Big Jato, Quintal e Tolstói

No cinema

25.09.15

Os dois gran­des ven­ce­do­res do recém-encer­ra­do Festival de Brasília, o lon­ga-metra­gem per­nam­bu­ca­no Big Jato e o cur­ta minei­ro Quintal, a des­pei­to de tudo o que os dife­ren­cia, têm algo em comum. São, cada um à sua manei­ra, atu­a­li­za­ções da céle­bre fra­se atri­buí­da a Tolstói: “Quer ser uni­ver­sal? Comece pin­tan­do a sua aldeia”.

No caso de Big Jato a aldeia é o vila­re­jo fic­tí­cio de Peixe de Pedra, encra­va­do no agres­te nor­des­ti­no, uma geo­gra­fia natu­ral e huma­na fami­li­ar tan­to ao cra­ten­se Xico Sá, autor do roman­ce auto­bi­o­grá­fi­co que ins­pi­rou o fil­me, como ao caru­a­ru­en­se Cláudio Assis, que o diri­giu.

Romance de for­ma­ção

Misto de fábu­la, “roman­ce de for­ma­ção” e crô­ni­ca de cos­tu­mes, o fil­me cen­tra seu foco no garo­to Xico, divi­di­do entre duas for­tes figu­ras pater­nas: o pai pro­pri­a­men­te dito, Chico, homem rude e auto­ri­tá­rio que con­duz pelas redon­de­zas seu cami­nhão lim­pa-fos­sas, e o tio Nelson, dio­ni­sía­co e fol­ga­zão radi­a­lis­ta da pre­cá­ria emis­so­ra local. Ambos são vivi­dos por Matheus Nachtergaele, em carac­te­ri­za­ções pri­mo­ro­sas, reple­tas de nuan­ces ines­pe­ra­das.

Desde o iní­cio, uma con­ver­sa entre pai e filho na boleia do cami­nhão, por estra­das empo­ei­ra­das da região, impe­ra um sabo­ro­so ana­cro­nis­mo, uma des­ca­ra­da liber­da­de de cons­tru­ção tem­po­ral, de manei­ra a cri­ar um tem­po fora do tem­po. No “fene­mê” do pai, o peque­no Xico per­gun­ta se todo mun­do “faz”, refe­rin­do-se evi­den­te­men­te à defe­ca­ção: “Até o Papa? Até o Messi?”

No iní­cio da bre­ve via­gem, Xico é um meni­no de uns dez anos (Francisco de Assis Moraes, filho do dire­tor); ao final, é um ado­les­cen­te de quin­ze (Rafael Nicácio). A foto­gra­fia sua­ve e lumi­no­sa de Marcelo Durst acen­tua a atmos­fe­ra de fábu­la sem cair na este­ti­za­ção e sem per­der o foco rea­lis­ta. O que se mos­tra é o real, é o coti­di­a­no de uma comu­ni­da­de do agres­te, ain­da que fil­tra­do pela memó­ria afe­ti­va do pro­ta­go­nis­ta.

O arcai­co e o pop

Real e ima­gi­ná­rio, aliás, não ape­nas dia­lo­gam, mas inter­pe­ne­tram-se o tem­po todo nes­sa nar­ra­ti­va que con­ju­ga o excre­men­to e a poe­sia, o arcai­co e o pop, o fós­sil e a for­ça vital. Algumas idei­as são geni­ais, como a da ban­da de rock local Os Betos, que influ­en­ci­ou os Beatles e saiu de cena por pres­são da indús­tria cul­tu­ral para não ofus­car o suces­so do gru­po inglês. “Let it lie”, o títu­lo de um hit dos Betos, é o lema que o radi­a­lis­ta Nelson usa em todos os momen­tos, em deli­ci­o­so idi­o­ma embro­ma­ti­on.

Outro acha­do bri­lhan­te é o per­so­na­gem do lou­co da aldeia, o Príncipe Ribamar, encar­na­do por Jards Macalé. Apaixonado pela prin­ce­sa Isabel, ele lhe escre­ve lon­gas car­tas nun­ca envi­a­das e ser­ve como con­se­lhei­ro sen­ti­men­tal do jovem Xico.

Planos con­tí­nu­os

A câme­ra de Cláudio Assis tra­fe­ga por esse uni­ver­so, ou antes o cons­ti­tui, com segu­ran­ça e suti­le­za, evi­tan­do o campo/contracampo e a frag­men­ta­ção das cenas. Em geral tudo acon­te­ce no inte­ri­or de seus pla­nos lon­gos, con­tí­nu­os, em que a entra­da de uma figu­ra no qua­dro alte­ra a com­po­si­ção dra­má­ti­ca, as rela­ções entre os per­so­na­gens, a dire­ção dos olha­res. Por vezes é um movi­men­to sutil de câme­ra, con­ju­ga­do com ligei­ras mudan­ças de foco, que trans­for­ma o sen­ti­do do que se mos­tra.

Um exem­plo elo­quen­te é a cena em que Xico está sen­ta­do num ban­co e vê, na cal­ça­da opos­ta, a garo­ta por quem está apai­xo­na­do (Pally Siqueira), con­ver­san­do com outro rapaz. Quando a cena come­ça, Xico está de cos­tas, a câme­ra acom­pa­nha Ribamar, que vem sen­tar a seu lado. Os dois con­ver­sam e só depois de um tem­po o lou­co per­ce­be o alhe­a­men­to do garo­to e cons­ta­ta, pela dire­ção do seu olhar, o inte­res­se de Xico pela meni­na. Só então cap­ta­mos a cena toda, tan­to no sen­ti­do visu­al como dra­má­ti­co.

Um pla­no-sequên­cia ain­da mais admi­rá­vel é o da ini­ci­a­ção sexu­al de Xico. Começa com um pla­no médio do meni­no com o pai numa mesa de bote­co, depois a câme­ra acom­pa­nha os dois atra­ves­san­do a rua, entran­do no bor­del em fren­te, até que Xico, entre­gue pelo pai, some de foco com uma puta ao fun­do do qua­dro. Ao lon­go de uma toma­da con­tí­nua, vemos de tudo: pla­no geral, pla­no médio, clo­se, pla­no ame­ri­ca­no. Montagem rea­li­za­da “na câme­ra”, numa lin­da cena de cine­ma.

Haveria mui­to mais a dizer sobre Big Jato, sobre a con­tra­po­si­ção poesia/matemática, sobre a atu­a­ção mar­can­te de Marcélia Cartaxo, sobre a cons­tru­ção dos ambi­en­tes (a cadeia, a casa, a estra­da, o bor­del, a rádio), sobre a pro­sa poé­ti­ca agres­te e des­bo­ca­da etc., mas o espa­ço é cur­to e have­rá outras opor­tu­ni­da­des de abor­dar o fil­me.

Cabe des­ta­car ape­nas mais uma coi­sa: a pre­sen­ça de cer­tas mar­cas regis­tra­das de Cláudio Assis, como as cenas fil­ma­das do alto, por uma câme­ra indis­cre­ta que pas­sa por cima de pare­des e divi­só­ri­as, e o momen­to em que um ator olha para a câme­ra, sub­ver­ten­do uma regra do cine­ma clás­si­co, e se diri­ge dire­ta­men­te ao espec­ta­dor com uma fra­se que pode­mos inter­pre­tar como decla­ra­ção de prin­cí­pi­os do pró­prio dire­tor. No caso de Big Jato a fra­se, dita pelo tio Nelson, é: “O ser­ta­ne­jo for­te é aque­le que par­te, não aque­le que fica para­do, cheio de mos­ca nas ven­tas, rolan­do bos­ta numa vida sem sen­ti­do”.

O exí­lio, a par­ti­da, eis afi­nal o moti­vo que per­meia todo o fil­me, cujo des­fe­cho rea­fir­ma e atu­a­li­za a dia­lé­ti­ca sertão/mar pre­sen­te no ima­gi­ná­rio nor­des­ti­no des­de Antônio Conselheiro. Vale a pena espe­rar por Big Jato.

Quintal

O cur­ta Quintal, por sua vez, radi­ca­li­za a pro­po­si­ção de Tolstói. Em vez de pin­tar sua aldeia, o dire­tor André Novais Oliveira pin­ta seu quin­tal, ou melhor, o quin­tal de seus pais, Maria José e Norberto Novais, na modes­ta casa do casal em Contagem (MG). Mas por esse quin­tal pas­sa o mun­do todo, fil­tra­do pela sen­si­bi­li­da­de do cine­as­ta e pela encan­ta­do­ra natu­ra­li­da­de de seus pais (Maria José foi pre­mi­a­da como melhor atriz em Brasília).

Combinando o mais pro­sai­co natu­ra­lis­mo com a mais des­bra­ga­da fan­ta­sia, Novais inse­re nos fun­dos da casa um mis­te­ri­o­so por­tal que engo­le o pai e o cachor­ro da famí­lia. Um ven­to pro­di­gi­o­so faz voar pedras e cara­mu­jos e só não leva a mãe embo­ra por­que ela se agar­ra às gra­des da jane­la, fican­do no ar na hori­zon­tal como numa cena de dese­nho ani­ma­do. Passada a ven­ta­nia, ela reco­lhe a rou­pa seca do varal como se nada tives­se acon­te­ci­do.

Tudo é ines­pe­ra­do e radi­an­te nes­se fil­me que faz da incon­gruên­cia uma fon­te con­tí­nua de humor e refle­xão. Não con­vém ante­ci­par o enre­do, mas bas­ta dizer que entram em cena um polí­ti­co encren­ca­do (que não é difí­cil asso­ci­ar ao sena­dor Aécio Neves), uma aca­de­mia de ginás­ti­ca e uma tese de mes­tra­do sobre bun­das e óle­os no cine­ma pornô. Tudo isso sem se afas­tar do quin­tal do títu­lo.

Cabe acom­pa­nhar com aten­ção a car­rei­ra do jovem dire­tor André Novais, rea­li­za­dor do notá­vel lon­ga Ela vol­ta na quin­ta (tam­bém pro­ta­go­ni­za­do por seus pais) e sócio-fun­da­dor da pro­du­to­ra minei­ra Filmes de Plástico.

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