Bonde 51

Colunistas

23.01.12

Vim parar em Bruxelas com uma tru­pe de tea­tro. Estão fazen­do ações na rua. Eu os acom­pa­nho. É uma espé­cie de pesa­de­lo. Fico saben­do que vão se divi­dir em três gru­pos: enquan­to uma atriz ofe­re­ce café e bola­chas aos pas­sa­gei­ros do bon­de 51, que cor­ta a cida­de de nor­te a sul, duas outras se pos­tam no meio do cor­re­dor de outro bon­de da mes­ma linha, ina­mo­ví­veis aos pedi­dos dos pas­sa­gei­ros que que­rem pas­sar, e um casal de ato­res se divi­de entre o bon­de e as para­das, ambos enro­la­dos, como múmi­as mal embal­sa­ma­das, em fitas ver­me­lhas e bran­cas, daque­las usa­das pela polí­cia para iso­lar cenas de cri­me e can­tei­ros de obras ou para inter­rom­per o trân­si­to, já não sei — as usa­das em cenas de cri­me não são ama­re­las e pre­tas?

No iní­cio, a aven­tu­ra, osci­lan­do entre a pega­di­nha e o tea­tro do opri­mi­do, me pare­ce con­de­na­da ao fra­cas­so. Sou do tipo fata­lis­ta enver­go­nha­do. Assim que uma lou­ca come­ça a gri­tar com uma das atri­zes que se man­têm imó­veis bem no meio do cor­re­dor do bon­de em movi­men­to, atra­pa­lhan­do a cir­cu­la­ção dos pas­sa­gei­ros, os olhos do res­to da tru­pe se vol­tam espe­ran­ço­sos para ela, como se o espe­tá­cu­lo tives­se enfim come­ça­do. Não come­çou. E de todo modo a ideia não é fazer um espe­tá­cu­lo, eles me dizem. Logo des­co­brem que não era pre­ci­so pega­di­nha nem tea­tro do opri­mi­do pra fazer a pas­sa­gei­ra gri­tar. A mulher é lou­ca. Xinga a atriz de todos os nomes, como podia ter xin­ga­do qual­quer outra pes­soa. Fala de sexo e de máfia, antes de des­cer do bon­de. Fico pen­san­do se tudo não teria pas­sa­do de uma infe­liz coin­ci­dên­cia: em vez de lou­ca, a mulher podia mui­to bem ser ape­nas outra atriz, de uma tru­pe con­cor­ren­te, que tives­se deci­di­do fazer seu exer­cí­cio de cons­ci­en­ti­za­ção no bon­de, na mes­ma hora da nos­sa inter­ven­ção. A via­gem pros­se­gue. Que é que eu estou fazen­do aqui?

Estou sen­ta­do dian­te de um casal de velhos que res­mun­ga a cada vez que o ator enro­la­do na fita iso­lan­te resol­ve tro­car de lugar. A velha olha para mim e balan­ça a cabe­ça: “Tem gen­te que não tem mais o que fazer”. Eu con­cor­do.

Para decep­ção do gru­po, nin­guém dá a míni­ma para a ação. E eu acho que é um pon­to para a cida­de. A indi­fe­ren­ça, nes­se caso, não é nada além de bom sen­so. Quando pas­sa­mos pela para­da onde a atriz está enro­la­da com a fita dos pés à cabe­ça, ata­da ao pos­te como uma Joana D’Arc na foguei­ra, à espe­ra de alguém para ati­çar o fogo, vejo che­gar um car­ro da polí­cia e os poli­ci­ais que des­cem às pres­sas e atra­ves­sam a rua, cor­ren­do na dire­ção da atriz. Ao mes­mo tem­po em que o pro­du­tor do gru­po, que havia se encar­re­ga­do de atá-la ao pos­te, tam­bém se apres­sa para escla­re­cer a situ­a­ção e impe­dir que o caos se ins­ta­le e a atriz seja pre­sa. O bon­de par­te, com a outra meta­de da tru­pe boqui­a­ber­ta, debru­ça­da nas jane­las, impo­ten­te dian­te do que vai acon­te­cer com a cole­ga. Penso comi­go: “Fodeu”.

Só uma hora depois, quan­do nos reen­con­tra­mos pra fazer o balan­ço da expe­ri­ên­cia, é que vamos saber o que acon­te­ceu de fato com a nos­sa Joana D’Arc. E é o opos­to do que eu espe­ra­va. A polí­cia não tinha vin­do pren­dê-la, mas res­ga­tá-la da puni­ção de algum mari­do ciu­men­to ou do cas­ti­go impos­to pelos cos­tu­mes bár­ba­ros de algu­ma cul­tu­ra exó­ti­ca (o bair­ro é mar­ca­da­men­te povo­a­do por imi­gran­tes). A autoi­mo­la­ção esta­va des­car­ta­da, já que não dava para a atriz se atar sozi­nha ao pos­te. Ao saber que ela é atriz, entre­tan­to, a polí­cia vai embo­ra, dese­jan­do-lhe boa sor­te no seu tra­ba­lho de conscientização/sensibilização.

Prefiro não par­ti­ci­par no segun­do dia de ações, e aca­bo per­den­do uma como­ção: ago­ra, com as atri­zes amar­ra­das a pos­tes em diver­sos pon­tos da linha do bon­de, a popu­la­ção se pre­ci­pi­ta para sal­vá-las. E são, na mai­o­ria, homens e mulhe­res muçul­ma­nas que, não con­ce­ben­do a pos­si­bi­li­da­de de uma per­for­man­ce, tam­pou­co podem supor­tar a vio­lên­cia da situ­a­ção. Num dos casos, é um homem que se apro­xi­ma da atriz com uma faca e, em pou­cos segun­dos, a liber­ta do cal­vá­rio. Em outro, um gru­po de homens e mulhe­res arran­cam as fai­xas com as mãos, dian­te da ima­gem insu­por­tá­vel. De nada adi­an­ta argu­men­tar que é per­for­man­ce. Essa gen­te só faz subir no meu con­cei­to. Se, ao con­trá­rio do gru­po de ato­res, não reco­nhe­cem a per­for­man­ce nem estão inte­res­sa­das em tea­tro é por­que vivem num mun­do em que essas ima­gens são pos­sí­veis.

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