Bach, Pixinguinha e os enigmas musicais

Música

27.04.12

É fre­quen­te na his­tó­ria da músi­ca a pro­po­si­ção de desa­fi­os musi­cais, nos quais com­po­si­to­res ins­ti­gam intér­pre­tes a resol­ve­rem “enig­mas” sono­ros de dife­ren­tes espé­ci­es. Um dos exem­plos mais céle­bres é a “Oferenda musi­cal” de Johann Sebastian Bach. Instado a com­por uma série de fugas — estru­tu­ra musi­cal onde os temas são repe­ti­dos por imi­ta­ção — a par­tir de um tema pro­pos­to pelo rei Frederico II da Prússia, o velho Bach “devol­veu” o desa­fio ao rei ao apre­sen­tar, além das fugas em suas for­mas tra­di­ci­o­nais, uma “fuga-enig­ma”, onde o com­po­si­tor omi­tia os luga­res exa­tos onde as imi­ta­ções se davam, caben­do ao intér­pre­te resol­ver esta espé­cie de cha­ra­da musi­cal. No cabe­ça­lho da par­ti­tu­ra des­ta fuga, o mes­tre ale­mão, cer­ta­men­te com o intui­to de sali­en­tar o cará­ter de pro­vo­ca­ção musi­cal, inse­riu a ins­cri­ção lati­na Quaerendo Invenietis, que pode ser tra­du­zi­do em por­tu­guês como “pro­cu­ra que achas”.

Ora, “Procura que achas” é jus­ta­men­te o títu­lo de um cho­ro de Pixinguinha, com­pos­to cer­ca de 200 anos depois da fuga-enig­ma de Bach, mas que se man­tém na mes­ma linha de cha­ra­da musi­cal do com­po­si­tor ale­mão. Só que no caso de Pixinguinha, o “enig­ma” con­sis­tia na des­co­ber­ta, por par­te dos acom­pa­nha­do­res de cho­ro, dos difí­ceis cami­nhos de har­mo­nia des­ta com­po­si­ção. Nas rodas de cho­ro nos ambi­en­tes popu­la­res do iní­cio do sécu­lo XX, ins­tru­men­tos acom­pa­nha­do­res, nor­mal­men­te vio­lões e cava­qui­nhos, exe­cu­ta­vam as har­mo­ni­as “de ouvi­do”, a par­tir da audi­ção da melo­dia pro­pos­ta pelo solis­ta, e os bons acom­pa­nha­do­res eram aque­les que não “caíam”, ou seja, não erra­vam na esco­lha da har­mo­nia.

Em cho­ros par­ti­cu­lar­men­te difí­ceis, como o “Procura que achas”, vio­lo­nis­tas e cava­qui­nis­tas cer­ta­men­te pena­vam para encon­trar as tor­tu­o­sas modu­la­ções harmô­ni­cas que a melo­dia suge­ria. Aliás, este desa­fio não se resu­miu a esta músi­ca na obra de Pixinguinha: um outro cho­ro, tam­bém com o pro­vo­ca­ti­vo títu­lo de “Quebra-cabe­ças”, traz a mes­ma pro­pos­ta de cha­ra­da harmô­ni­ca. Embora estes dois cho­ros tenham sido edi­ta­dos na déca­da de 1960, eles per­ma­ne­ce­ram pra­ti­ca­men­te des­co­nhe­ci­dos do gran­de públi­co, em par­te pelo fato de não terem sido até hoje gra­va­dos (terá sido jus­ta­men­te pelo cará­ter de “cha­ra­da” das duas com­po­si­ções?). Agora, o Instituto Moreira Salles pre­pa­ra uma nova publi­ca­ção onde rari­da­des como estas serão nova­men­te dis­po­ni­bi­li­za­das para músi­cos e aman­tes da músi­ca em geral: o livro Pixinguinha — Inéditas e redes­co­ber­tas, reu­nin­do 20 músi­cas do mes­tre bra­si­lei­ro, a ser lan­ça­do bre­ve­men­te. É cla­ro, todas as cha­ra­das musi­cais já se apre­sen­ta­rão devi­da­men­te “resol­vi­das” para delei­te de músi­cos e ouvin­tes.

Charadas à par­te, o que se cons­ta­ta é o fato de que o ver­da­dei­ro enig­ma que une com­po­si­to­res como Bach e Pixinguinha é a capa­ci­da­de de cri­a­ção de músi­cas que se tor­nam atem­po­rais. E este é cer­ta­men­te um enig­ma sem res­pos­ta.

* Pedro Aragão é músi­co e pro­fes­sor.

* Na ima­gem que ilus­tra esse post: tre­cho da “Oferenda musi­cal” de Bach.

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