Brasília, capital Recife

No cinema

25.09.12

O cine­ma de Pernambuco ven­ceu de gole­a­da o Festival de Brasília, que aca­bou ontem (24 de setem­bro). Numa situ­a­ção rara, Era uma vez eu, Verônica, de Marcelo Gomes, e Eles vol­tam, de Marcelo Lordello, divi­di­ram o prê­mio de melhor fil­me. O pri­mei­ro ganhou ain­da o prê­mio do públi­co; o de Lordello, o da crí­ti­ca. Para com­ple­tar, outro per­nam­bu­ca­no, Daniel Aragão, levou o Candango de melhor dire­tor por Boa sor­te, meu amor.

Já falei sobre o vigor atu­al do cine­ma per­nam­bu­ca­no ao comen­tar aqui o notá­vel O som ao redor, de Kleber Mendonça Filho. Os ven­ce­do­res de Brasília não só com­pro­vam esse vigor, como aju­dam a enten­der o que é que os fil­mes per­nam­bu­ca­nos — ou ao menos os melho­res deles — têm de tão espe­ci­al.

Como a mai­o­ria dos lei­to­res ain­da não viu as obras em ques­tão, aqui vai uma apres­sa­da e pro­vi­só­ria sinop­se de cada um deles. Verônica tra­ta, gros­so modo, da cri­se pro­fis­si­o­nal e afe­ti­va de uma jovem psi­qui­a­tra de hos­pi­tal públi­co (a lumi­no­sa Hermila Guedes), às vol­tas com seu pai doen­te, seus paci­en­tes caren­tes e seus amo­res incons­tan­tes. É, ape­sar dis­so, um fil­me liber­tá­rio e solar, como suge­re este peque­no tea­ser:

http://www.youtube.com/watch?v=OMVmUlJlG6o

Alice às aves­sas

Já Eles vol­tam nar­ra a invo­lun­tá­ria via­gem ini­ciá­ti­ca de Cris (Maria Luiza Tavares, Candango de melhor atriz), uma garo­ta de 12 anos dei­xa­da com o irmão na bei­ra de uma estra­da pelos pais. O que era para ser um cas­ti­go momen­tâ­neo — os dois irmãos bri­ga­vam no car­ro — se esten­de inde­fi­ni­da­men­te. Cris é uma Alice às aves­sas, que sai de sua redo­ma de clas­se média urba­na para ser lan­ça­da abrup­ta­men­te no mun­do real e nas con­tin­gên­ci­as da vida adul­ta. De novo, o fres­cor do olhar e a pul­são vital ganham a para­da con­tra as con­di­ções adver­sas. Aqui, cenas do meio e do iní­cio do fil­me:

http://www.youtube.com/watch?v=_golz1Pa-40

Existe algu­ma coi­sa em comum entre dois fil­mes tão dife­ren­tes, à par­te o fato de terem sido fei­tos no mes­mo Estado? A meu ver sim. Ambos têm a facul­da­de de mer­gu­lhar no des­ti­no indi­vi­du­al de suas pro­ta­go­nis­tas, assu­min­do o seu pon­to de vis­ta, e de reve­lar de modo oblí­quo, atra­vés do olhar delas, o tem­po e a cir­cuns­tân­cia em que estão inse­ri­das. As fra­tu­ras soci­ais, os atri­tos entre o arcai­co e o moder­no, entre o públi­co e o pri­va­do, entre o cam­po e a cida­de (em Eles vol­tam), a ver­ti­gi­no­sa des­fi­gu­ra­ção de Recife (em Verônica), a con­vul­são de cos­tu­mes e valo­res — tudo isso as per­so­na­gens reve­lam à sua pas­sa­gem, à manei­ra da emul­são foto­grá­fi­ca que faz a ima­gem sur­gir no papel.

Ambos são obras essen­ci­al­men­te cine­ma­to­grá­fi­cas, isto é, que se valem de uma orga­ni­za­ção pre­ci­sa do espa­ço (os seres e obje­tos em sua rela­ção com o ambi­en­te) e do tem­po (a dura­ção de cada pla­no, o rit­mo da mon­ta­gem, as elip­ses) para expres­sar suas inqui­e­ta­ções e sua visão de mun­do. Da dia­lé­ti­ca entre aqui­lo que se mos­tra e aqui­lo que se ocul­ta, entre o den­tro e o fora do qua­dro, cada um deles extrai sua for­ça e seu encan­to. A ambí­gua Verônica, por mais que se expo­nha em depoi­men­tos ao gra­va­dor, pre­ser­va um núcleo impe­ne­trá­vel que desa­fia o espec­ta­dor à deci­fra­ção, se não à fan­ta­sia. Já a ino­cen­te Cris pare­ce des­co­brir as coi­sas jun­to conos­co, dese­nhar o mun­do a par­tir de seu pró­prio movi­men­to.

Em com­pa­ra­ção, um fil­me como A memó­ria que me con­tam, de Lucia Murat, tam­bém con­cor­ren­te, soa enve­lhe­ci­do, impo­ten­te, pois nele tudo se expli­ci­ta e se resol­ve nos diá­lo­gos, até mes­mo as dúvi­das e inqui­e­ta­ções dos per­so­na­gens (mili­tan­tes de esquer­da sobre­vi­ven­tes dos anos da dita­du­ra).

Observação soci­al e expres­são esté­ti­ca

Não que os diá­lo­gos não sejam impor­tan­tes e que, bem usa­dos, não pos­sam ser puro cine­ma. Um exem­plo é a mag­ní­fi­ca sequên­cia de aber­tu­ra de Boa sor­te, meu amor, em que um rapaz ouve de seu pai — um empre­sá­rio oriun­do da eli­te lati­fun­diá­ria — a his­tó­ria de sua bisa­vó índia, que vale por uma peque­na aula sobre a opres­são soci­al e étni­ca na for­ma­ção do Brasil “moder­no”. Um subs­tra­to de rea­li­da­de his­tó­ri­ca que anco­ra o fil­me e con­tra­ba­lan­ça um cer­to pen­dor para a afe­ta­ção que virá a seguir, como se per­ce­be por este trai­ler:

http://www.youtube.com/watch?v=kqHM30Mujak

Os cine­as­tas per­nam­bu­ca­nos, em seus melho­res momen­tos, con­se­guem a pro­e­za — rara em nos­sa fil­mo­gra­fia — de ali­ar a obser­va­ção soci­al e a expres­são esté­ti­ca, ou melhor, de trans­fi­gu­rar a pri­mei­ra na segun­da, sem cair nem no este­ti­cis­mo vazio, na feti­chi­za­ção da for­ma, nem na redu­ção do cine­ma a um mero ins­tru­men­to de pro­pa­ga­ção de idei­as pré-exis­ten­tes. Cinema, enfim, como bus­ca, apren­di­za­do, des­co­ber­ta, reve­la­ção. Tomara que essa pri­ma­ve­ra tenha vin­do para ficar.

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