Bling ring, radiografia do vazio

No cinema

23.08.13

Bling ring

Bling ring — A gan­gue de Hollywood é o aves­so per­fei­to de Edukators, de Hans Weingartner. No lon­ga ale­mão de 2004, um gru­po de jovens inva­dia man­sões para rear­ran­jar a mobí­lia e dei­xar men­sa­gens anti–esta­blish­ment. Para quem não viu, aqui vai o trai­ler:

http://www.youtube.com/watch?v=NyvcWkTYlN4

No fil­me de Sofia Coppola os ado­les­cen­tes inva­so­res só que­rem mime­ti­zar, embo­ra de modo extra­va­gan­te e qua­se paró­di­co, a vida das cele­bri­da­des em cujas casas pene­tram.

http://www.youtube.com/watch?v=-I83RwmA6b8

Num caso, o movi­men­to é de nega­ção da ordem vigen­te; no outro, de inte­gra­ção, ain­da que por meio de uma trans­gres­são da lei. Tudo que aque­les garo­tos da clas­se média de Los Angeles que­rem é ser — ou pare­cer ser, o que dá no mes­mo — como seus ocos e des­car­tá­veis ído­los. Para quê? Para mos­trar aos outros e a si mes­mos, num cír­cu­lo exi­bi­ci­o­nis­ta (uma das tra­du­ções pos­sí­veis de bling ring) que se auto­a­li­men­ta sem ces­sar.

Baseado num arti­go da Vanity Fair sobre um epi­só­dio real, Bling ring é fil­ma­do com cer­ta obje­ti­vi­da­de docu­men­tal, sem jul­gar os per­so­na­gens, mas tam­bém sem ade­rir pro­pri­a­men­te a eles.

Tudo é ima­gem

Nessa radi­o­gra­fia de uma soci­e­da­de em que tudo é ima­gem e a ima­gem é tudo, cha­ma a aten­ção o astu­ci­o­so jogo entre os vári­os mei­os de cap­ta­ção e exi­bi­ção: câme­ras de vigi­lân­cia, fotos e víde­os de celu­lar, noti­ciá­rio de tele­vi­são. Mais do que um fil­me sobre o delí­rio e a futi­li­da­de da fama (algo que o apro­xi­ma­ria de O rei da comé­dia, de Scorsese, e de Reality, de Matteo Garrone, den­tre outros), Bling ring é um estu­do sobre o nar­ci­sis­mo, e nis­so, de cer­ta for­ma, dá con­ti­nui­da­de a Maria Antonieta, de 2006. Basta pen­sar na cena em que o pro­ta­go­nis­ta (Israel Broussard) gra­va os pró­pri­os tre­jei­tos com a web­cam, ou nos inú­me­ros momen­tos em que a tur­ma se foto­gra­fa ou fil­ma em bala­das e nas casas inva­di­das.

Em sua nar­ra­ti­va des­con­tí­nua e só apa­ren­te­men­te ale­a­tó­ria, a dire­to­ra aca­ba por regis­trar mui­to do que carac­te­ri­za a soci­e­da­de nor­te-ame­ri­ca­na de nos­so tem­po: a suprar­re­a­li­da­de cri­a­da pelas redes soci­ais da inter­net; a mis­tu­ra entre “espi­ri­tu­a­li­da­de”, prag­ma­tis­mo e auto­a­ju­da (expres­sa pela mãe que edu­ca as filhas segun­do os prin­cí­pi­os do livro O segre­do); a oni­pre­sen­ça de câme­ras e celu­la­res; a subli­ma­ção do sexo no con­su­mo, na moda e no uso fre­né­ti­co de dro­gas; a iden­ti­fi­ca­ção entre dis­cur­so soci­al e publi­ci­da­de.

Diálogo com o cine­ma

De que­bra, Sofia Coppola pis­ca o olho iro­ni­ca­men­te para o pró­prio cine­ma ame­ri­ca­no, a ver­da­dei­ra pátria onde nas­ceu. Filmando num ter­ri­tó­rio povo­a­do de fan­tas­mas de outros fil­mes que, por sua vez, eram satu­ra­dos de cine­ma — de Sunset Boulevard a Mullholand Drive, pas­san­do por O joga­dor e Short cuts -, ela se fur­ta osten­si­va­men­te ao cli­chê hollywo­o­di­a­no quan­do, por exem­plo, sone­ga ao espec­ta­dor as tão cele­bra­das cenas de tri­bu­nal. O jul­ga­men­to dos jovens trans­gres­so­res é ocul­to por uma elip­se ins­pi­ra­da: a câme­ra mos­tra a por­ta do tri­bu­nal sen­do fecha­da por dois guar­das para o iní­cio da ses­são; cor­ta para o mes­mo pla­no dos guar­das abrin­do a por­ta logo depois que o mar­te­lo do juiz anun­cia o final do jul­ga­men­to.

Bling ring, em suma, pode até não ser um gran­de fil­me, mas pou­cos outros des­ta tem­po­ra­da dizem tan­to, e de manei­ra tão sagaz, sobre o mun­do em que vive­mos. E Sofia Coppola faz cada vez mais jus ao ilus­tre sobre­no­me que car­re­ga.

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