Bellocchio e a dor do outro

No cinema

20.10.12

Começou a mara­to­na da 36ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. E come­çou bem. Veja aqui a pro­gra­ma­ção com­ple­ta.

O fil­me que abriu o even­to ontem (18 de outu­bro), o chi­le­no No, de Pablo Larraín, cen­tra­do no ple­bis­ci­to que deter­mi­nou o fim da dita­du­ra Pinochet, apre­sen­ta uma abor­da­gem sur­pre­en­den­te­men­te ágil e leve para um tema tão gra­ve. Mas que­ro falar de cine­ma, de gran­de cine­ma, e é isso, nada menos, o que nos ofe­re­ce A bela que dor­me, de Marco Bellocchio.

Em tor­no do con­tro­ver­ti­do caso da jovem ita­li­a­na Eluana Englaro (1970–2009), que pas­sou 17 anos em coma antes de ter des­li­ga­dos os apa­re­lhos que a ali­men­ta­vam e hidra­ta­vam, Bellocchio cons­truiu uma obra-pri­ma sobre a com­pai­xão.

http://www.youtube.com/watch?v=hSFlB4V7uns

A ação se con­cen­tra nas horas que pre­ce­de­ram a mor­te da moça, duran­te as quais a Itália se viu imer­sa em gran­de como­ção e numa cri­se polí­ti­ca pro­fun­da, pois o pri­mei­ro-minis­tro Berlusconi ten­tou impor um decre­to anu­lan­do a deci­são da supre­ma cor­te de ape­la­ções, que auto­ri­zou o pai de Eluana a des­li­gar os apa­re­lhos.

Várias his­tó­ri­as fic­tí­ci­as cor­rem em para­le­lo a esse even­to real: a de uma atriz (Isabelle Huppert) que aban­do­nou os pal­cos des­de que sua filha entrou em esta­do vege­ta­ti­vo; a de um sena­dor (Toni Servillo) que des­li­gou os apa­re­lhos que man­ti­nham viva sua pró­pria mulher, e que ago­ra tem de votar sobre o assun­to no Parlamento; a de um médi­co (Pier Giorgio Bellocchio, filho do dire­tor) que se empe­nha para sal­var do sui­cí­dio uma bela jun­kie (Maya Sansa) etc.

O que uni­fi­ca esses epi­só­di­os diver­sos é, por um lado, o noti­ciá­rio oni­pre­sen­te sobre a tra­gé­dia de Eluana; por outro, o tema comum do arbí­trio sobre a vida ou a mor­te de um ser huma­no. Bellocchio mul­ti­pli­ca em seu fil­me as “belas ador­me­ci­das” que podem ou não seguir viven­do, de acor­do com a deci­são dos que as cer­cam.

Documento e fic­ção

Incisivo e cora­jo­so, mas lon­ge da fúria mili­tan­te de seus pri­mei­ros tra­ba­lhos (como De punhos cer­ra­dos, em que um filho rebel­de mata a pró­pria mãe), Bellocchio pare­ce sobre­por às dis­cus­sões polí­ti­cas e reli­gi­o­sas o sen­ti­men­to supre­mo da iden­ti­fi­ca­ção com a dor alheia. Sim, os polí­ti­cos são opor­tu­nis­tas, o Vaticano é hipó­cri­ta, mas não é isso o que mais impor­ta, e sim a ver­da­de afe­ti­va (e moral) de cada um. É um fil­me dolo­ro­so como pou­cos.

Momentos de uma den­si­da­de ímpar pon­tu­am essa nar­ra­ti­va plu­ral, que mes­cla o docu­men­to e a fic­ção. A silhu­e­ta do sena­dor recor­ta-se escu­ra e soli­tá­ria con­tra a ima­gem do Parlamento em con­vul­são, pro­je­ta­da numa tela. A atriz reti­ra­da dei­xa o filho jun­to ao lei­to da filha em coma, reco­men­dan­do ao rapaz: “Fale com ela, ope­re o mila­gre; diga ?a pala­vra’”, o que reme­te ao clás­si­co Ordet — A pala­vra, de Dreyer. A mes­ma atriz, duran­te um sono agi­ta­do, na pol­tro­na ao lado da filha, reci­ta as falas cul­pa­das de Lady Macbeth. Políticos na banhei­ra fume­gan­te de már­mo­re de ter­mas anti­gas revi­vem o Senado da Roma impe­ri­al. O pas­sa­do e o pre­sen­te, a arte e a vida, o fugaz mun­do midiá­ti­co e o huma­nis­mo pere­ne, Shakespeare e a Bíblia, tudo se entre­la­ça com uma desen­vol­tu­ra notá­vel, num rit­mo ao mes­mo tem­po com­pas­si­vo e ele­tri­zan­te, pelas mãos de um cine­as­ta que atin­giu a ple­na matu­ri­da­de artís­ti­ca e éti­ca.

Outros gran­des fil­mes vêm por aí, mas este é, des­de já, um dos des­ta­ques da mos­tra.