Brasil: modernidade sem crítica na Bienal de Veneza

Arquitetura

07.10.14

O tex­to abai­xo ori­gi­nou uma res­pos­ta por par­te de André Corrêa do Lago, cura­dor do pavi­lhão bra­si­lei­ro da Bienal de Arquitetura de Veneza.

Passou qua­se des­per­ce­bi­da a pre­sen­ça de Rem Koolhaas na 1ª Bienal de Arquitetura de Veneza, 34 anos atrás, embo­ra o arqui­te­to holan­dês já mos­tras­se sua auto­no­mia inte­lec­tu­al ao desa­fi­ar o tema dado pelo cura­dor Paolo Portoghesi (“A pre­sen­ça do pas­sa­do”) com a úni­ca expo­si­ção não his­to­ri­cis­ta da “Strada Nuovissima”. Havia qual­quer coi­sa de des­con­cer­tan­te na cor­ti­na pen­den­te da facha­da de Koolhaas, em con­tras­te com os ele­men­tos clás­si­cos mane­ja­dos com grau mai­or ou menor de iro­nia por arqui­te­tos como Robert Venturi, Aldo Rossi e Hans Kollhoff na rua ceno­grá­fi­ca cons­truí­da no inte­ri­or de um dos pavi­lhões do Arsenal. Naquele momen­to, no entan­to, pare­cia mais impor­tan­te dis­cu­tir a apo­te­o­se do pós-moder­nis­mo em arqui­te­tu­ra, num deba­te que se tor­nou irre­sis­tí­vel até para o filó­so­fo Jürgen Habermas.

Rome — San Giacomo Hospital the Ghost Block of Giambattista Nolli / 14.Mostra Internazionale di Architettura, Fundamentals, la Biennale di Venezia / Photo By Francesco Galli / Courtesy la Biennale di Venezia

Catorze edi­ções depois, Koolhaas retor­na à Bienal de Arquitetura mais pres­ti­gi­o­sa do mun­do como cura­dor de um mega­e­ven­to que tem sus­ci­ta­do gran­de polê­mi­ca des­de sua aber­tu­ra, em julho pas­sa­do. Porque a Bienal de Koolhaas não quer ser nem de pro­je­tos, nem de arqui­te­tos, nem de cida­de. Há um dis­tan­ci­a­men­to tam­bém em rela­ção ao foco no cole­ti­vo das últi­mas duas edi­ções, diri­gi­das res­pec­ti­va­men­te por Kazuyo Sejima e David Chipperfield (“People meet in archi­tec­tu­re” e “Common ground”). Esta é uma Bienal mais inte­res­sa­da nas com­ple­xas redes ao nível polí­ti­co-empre­sa­ri­al-ins­ti­tu­ci­o­nal-indus­tri­al, sem as quais difi­cil­men­te se faz arqui­te­tu­ra hoje. E por isso mes­mo não esca­pa de crí­ti­cas como a de Peter Eisenmann, que dias depois da aber­tu­ra se refe­riu à Bienal como “o fim da car­rei­ra de Koolhaas”.

Fundamentals”, em car­taz até novem­bro, é com­pos­ta de três mos­tras com­ple­men­ta­res: “Absorvendo a moder­ni­da­de: 1914–2014” (tema pro­pos­to às repre­sen­ta­ções naci­o­nais), “Monditalia” (com foco na Itália) e “Elementos de Arquitetura” (dedi­ca­da ao exa­me de 15 ele­men­tos iden­ti­fi­ca­dos pelo cura­dor como fun­da­men­tos da arqui­te­tu­ra atra­vés dos tem­pos). Seja pelo tema – pela pri­mei­ra vez, úni­co para todos -, seja pelo pres­tí­gio do cura­dor, o núme­ro de paí­ses par­ti­ci­pan­tes sal­tou este ano de 55 para 65, incluin­do paí­ses estre­an­tes como Costa do Marfim, Indonésia e Emirados Árabes. As dife­ren­tes inter­pre­ta­ções dadas ao tema geral con­fir­mam a impos­si­bi­li­da­de de qual­quer defi­ni­ção uní­vo­ca de moder­ni­da­de.  Alguns, como Kosovo, se decla­ra­ram refra­tá­ri­os à moder­ni­da­de; outros, como a Costa Rica, pro­ble­ma­ti­za­ram a rela­ção entre moder­ni­za­ção e pre­ser­va­ção. E outros, como a França, pro­cu­ra­ram dis­cu­tir a ambi­gui­da­de con­ti­da na pró­pria ideia de moder­ni­da­de, ora vis­ta como pro­mes­sa, ora como ame­a­ça. Nas repre­sen­ta­ções naci­o­nais, pre­do­mi­nou de todo modo um tom crí­ti­co em rela­ção ao sécu­lo ini­ci­a­do com a Primeira Guerra Mundial e o sis­te­ma Dom-ino de Le Corbusier. E alguns paí­ses não teme­ram fazer uma auto­crí­ti­ca ao seu pró­prio pro­ces­so de moder­ni­za­ção — caso do Chile, que desen­vol­veu um pri­mo­ro­so tra­ba­lho de pes­qui­sa e refle­xão a par­tir da loca­li­za­ção de um pai­nel pré-fabri­ca­do de con­cre­to pro­du­zi­do às vés­pe­ras da que­da de Allende.

O mes­mo tom crí­ti­co per­cor­re a seção “Monditalia”, no qual a pro­pos­ta foi rea­li­zar um “sca­ne­a­men­to” da situ­a­ção con­tem­po­râ­nea da Itália. Estão expos­tos na Corderie do Arsenal 41 pro­je­tos de pes­qui­sa e 82 fil­mes, entre cola­bo­ra­ções das outras seções da Bienal de Veneza (dan­ça, músi­ca, tea­tro e cine­ma). Encontramos aí regis­tros raros da arqui­te­tu­ra efê­me­ra da “Estate roma­na”, mani­fes­ta­ção cul­tu­ral pio­nei­ra que teve ori­gem no perío­do em que Giulio Carlo Argan foi pre­fei­to de Roma e rea­vi­vou o cen­tro da cida­de com uma pro­gra­ma­ção ao ar livre que che­gou a levar 50 mil pes­so­as à Basílica de Maxencio para ver um fil­me de Visconti. “La fine del mon­do” foca em cen­tros soci­ais sur­gi­dos nas déca­das de 1960 e 70, como Piper Club (Turim) e Leoncavallo (Milão). E não fal­ta uma expo­si­ção de um dos mais radi­cais gru­pos ita­li­a­nos da épo­ca (Superstudio), em que a rela­ção do tem­po com a arqui­te­tu­ra é invo­ca­da em cin­co maque­tes de sal de tipos arqui­tetô­ni­cos his­tó­ri­cos (como o tea­tro roma­no, a pirâ­mi­de, a basí­li­ca) que vão se desin­te­gran­do len­ta­men­te sob a ação da água, numa espé­cie de demons­tra­ção labo­ra­to­ri­al do pen­sa­men­to do gru­po ita­li­a­no: “A arqui­te­tu­ra está para o tem­po como o sal para a água”.

Luka Skansi, “The Remnants of the Miracle” / 14.Mostra Internazionale di Architettura, Fundamentals, la Biennale di Venezia / Photo By Francesco Galli / Courtesy la Biennale di Venezia

Quem per­cor­re o “Monditalia” per­cor­re, afi­nal, tam­bém uma his­tó­ria do desas­tre polí­ti­co e cul­tu­ral que mar­cou a Itália nos últi­mos 20 anos. No fil­me de Ila Beka e Louise Lemoine, o arqui­te­to Stefano Boeri visi­ta o com­ple­xo “La Maddalena”, que pro­je­tou para abri­gar o encon­tro do G8 em 2009. A edi­fi­ca­ção, hoje aban­do­na­da, não che­gou a cum­prir sua des­ti­na­ção, em fun­ção da deci­são do pre­mi­er Silvio Berlusconi de des­lo­car o even­to para a cida­de de L’Aquila, então des­truí­da por um ter­re­mo­to. Caminhando pela estru­tu­ra aban­do­na­da do que teria sido sua “obra-pri­ma”, Boeri se reco­nhe­ce como um “per­de­dor” dian­te do que se tor­nou o pró­prio “sím­bo­lo do desas­tre da polí­ti­ca ita­li­a­na”. Pouco adi­an­te, outra expo­si­ção ques­ti­o­na a recons­tru­ção de L’Aquila após 2009 — qua­se tão desas­tro­sa, do pon­to de vis­ta arqui­tetô­ni­co, pai­sa­gís­ti­co e ambi­en­tal quan­to o pró­prio ter­re­mo­to. “I res­ti di un mira­co­lo” faz um pai­nel de gran­des obras da arqui­te­tu­ra ita­li­a­na cons­truí­das no perío­do do “mila­gre econô­mi­co” ita­li­a­no (anos 1950–60) e hoje em esta­do de ruí­nas. E “The Ghost Block of Giambattista Nolli” inter­ro­ga os con­cei­tos de patrimô­nio públi­co e pre­ser­va­ção a par­tir do foco num hos­pi­tal públi­co cons­truí­do no cen­tro de Roma no sécu­lo XIV e fecha­do recen­te­men­te, para ser demo­li­do e trans­for­ma­do num empre­en­di­men­to imo­bi­liá­rio.

Biblioteca Laurenziana. AMO, Charlie Koolhaas, Rem Koolhaas, Manuel Orazi / 14.Mostra Internazionale di Architettura, Fundamentals, la Biennale di Venezia / Photo By Francesco Galli / Courtesy la Biennale di Venezia

Uma das expo­si­ções mais tocan­tes é um pai­nel dedi­ca­do à Biblioteca Laurenziana de Michelangelo em Florença, com um peque­no tex­to de Rem Koolhaas e fotos de sua filha, Charlie Koolhaas. O tema do “erro” apa­re­ce aqui como uma pro­vo­ca­ção para os arqui­te­tos que abrem mão do poten­ci­al trans­for­ma­dor – e, por que não?, trans­gres­sor – da arqui­te­tu­ra e se limi­tam a seguir nor­mas e dar res­pos­tas, numa pos­tu­ra obe­di­en­te e sub­ser­vi­en­te que só empo­bre­ce a sua pró­pria prá­ti­ca.   

A gran­de expo­si­ção cura­da pelo pró­prio Koolhaas está, no entan­to, no Pavilhão Central dos Jardins da Bienal. “Elementos de Arquitetura” é resul­ta­do de uma pes­qui­sa de dois anos, desen­vol­vi­da com alu­nos de pós-gra­du­a­ção da Harvard Graduate School of Design, em tor­no de 15 ele­men­tos con­si­de­ra­dos “fun­da­men­tais”: piso, pare­de, teto, cober­tu­ra, por­ta, jane­la, facha­da, bal­cão, cor­re­dor, larei­ra, toa­le­te, esca­da, ele­va­dor e ram­pa. Pode-se ques­ti­o­nar o argu­men­to usa­do pelo cura­dor na sele­ção des­ses ele­men­tos – “conhe­ci­dos uni­ver­sal­men­te e uti­li­za­dos por todos os arqui­te­tos em todos os luga­res e em todos os tem­pos”, segun­do ele. Mas, evi­den­te­men­te, o que está em jogo, antes de tudo, é a pró­pria ideia de tomar como obje­to de estu­do e expo­si­ção “ele­men­tos” arqui­tetô­ni­cos que não guar­dam nenhu­ma rela­ção com o que a tra­di­ção da arqui­te­tu­ra reco­nhe­ce como tais.

Fundamentals” / 14.Mostra Internazionale di Architettura, Fundamentals, la Biennale di Venezia / Photo By Francesco Galli / Courtesy la Biennale di Venezia

A expo­si­ção bus­ca dar uma dimen­são dis­cur­si­va a esses ele­men­tos, cons­truin­do um imen­so catá­lo­go 3D (e às vezes 4D) de itens arqui­tetô­ni­cos de todos os tem­pos, dis­pos­tos sem mui­ta orga­ni­za­ção cro­no­ló­gi­ca nem geo­grá­fi­ca. A satu­ra­ção de infor­ma­ções e estí­mu­los (visu­ais, tex­tu­ais e sono­ros) lem­bra às vezes as fei­ras de mate­ri­ais de cons­tru­ção, com aque­la mes­ma pro­fu­são de stands de indús­tri­as e for­ne­ce­do­res afoi­tos para exi­bir seus pro­du­tos. Noutras vezes, pare­ce se apro­xi­mar mais do “pas­tic­cio” de John Soane, his­to­ri­a­dor inglês que amon­to­ou em sua casa lon­dri­na incon­tá­veis frag­men­tos de arqui­te­tu­ra do mun­do clás­si­co. Só que Koolhaas nive­la tudo num Junkspace que eli­mi­na todas as expec­ta­ti­vas e reduz dras­ti­ca­men­te o lugar que ain­da se pode­ria rei­vin­di­car para o arqui­te­to – a não ser que se assu­ma de uma vez a arqui­te­tu­ra como uma mera ope­ra­ção de mon­ta­gem, ain­da que nada ingê­nua, con­for­me suge­re o fil­me que recep­ci­o­na o públi­co: uma edi­ção meio ater­ro­ri­zan­te de cenas extraí­das de vári­os fil­mes na qual encon­tra­mos os mes­mos ele­men­tos que são obje­to da expo­si­ção. 

O gos­to de Koolhaas pelo exces­so, como sem­pre, é des­nor­te­an­te. Algumas pre­ci­o­si­da­des, como o estu­do tipo­ló­gi­co das cober­tu­ras chi­ne­sas, aca­bam qua­se se per­den­do no amon­to­a­do de maque­tes que jus­ta­põe cober­tu­ras java­ne­sas à estru­tu­ras de Zaha Hadid, Mecanoo e Felix Candela. Se para quem é arqui­te­to já é can­sa­ti­vo, para quem não é deve ser insu­por­tá­vel. Por outro lado, o gigan­tis­mo des­ta Bienal reve­la tam­bém a capa­ci­da­de do cura­dor de con­ce­ber, reu­nir e coor­de­nar a rea­li­za­ção de um mega­e­ven­to que se des­do­bra pra­ti­ca­men­te em esca­la 1:1 fren­te à Veneza, agen­ci­an­do um teci­do soci­o­po­lí­ti­co hipe­rins­ti­tu­ci­o­na­li­za­do que inclui ins­ti­tui­ções his­tó­ri­cas como a pró­pria Bienal de Veneza, a pre­fei­tu­ra, museus, uni­ver­si­da­des, e cla­ro, as indús­tri­as e cor­po­ra­ções finan­cei­ras. É notá­vel tam­bém a rela­ção cons­truí­da entre a expo­si­ção e o livro que resu­me a pes­qui­sa de “Elements”. O livro (em seus 15 capítulos/fascículos) está lá, em vári­os momen­tos e de vári­os modos, mas não se tem a sen­sa­ção desa­gra­dá­vel de que a expo­si­ção tenha sido con­ce­bi­da como um “livro em pé”. Até por­que quem assi­na o design do livro — bem como a iden­ti­da­de grá­fi­ca de toda a Bienal — é Irma Boom, pre­mi­a­da por bus­car uma abor­da­gem arqui­tetô­ni­ca para o design de livros, em que aspec­tos como esca­la, estru­tu­ra e mate­ri­a­li­da­de são enfa­ti­za­dos.

Ponto for­te des­ta Bienal, a valo­ri­za­ção de arqui­vos come­ça pelo acer­vo da pró­pria ins­ti­tui­ção, de onde são extraí­dos vári­os tra­ba­lhos e lei­tu­ras (com des­ta­que para as plan­tas das dife­ren­tes con­fi­gu­ra­ções espa­ci­ais do pró­prio inte­ri­or do pavi­lhão cen­tral ao lon­go das Bienais, apre­sen­ta­das lado a lado na seção dedi­ca­da à pare­de). Mas sem dúvi­da um dos arqui­vos mais impres­si­o­nan­tes é o de Friedrich Mielke, ale­mão que teve uma per­na ampu­ta­da na Segunda Guerra e des­de então se dedi­cou a estu­dar obses­si­va­men­te esca­das, na sua rela­ção com o cor­po huma­no. Seu arqui­vo – hoje na Universidade de Regensburg — cons­ti­tui um imen­so catá­lo­go de tipo­lo­gi­as de esca­das, com­pos­to por frag­men­tos, fichas, fotos, estu­dos e mode­los de esca­das do mun­do todo. Isto lhe per­mi­te esta­be­le­cer com­pa­ra­ções entre uma esca­da aris­to­crá­ti­ca, por exem­plo, e uma esca­da bur­gue­sa, que apre­sen­ta degraus mais bai­xos e, por­tan­to, pode ser ven­ci­da mais rapi­da­men­te, além de ser mais estrei­ta, ocu­pan­do assim menor espa­ço.

 

Modernidade incon­ta­mi­na­da”

O Brasil está pre­sen­te pon­tu­al­men­te em vári­as seções. Na mos­tra ára­be, encon­tra­mos um pro­je­to de Oscar Niemeyer no Líbano. Já o inven­tá­rio de peda­go­gi­as radi­cais fei­to por Beatriz Colomina (e inex­pli­ca­vel­men­te incluí­do na seção “Monditalia”) inclui Lina Bo Bardi e Vilanova Artigas. Na vide­oins­ta­la­ção de Wolfgand Tilmans se reco­nhe­cem o Copan, tal­vez uma fave­la, o Minhocão e a Perimetral. E o Pavilhão do Uruguai (belís­si­ma estru­tu­ra de madei­ra, cabos de aço e água, ins­ta­la­da no inte­ri­or de um con­ven­to fora dos Giardini) inclui ima­gens de pro­je­tos de Affonso Eduardo Reidy em Assunção (esco­la Brasil-Paraguai e Cidade Universitária), e uma men­ção à visi­ta de Paulo Mendes da Rocha ao país.

Brazil: Modernity as Tradition”14.Mostra Internazionale di Architettura, Fundamentals, la Biennale di Venezia / Photo By Andrea Avezzù / Courtesy la Biennale di Venezia

O Brasil está qua­se ausen­te da expo­si­ção de Koolhaas, porém. Não o encon­tra­mos nem mes­mo na seção des­ti­na­da à cober­tu­ra, em que a pre­sen­ça de Niemeyer, pelo menos, seria de se espe­rar. É na seção dedi­ca­da aos “bal­cões” que encon­tra­mos mais ima­gens do Brasil — sob o pon­to de vis­ta do seu uso polí­ti­co, no entan­to, em fotos de Brizola e Lula ace­nan­do para o públi­co. Curiosamente — ou nem tan­to, se con­si­de­rar­mos o silên­cio já assi­na­la­do por Adrian Gorelik -, Brasília tam­pou­co figu­ra no pai­nel cro­no­ló­gi­co que ocu­pa o Pavilhão Stirling e que resu­me o sécu­lo em ter­mos de arqui­te­tu­ra. Ali, o Brasil apa­re­ce em três momen­tos: 1943 (expo­si­ção Brazil Builds no MoMA), 1953 (MAM-RJ) e 2001 (Parque Guinle) — o últi­mo, como expres­são de uma moder­ni­da­de supos­ta­men­te “ain­da incon­ta­mi­na­da”.

O tex­to de apre­sen­ta­ção apres­sa-se em escla­re­cer que o pai­nel foi mon­ta­do a par­tir de infor­ma­ções envi­a­das pelos cura­do­res das repre­sen­ta­ções naci­o­nais. Parece mais uma pro­vo­ca­ção, como se o cura­dor da Bienal não fos­se, ele mes­mo, um dos gran­des pen­sa­do­res atu­ais sobre os pro­ces­sos de moder­ni­za­ção e urba­ni­za­ção. O que seria essa moder­ni­da­de “ain­da incon­ta­mi­na­da”, em todo caso? Não seria o caso de inter­ro­gar mini­ma­men­te uma for­mu­la­ção como essa, de sim­plis­mo tão assom­bro­so?

Mas a par­ti­ci­pa­ção bra­si­lei­ra mos­tra-se mes­mo lamen­tá­vel quan­do se che­ga ao Pavilhão do Brasil. O tom crí­ti­co que mar­ca o Monditalia e vári­os outros pavi­lhões, assim como o enor­me poten­ci­al do tema geral ofe­re­ci­do por Koolhaas foram abso­lu­ta­men­te igno­ra­dos em prol de um pot-pour­ri acrí­ti­co que se apre­sen­ta com a pre­ten­são de fazer uma bre­ve his­tó­ria da arqui­te­tu­ra no Brasil des­de o sécu­lo XVIII até hoje. A expo­si­ção usa e abu­sa de fotos vis­to­sas e dis­põe pouquís­si­mas infor­ma­ções. Plantas e/ou cor­tes, por exem­plo, pra­ti­ca­men­te ine­xis­tem. Nem mapa, refe­rên­cia geo­grá­fi­ca ou con­tex­tu­a­li­za­ção. Mesmo quan­do se expõe algum resul­ta­do de pes­qui­sa — “mapas Nolli” de super­qua­dras de Brasília, pro­du­zi­dos por uma equi­pe da Universidade de Rice -, isso é fei­to de manei­ra super­fi­ci­al e apres­sa­da, com um grau de dida­tis­mo des­ca­bi­do (ou seria mes­mo pre­ci­so expli­car o mapa Nolli de Roma numa expo­si­ção mon­ta­da na Itália?)

O pro­je­to expo­grá­fi­co se limi­ta a colar fotos nas pare­des e fixar um per­cur­so line­ar por meio de injus­ti­fi­cá­veis divi­só­ri­as de iso­por que pro­cu­ram repro­du­zir ele­men­tos como tre­li­ças e cobo­gós. Sem jus­ti­fi­car o moti­vo pelo qual o amplo recor­te cro­no­ló­gi­co esca­pa ao sécu­lo foca­do pela Bienal, o cura­dor André Corrêa do Lago pro­põe uma estru­tu­ra bas­tan­te con­fu­sa: cro­no­ló­gi­ca até 1956 e, a par­tir de então, supos­ta­men­te tipo­ló­gi­ca. Mesmo aí, no entan­to, o resul­ta­do é cons­tran­ge­dor, pois o equí­vo­co de con­si­de­rar “casa” como um tipo, por exem­plo, se tor­na par­ti­cu­lar­men­te gra­ve numa expo­si­ção rea­li­za­da na ter­ra de Aldo Rossi (cujas inves­ti­ga­ções tipo­ló­gi­cas esta­be­le­ce­ram um mar­co teó­ri­co e pro­je­tu­al para a arqui­te­tu­ra da segun­da meta­de do sécu­lo XX, como se sabe).

Chile: Monolith controversies” / 14.Mostra Internazionale di Architettura, Fundamentals, la Biennale di Venezia / Photo By Andrea Avezzù / Courtesy la Biennale di Venezia

Essa suces­são de equí­vo­cos se tor­na mais espan­to­sa quan­do obser­va­mos o quan­to os melho­res pavi­lhões des­ta Bienal inves­ti­ram em pes­qui­sa: o Chile se con­cen­trou num ele­men­to pré-fabri­ca­do de alto valor sim­bó­li­co. O Japão abriu cai­xas e cai­xas de arqui­vos e docu­men­tos que reve­lam novos aspec­tos e per­so­na­gens de um dos perío­dos mais pro­du­ti­vos da sua arqui­te­tu­ra. Os Estados Unidos fize­ram do pró­prio pavi­lhão um espa­ço de pro­du­ção e docu­men­ta­ção sobre a expor­ta­ção da sua arqui­te­tu­ra num mun­do cada vez mais glo­ba­li­za­do. A Coreia inven­tou mei­os de mape­ar sua dico­to­mia. Em que pes­qui­sa, afi­nal, inves­tiu o Brasil? Ao des­con­si­de­rar o enor­me esfor­ço crí­ti­co e his­to­ri­o­grá­fi­co que tem sido fei­to no país nas últi­mas déca­das, com a aber­tu­ra de vári­as linhas de pes­qui­sa e inves­ti­ga­ção sobre a com­ple­xa moder­ni­da­de arqui­tetô­ni­ca bra­si­lei­ra, o que o Pavilhão do Brasil expõe, fun­da­men­tal­men­te, é nos­sa ima­tu­ri­da­de crí­ti­ca e cura­to­ri­al.

 

 

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