Bernardet na contramão

No cinema

05.08.16

Fome, de Cristiano Burlan, que aca­ba de entrar em car­taz, acom­pa­nha as andan­ças de um velho men­di­go pelas duras ruas do cen­tro de São Paulo. Uma câme­ra flu­en­te segue de per­to seus pas­sos e regis­tra seus peque­nos ges­tos e oca­si­o­nais diá­lo­gos com outros habi­tan­tes da metró­po­le. Até aí, seria um ensaio ou pará­bo­la mais ou menos banal em tor­no da invi­si­bi­li­da­de soci­al, do ano­ni­ma­to urba­no, da con­di­ção de estar ao mes­mo tem­po den­tro e fora do espa­ço públi­co.

O que tor­na úni­ca essa expe­ri­ên­cia e lhe con­fe­re, ao menos para uma par­te dos espec­ta­do­res, uma dimen­são suple­men­tar de sig­ni­fi­ca­do é o fato de o pro­ta­go­nis­ta ser encar­na­do pelo crí­ti­co, pro­fes­sor, pes­qui­sa­dor e ensaís­ta Jean-Claude Bernardet – que até onde eu sei pre­fe­re ser cha­ma­do de ex-crí­ti­co, ex-pro­fes­sor, ex-pes­qui­sa­dor e ex-ensaís­ta.

Na con­tra­mão

Bernardet, que com­ple­tou 80 anos dois dias antes da estreia do fil­me, tem uma tra­je­tó­ria inte­lec­tu­al e exis­ten­ci­al des­con­cer­tan­te. Nascido na Bélgica de pais fran­ce­ses, pas­sou a infân­cia em Paris e veio para o Brasil aos 13 anos. O fato de até hoje, pas­sa­das qua­se sete déca­das, con­ti­nu­ar falan­do por­tu­guês com for­te sota­que tal­vez diga mui­to sobre um tra­ço bási­co seu: a resis­tên­cia. Resistência ao sen­so comum, à rea­li­da­de dada, à ten­dên­cia hegemô­ni­ca, à inte­gra­ção. Um cor­po deli­be­ra­da­men­te estra­nho, fora do eixo, na con­tra­cor­ren­te.

Pesquisador rigo­ro­so, crí­ti­co bri­lhan­te, pole­mis­ta sutil, autor de livros essen­ci­ais como Brasil em tem­po de cine­ma (1967) e Cineastas e ima­gens do povo (1985), rotei­ris­ta de clás­si­cos como O caso dos irmãos Naves (Luís Sérgio Person, 1967), Bernardet nos últi­mos tem­pos sur­pre­en­deu a todos ao tro­car a ati­vi­da­de inte­lec­tu­al pela car­rei­ra de ator. Nos últi­mos oito anos, des­de Filmefobia (2008), de Kiko Goifman, atu­ou em dez lon­gas-metra­gens (três dos quais ain­da iné­di­tos), o que dá uma média de mais de um por ano.

Sua resis­tên­cia físi­ca, mais do que inve­já­vel, é qua­se pro­di­gi­o­sa. Soropositivo há 25 anos (em 1996 publi­cou A doen­ça, uma expe­ri­ên­cia), qua­se cego, movi­men­ta-se pelo mun­do com uma desen­vol­tu­ra e um vigor cor­po­ral impres­si­o­nan­tes. No fil­me Pingo d’água (Taciano Valério, 2014), che­gou a enfi­ar-se intei­ro numa mala de pro­por­ções dimi­nu­tas e ain­da fechar-lhe o zíper, numa pro­e­za de con­tor­ci­o­nis­ta.

Pois bem. Voltemos ao fil­me de Cristiano Burlan. A cita­da carac­te­rís­ti­ca de resis­tên­cia (tal­vez fos­se melhor dizer de opo­si­ção) de Bernardet, esse seu espí­ri­to alti­va­men­te “do con­tra”, é que ani­ma o per­so­na­gem do men­di­go, a cer­ta altu­ra cha­ma­do de Joaquim. Não é pro­pri­a­men­te um misan­tro­po (acu­sa­ção fei­ta a cer­ta altu­ra por um ex-alu­no), mas alguém que não faz ques­tão de se ade­quar às expec­ta­ti­vas do outro. Alguém que pare­ce dizer em silên­cio os ver­sos de Caetano Veloso: “Onde que­res pra­zer, sou o que dói/ e onde que­res tor­tu­ra, mansidão,/ onde que­res um lar, revolução/ e onde que­res ban­di­do sou herói”.

Em seu péri­plo meio inex­pli­cá­vel pela cida­de (ele não men­di­ga, não vas­cu­lha lixo, não pro­cu­ra abri­go nem pes­so­as conhe­ci­das) esse per­so­na­gem invi­sí­vel aca­ba por reve­lar, por tor­nar visí­veis, os luga­res por onde pas­sa e os seres com quem, a con­tra­gos­to, se rela­ci­o­na: o casal de clas­se média e má cons­ci­ên­cia que lhe ofe­re­ce comi­da, a garo­ta que o entre­vis­ta para um tra­ba­lho uni­ver­si­tá­rio, o segu­ran­ça que o impe­de de se apro­xi­mar dan­çan­do de uma can­to­ra de rua, o com­pa­nhei­ro de per­noi­te na cal­ça­da.

Um tan­to por sua pró­pria natu­re­za híbri­da, outro tan­to por uma cer­ta auto­com­pla­cên­cia dos rea­li­za­do­res, tra­ta-se de uma nar­ra­ti­va irre­gu­lar, com vári­os momen­tos de ence­na­ção frou­xa (como o diá­lo­go na pra­ça com um ex-alu­no, encar­na­do pelo tam­bém crí­ti­co Francis Vogner, ou as entre­vis­tas da jovem uni­ver­si­tá­ria) e outros de uma áspe­ra bele­za, sobre­tu­do os fil­ma­dos à noi­te no Minhocão deser­to.

Para ter­mi­nar, uma dúvi­da e uma cer­te­za. A dúvi­da: como esse fil­me che­ga a um espec­ta­dor que não sabe quem é Jean-Claude Bernardet e vê ali ape­nas um velho esqui­si­to, meio petu­lan­te, que vive na rua e fala fran­cês? Mais que uma dúvi­da, é uma sin­ce­ra curi­o­si­da­de.

A cer­te­za: se o fil­me fos­se em cores, a feiu­ra da cida­de seria insu­por­tá­vel. Entretanto o pre­to e bran­co se jus­ti­fi­ca não ape­nas por uma razão esté­ti­ca em sen­ti­do estri­to (a bus­ca da “bele­za”), mas tam­bém por uma exi­gên­cia de sín­te­se e depu­ra­ção. A inten­ção do fil­me, cla­ra­men­te, não era de regis­tro natu­ra­lis­ta, mas de uma refle­xão mais ele­va­da sobre, entre outras coi­sas, a inser­ção de um indi­ví­duo sin­gu­lar no espa­ço cole­ti­vo e anô­ni­mo da cida­de. Um cor­po estra­nho num orga­nis­mo ain­da mais estra­nho, mas que nos habi­tu­a­mos a ver como nor­mal. Nesse sen­ti­do, pen­san­do bem, que esco­lha pode­ria ser melhor que Jean-Claude Bernardet?

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