que completa meio século de idade. A primeira abordagem atentaria para aquilo que, no filme, serve como retrato de sua época. Visto assim, seria apenas um documento histórico, uma encantadora peça de museu. Mas há um modo mais produtivo de mergulhar nesse filme imenso e buscar as razões de sua persistente vitalidade.

O jogo da imitação

José Geraldo Couto

25.11.16

À saída de uma sessão de Cazuza – O tempo não para (2004), o que mais se ouvia da boca dos espectadores era: “Incrível como o ator (Daniel de Oliveira) parece uma encarnação do Cazuza”. Com Elis, agora, acontece o mesmo. O filme do estreante Hugo Prata baseia toda a sua eficácia na impressionante semelhança física e gestual entre a atriz Andréia Horta e a cantora retratada.

As sombras de Isabelle

José Geraldo Couto

18.11.16

Numa semana repleta de boas estreias, a mais importante certamente é Elle, o novo filme de Paul Verhoeven, que não tinha uma obra lançada por aqui desde A espiã, de dez anos atrás. Primeiro trabalho do diretor holandês rodado na França, Elle é baseado no romance Oh..., de Philippe Djian e gira em torno de uma enérgica empresária, Michèle Leblanc, dona de uma produtora de videogames. Melhor seria dizer: gira em torno de Isabelle Huppert, a fantástica atriz que a encarna.

Ficção e reportagem

José Geraldo Couto

11.11.16

Mais do que retratar um “herói ou traidor” (segundo o apelativo subtítulo brasileiro), Snowden, novo filme de Oliver Stone, tem o mérito de expor alguns dos temas cruciais de nossa época: a ruptura das fronteiras entre o privado e o público propiciada pela internet, o uso da tecnologia da informação para o controle social e político, as tensões geopolíticas e as guerras remotas, a promiscuidade entre poder institucional e grandes corporações, a margem estreita para a atuação de uma mídia independente etc.

Vida louca, morte besta

José Geraldo Couto

04.11.16

Curumim, de Marcos Prado, é um registro impressionante da autodestruição de um homem, Marco Archer Cardoso Moreira, fuzilado em 2015 por tráfico de drogas na Indonésia depois de onze anos no “corredor da morte”. Em 2012, quando ainda fazia os últimos apelos na esperança de anular ou comutar a sentença, Curumim resolveu documentar seu cotidiano numa prisão de segurança máxima em que dividia a cela com terroristas da Al Qaeda e outros traficantes. Mandava os vídeos pela internet ao diretor, que teve também acesso a um vasto material de arquivo da família e de amigos do personagem.

Trigo e joio na Mostra

José Geraldo Couto

28.10.16

Na reta final da 40ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, cabe separar o trigo do joio para não perder tempo nem oportunidades. Os comentários a seguir não são críticas, mas impressões provisórias e precárias. Voltaremos oportunamente e com mais detença a algumas dessas obras.

Paterson, Pitanga e poéticas

José Geraldo Couto

24.10.16

No oceano de filmes da Mostra de São Paulo, muita gente escolhe o que vai ver com base nas sinopses divulgadas na imprensa ou no catálogo da própria mostra. Nesse contexto uma obra como Paterson, de Jim Jarmusch, tende a ficar em segundo plano, mas é uma pequena joia escondida em meio ao brilho falso de bijuterias mais vistosas. Igualmente revigorante, mas por motivos quase opostos, é Pitanga, de Beto Brant e Camila Pitanga. Não se trata propriamente de um documentário sobre, mas sim com Antonio Pitanga. 

40ª Mostra de Cinema de São Paulo

A Mostra e os sonhos de Bellocchio

José Geraldo Couto

21.10.16

A Mostra Internacional de Cinema de São Paulo deste ano, a quadragésima, pode não estar tão recheada de novidades fortes como em anos anteriores, mas começou muito bem. Belos sonhos, novo filme de Marco Bellocchio, não apenas confirma a esplêndida forma que o cineasta italiano reencontrou na maturidade como também amarra várias pontas de sua inquieta filmografia.

Política com olhar caloroso

José Geraldo Couto

14.10.16

O que distingue a abordagem política do cineasta polonês Andrzej Wajda, que morreu aos 90 anos no último dia 9, é um olhar caloroso dirigido aos indivíduos, com suas fraquezas e contradições, e um olhar desconfiado diante das grandes ideias, promessas e sistemas. Por isso seu cinema segue mais vivo do que nunca.