Brasil, capital Paris

Colunistas

29.06.16

Acabam de che­gar às livra­ri­as dois títu­los que, à pri­mei­ra vis­ta, em nada se pare­cem. A tor­tu­ra como arma de guer­ra — Da Argélia ao Brasil, da jor­na­lis­ta Leneide Duarte-Plon (Civilização Brasileira) e Gênero e tra­ba­lho no Brasil e na França — Perspectivas inter­sec­ci­o­nais, cole­tâ­nea de arti­gos orga­ni­za­da pelas pes­qui­sa­do­ras Alice Abreu, Helena Hirata e Maria Rosa Lombardi (Boitempo Editorial) dis­cu­tem temas mui­to dis­tin­tos. No entan­to, ambos os livros têm em comum o deba­te das difí­ceis e intrin­ca­das rela­ções do Brasil com a França, em rela­ção a quem o país ocu­pa uma posi­ção ambí­gua. Por um lado, ado­ta his­to­ri­ca­men­te uma polí­ti­ca de sub­ser­vi­ên­cia, como mos­tram as pes­qui­sas de Leneide sobre a par­ti­ci­pa­ção fran­ce­sa no desen­vol­vi­men­to das téc­ni­cas de tor­tu­ra ampla­men­te usa­das pela dita­du­ra mili­tar de 1964. Neste que­si­to, é como se tam­bém tivés­se­mos sido colo­ni­za­dos pelos fran­ce­ses, inde­pen­den­te das que­re­las entre os his­to­ri­a­do­res sobre a exis­tên­cia da França Antártica. Basta lem­brar que a refor­ma urba­na do Rio de Janeiro foi ins­pi­ra­da no pro­je­to pari­si­en­se. Por outro lado, embo­ra no cam­po inte­lec­tu­al, cul­tu­ral e aca­dê­mi­co a França ocu­pe lugar pri­vi­le­gi­a­do e de refe­rên­cia – tan­to a pon­to de o livro sobre gêne­ro reu­nir uma ampla gama de pes­qui­sas bila­te­rais –, os ensai­os com­pa­ra­ti­vos entre as con­di­ções da mulher no mer­ca­do de tra­ba­lho bra­si­lei­ro e fran­cês mos­tra resul­ta­dos desas­tro­sos. No item dis­cri­mi­na­ção, não somos em nada melho­res do que os fran­ce­ses.

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As pes­qui­sas de Leneide explo­ram um tema que já foi tabu – o uso da tor­tu­ra como polí­ti­ca de esta­do –, e cuja atu­a­li­da­de na soci­e­da­de bra­si­lei­ra é fácil de per­ce­ber. Em abril, o coro­nel Carlos Alberto Brilhante Ustra foi lem­bra­do no ple­ná­rio da Câmara na vota­ção do impe­a­ch­ment da pre­si­den­te Dilma Roussef. A con­de­na­ção à tor­tu­ra foi motor de inú­me­ros depoi­men­tos nas comis­sões da ver­da­de e, por mais esfor­ços que já tenham sido fei­tos para denun­ciá-la como par­te das prá­ti­cas coti­di­a­na das polí­ci­as mili­ta­res, sua manu­ten­ção ain­da é tida como par­te natu­ral de um pro­je­to de segu­ran­ça públi­ca que tem como obje­ti­vo cri­mi­na­li­zar pobres, negros e mora­do­res de peri­fe­ri­as.

Radicada na França há déca­das, o tra­ba­lho de Leneide tem como eixo cen­tral as entre­vis­tas que fez com o gene­ral fran­cês Paul Aussaresses, res­pon­sá­vel pela implan­ta­ção da tor­tu­ra como arma de guer­ra na Argélia, nos anos 1950, e por sua expor­ta­ção para os paí­ses do Cone Sul: Brasil, Argentina, Chile e Uruguai. As dita­du­ras lati­no-ame­ri­ca­nas se ser­vi­ram dos ensi­na­men­tos de  Aussaresses e da dou­tri­na fran­ce­sa que ela­bo­rou a tese do “ini­mi­go inter­no”, com a qual os mili­ta­res bra­si­lei­ros dese­nha­ram a dou­tri­na de segu­ran­ça naci­o­nal her­da­da e man­ti­da pelos gover­nos civis. Por ini­mi­go inter­no enten­da-se inte­lec­tu­ais, comu­nis­tas, ope­rá­ri­os, estu­dan­tes, artis­tas, e todos aque­les que pos­sam ser iden­ti­fi­ca­dos como sim­pa­ti­zan­tes de idei­as tidas como “sub­ver­si­vas”. Para a expe­ri­ên­cia bra­si­lei­ra, Leneide mos­tra como os mili­ta­res fran­ce­ses con­ta­ram com ampla cola­bo­ra­ção com seus pares bra­si­lei­ros. Desde o fim da dita­du­ra, dei­xa­ram a tor­tu­ra como arma de com­ba­te e des­trui­ção e a noção de ini­mi­go inter­no que ain­da ori­en­ta a ação do Estado.

Em Gênero e tra­ba­lho no Brasil e na França, os 23 arti­gos são escri­tos por bra­si­lei­ras e fran­ce­sas dedi­ca­das ao tema da desi­gual­da­de entre homens e mulhe­res no mer­ca­do de tra­ba­lho. Numa das orga­ni­za­do­ras, Helena Hirata –soció­lo­ga bra­si­lei­ra radi­ca­da em Paris des­de que par­tiu para o exí­lio nos anos 1970 – está o eixo do diá­lo­go entre Brasil e França. Feminista mate­ri­a­lis­ta, ela faz par­te da cha­ma­da segun­da onda do movi­men­to de mulhe­res bra­si­lei­ro, na qual o con­fron­to com o ideá­rio mar­xis­ta foi ine­xo­rá­vel. Era pre­ci­so, como lem­brou Hirata em pales­tra no lan­ça­men­to do livro na UFRJ, enfren­tar o fato de que o tra­ba­lho ofe­re­ci­do às mulhe­res fun­ci­o­na­va como esto­que de reser­va para repo­si­ção de mão-de-obra em tem­pos de cri­se. Foi o que acon­te­ceu na Segunda Guerra, quan­do a eva­são de homens para as trin­chei­ras abriu opor­tu­ni­da­de de empre­go. Postos nes­tes ter­mos, o tra­ba­lho femi­ni­no se man­te­ria como secun­dá­rio, vari­an­do con­for­me a deman­da e por­tan­to impe­din­do que mulhe­res se esta­be­le­ces­sem no mer­ca­do.

No seu con­jun­to, o livro mos­tra que, lá como cá, as mulhe­res ganham menos, desem­pe­nham tare­fas secun­dá­ri­as, têm dian­te de si menos e pio­res opor­tu­ni­da­des de car­rei­ra, são dis­cri­mi­na­das e sobre­car­re­ga­das com o tra­ba­lho domés­ti­co e o cui­da­do das cri­an­ças, ati­vi­da­des não com­par­ti­lha­das tam­bém pelos homens fran­ce­ses. Se o machis­mo não é pri­vi­lé­gio bra­si­lei­ro, tam­pou­co a sub­ser­vi­ên­cia em rela­ção à França nos ser­viu para alcan­çar os ide­ais de liber­da­de, igual­da­de e fra­ter­ni­da­de que ins­pi­ra­ram a Revolução Francesa e mar­ca­ram a entra­da da Europa na moder­ni­da­de polí­ti­ca, já então denun­ci­a­da pelas mulhe­res como uma far­sa.

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