Boi neon e o homem como animal sublime

No cinema

15.01.16

Desde o títu­lo apa­ren­te­men­te para­do­xal, Boi neon apre­sen­ta-se, por um lado, como mais um fil­me per­nam­bu­ca­no recen­te que bus­ca con­ju­gar tra­di­ção e moder­ni­da­de, raí­zes arcai­cas e sig­nos da cul­tu­ra indus­tri­al con­tem­po­râ­nea. No caso, o uni­ver­so da vaque­ja­da em inte­ra­ção com o mun­do da moda, do con­su­mo, da ico­no­gra­fia pop.

Mas o fil­me de Gabriel Mascaro, pre­mi­a­do nos fes­ti­vais de Veneza, Toronto, Hamburgo, Rio e Salvador, é mui­to mais do que isso. Outras cama­das mais pro­fun­das o enri­que­cem e aden­sam, por trás (ou por bai­xo) de sua bela e fas­ci­nan­te super­fí­cie. Vamos a elas, não sem antes entre­gar uma sinop­se míni­ma, mas neces­sá­ria.

O pro­ta­go­nis­ta, Iremar (Juliano Cazarré), cui­da dos bois de uma com­pa­nhia iti­ne­ran­te de vaque­ja­das. Mora na car­ro­ce­ria do cami­nhão con­du­zi­do por Galega (Maeve Jinkins). Junto com um aju­dan­te (Carlos Pessoa) e a filha de Galega, a meni­na Cacá (Alyne Santana), for­mam uma inu­si­ta­da famí­lia. Nas horas vagas, Iremar bus­ca teci­dos e figu­ri­nos para dese­nhar e con­fec­ci­o­nar os tra­jes exó­ti­cos e eró­ti­cos que Galega usa em suas apre­sen­ta­ções de dan­ça.

Sobreposição de papeis

Há por­tan­to, des­de o iní­cio, um inte­res­san­te emba­ra­lha­men­to de papeis soci­ais e de gêne­ro. Mais do que uma mera inver­são espe­ta­cu­lar (o ser­ta­ne­jo cos­tu­rei­ro, a mulher cami­nho­nei­ra), o que vemos é uma sobre­po­si­ção de papeis em cada indi­ví­duo: ele é um vaquei­ro rude um esti­lis­ta sen­sí­vel; ela é uma enér­gi­ca moto­ris­ta uma dan­ça­ri­na sen­su­al. Outra per­so­na­gem femi­ni­na que apa­re­ce­rá depois é ao mes­mo tem­po ven­de­do­ra de per­fu­mes e vigia arma­da de uma fábri­ca. Ninguém é só uma coi­sa, um “tipo” uni­di­men­si­o­nal. As pró­pri­as pes­so­as têm cama­das, são ricas, inson­dá­veis.

Sob o olhar curi­o­so de Mascaro, des­pro­vi­do de jul­ga­men­to moral e inten­ção dou­tri­ná­ria, tudo se pas­sa com a leve­za e a desen­vol­tu­ra de seus ele­gan­tes tra­vel­lings des­cri­ti­vos. Nenhum ges­to decla­ra­tó­rio, nenhu­ma ênfa­se melo­dra­má­ti­ca, nenhum empu­nhar de ban­dei­ras pesa ali. Não se tra­ta de um dra­ma pan­fle­tá­rio sobre o pobre vaquei­ro incom­pre­en­di­do que que­ria ser esti­lis­ta de moda, nem de um mani­fes­to pela eman­ci­pa­ção da mulher opri­mi­da do ser­tão.

O pró­prio pano de fun­do his­tó­ri­co-soci­al – o cres­ci­men­to da indús­tria têx­til no Nordeste, a intro­du­ção dos valo­res e sig­nos do con­su­mo urba­no no mun­do rural – expõe-se natu­ral­men­te, em ima­gens for­tes e ori­gi­nais, como a do boi deco­ra­do com tin­ta fos­fo­res­cen­te que dá títu­lo ao fil­me.

Animalidade e cul­tu­ra

Liberto da pre­o­cu­pa­ção dou­tri­ná­ria, o dire­tor pode pene­trar em ter­re­no mais den­so e move­di­ço: as rela­ções entre o indi­ví­duo e a natu­re­za, entre o bio­ló­gi­co e o cul­tu­ral ou, para dizer de modo sole­ne, entre maté­ria e espí­ri­to.

Há pano para mui­tas man­gas aqui: psi­ca­na­lí­ti­cas, antro­po­ló­gi­cas, filo­só­fi­cas, até reli­gi­o­sas. Em prin­cí­pio, o que me pare­ce que o fil­me faz é res­sal­tar a ani­ma­li­da­de do homem, mas não enca­ran­do-a como um las­tro nega­ti­vo, a ser supe­ra­do pela cul­tu­ra, e sim como um patrimô­nio cuja nega­ção é não ape­nas impos­sí­vel como inde­se­já­vel. A con­di­ção ani­mal, tal como mos­tra­da por Mascaro, é subli­me. Ela não con­tra­diz a cul­tu­ra ou a espi­ri­tu­a­li­da­de em seu sen­ti­do mais amplo, mas a enri­que­ce e mati­za. Ao reco­nhe­cer e viver sua dimen­são ani­mal, o homem não se rebai­xa, mas se ele­va.

Daí que as ima­gens mais mar­can­tes des­se fil­me plas­ti­ca­men­te robus­to como um tou­ro e deli­ca­do como um reta­lho de seda tal­vez sejam a da mas­tur­ba­ção de um cava­lo de raça por um homem (para colher seu vali­o­so sêmen), a da dan­ça de uma mulher com cabe­ça de cava­lo e a hip­nó­ti­ca cena de sexo que não vou des­cre­ver aqui para não estra­gar a poe­sia e a sur­pre­sa.

O meni­no e o lobo

O lei­tor des­ta colu­na sabe que não cos­tu­mo dar exces­si­va impor­tân­cia ao Oscar. Mas mere­ce lou­vor e come­mo­ra­ção a indi­ca­ção do dese­nho ani­ma­do O meni­no e o mun­do, de Alê Abreu, para o prê­mio da cate­go­ria. Primeiro, por­que o fil­me é de fato extra­or­di­ná­rio, cati­van­te, ori­gi­nal, na con­tra­mão das ten­dên­ci­as pre­do­mi­nan­tes do gêne­ro. Segundo, por­que che­gou aon­de che­gou dis­cre­ta­men­te, sem estar­da­lha­ço de mídia e mar­ke­ting. Um gran­de fei­to da ani­ma­ção bra­si­lei­ra e de um de seus mai­o­res artis­tas.

No mes­mo depar­ta­men­to, de “fil­mes que che­gam lá sem alar­de”, O lobo atrás da por­ta, de Fernando Coimbra, é fina­lis­ta do pres­ti­gi­o­so prê­mio da Directors Guild of America, na cate­go­ria estre­an­te em lon­ga-metra­gem. Quando foi lan­ça­do nos cine­mas escre­vi sobre ele aqui.

Seria bom que ambos – O meni­no… O lobo… – entras­sem de novo em car­taz, para atin­gir, quem sabe, o públi­co que mere­cem.

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