Bons dias!

Literatura

23.05.15

O site Brasiliana Fotográfica, par­ce­ria do IMS com a Biblioteca Nacional, loca­li­zou Machado de Assis na mis­sa cam­pal de 17 de maio de 1888, na qual se cele­brou o fim da escra­vi­dão, decre­ta­do qua­tro dias antes. Em 19 de maio, ele escre­veu para a sua série “Bons dias!”, da Gazeta de Notícias, uma crô­ni­ca que se tor­nou clás­si­ca. O escri­tor usa de mui­ta iro­nia para mos­trar como a eli­te da épo­ca rece­bia a notí­cia do fim da escra­vi­dão. O “Eu” do tex­to, por­tan­to, não se tra­ta de Machado.

Machado de Assis (assinalado) aparece em detalhe de Missa campal celebrada em ação de graças pela Abolição da Escravatura no Brasil, 1888. São Cristóvão, Rio de Janeiro, RJ — Brasil. Fotografia de Antonio Luiz Ferreira / Coleção Dom João de Orleans e Bragança / acervo IMS.

 

Eu per­ten­ço a uma famí­lia de pro­fe­tas après coup, post fac­tum, depois do gato mor­to, ou como melhor nome tenha em holan­dês. Por isso digo, e juro se neces­sá­rio for, que toda a his­tó­ria des­ta lei de 13 de maio esta­va por mim pre­vis­ta, tan­to que na segun­da-fei­ra, antes mes­mo dos deba­tes, tra­tei de alfor­ri­ar um mole­co­te que tinha, pes­soa de seus dezoi­to anos, mais ou menos. Alforriá-lo era nada; enten­di que, per­di­do por mil, per­di­do por mil e qui­nhen­tos, e dei um jan­tar.

Neste jan­tar, a que meus ami­gos deram o nome de ban­que­te, em fal­ta de outro melhor, reu­ni umas cin­co pes­so­as, con­quan­to as notí­ci­as dis­ses­sem trin­ta e três (anos de Cristo), no intui­to de lhe dar um aspec­to sim­bó­li­co. 

No gol­pe do meio (coup du mili­eu, mas eu pre­fi­ro falar a minha lín­gua), levan­tei-me eu com a taça de cham­pa­nha e decla­rei que acom­pa­nhan­do as idei­as pre­ga­das por Cristo, há dezoi­to sécu­los, res­ti­tuía a liber­da­de ao meu escra­vo Pancrácio; que enten­dia que a nação intei­ra devia acom­pa­nhar as mes­mas idei­as e imi­tar o meu exem­plo; final­men­te, que a liber­da­de era um dom de Deus, que os homens não podi­am rou­bar sem peca­do. 

Pancrácio, que esta­va à esprei­ta, entrou na sala, como um fura­cão, e veio abra­çar-me os pés. Um dos meus ami­gos (creio que é ain­da meu sobri­nho) pegou de outra taça, e pediu à ilus­tre assem­bléia que cor­res­pon­des­se ao ato que aca­ba­va de publi­car, brin­dan­do ao pri­mei­ro dos cari­o­cas. Ouvi cabis­bai­xo; fiz outro dis­cur­so agra­de­cen­do, e entre­guei a car­ta ao mole­co­te. Todos os len­ços como­vi­dos apa­nha­ram as lágri­mas de admi­ra­ção. Caí na cadei­ra e não vi mais nada. De noi­te, rece­bi mui­tos car­tões. Creio que estão pin­tan­do o meu retra­to, e supo­nho que a óleo.

No dia seguin­te, cha­mei o Pancrácio e dis­se-lhe com rara fran­que­za: 

– Tu és livre, podes ir para onde qui­se­res. Aqui tens casa ami­ga, já conhe­ci­da e tens mais um orde­na­do, um orde­na­do que… 

– Oh! meu senhô! fico. 

– …Um orde­na­do peque­no, mas que há de cres­cer. Tudo cres­ce nes­te mun­do; tu cres­ces­te imen­sa­men­te. Quando nas­ces­te, eras um pir­ra­lho des­te tama­nho; hoje estás mais alto que eu. Deixa ver; olha, és mais alto qua­tro dedos…

– Artura não qué dizê nada, não, senhô… 

– Pequeno orde­na­do, repi­to, uns seis mil-réis; mas é de grão em grão que a gali­nha enche o seu papo. Tu vales mui­to mais que uma gali­nha.

 

– Justamente. Pois seis mil-réis. No fim de um ano, se anda­res bem, con­ta com oito. Oito ou sete. 

Pancrácio acei­tou tudo; acei­tou até um pete­le­co que lhe dei no dia seguin­te, por me não esco­var bem as botas; efei­tos da liber­da­de. Mas eu expli­quei-lhe que o pete­le­co, sen­do um impul­so natu­ral, não podia anu­lar o direi­to civil adqui­ri­do por um títu­lo que lhe dei. Ele con­ti­nu­a­va livre, eu de mau humor; eram dois esta­dos natu­rais, qua­se divi­nos.

Tudo com­pre­en­deu o meu bom Pancrácio; daí pra cá, tenho-lhe des­pe­di­do alguns pon­ta­pés, um ou outro puxão de ore­lhas, e cha­mo-lhe bes­ta quan­do lhe não cha­mo filho do dia­bo; cou­sas todas que ele rece­be humil­de­men­te, e (Deus me per­doe!) creio que até ale­gre. 

O meu pla­no está fei­to; que­ro ser depu­ta­do, e, na cir­cu­lar que man­da­rei aos meus elei­to­res, direi que, antes, mui­to antes da abo­li­ção legal, já eu, em casa, na modés­tia da famí­lia, liber­ta­va um escra­vo, ato que como­veu a toda a gen­te que dele teve notí­cia; que esse escra­vo ten­do apren­di­do a ler, escre­ver e con­tar, (sim­ples supo­si­ção) é então pro­fes­sor de filo­so­fia no Rio das Cobras; que os homens puros, gran­des e ver­da­dei­ra­men­te polí­ti­cos, não são os que obe­de­cem à lei, mas os que se ante­ci­pam a ela, dizen­do ao escra­vo: és livre, antes que o digam os pode­res públi­cos, sem­pre retar­da­tá­ri­os, trô­pe­gos e inca­pa­zes de res­tau­rar a jus­ti­ça na ter­ra, para satis­fa­ção do céu. 

Boas noi­tes.

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