Brasília em transe: um festival histórico

No cinema

24.09.14

Foi uma edi­ção his­tó­ri­ca do Festival de Brasília a que ter­mi­nou ontem (ter­ça-fei­ra, 16 de setem­bro). Não só pela deci­são iné­di­ta, toma­da pre­vi­a­men­te pelos pro­du­to­res e dire­to­res dos seis lon­gas-metra­gens con­cor­ren­tes, de divi­dir em par­tes iguais o prê­mio de R$ 250 mil des­ti­na­do ao melhor fil­me. Mas tam­bém pela for­ça das obras exi­bi­das, em espe­ci­al do lon­ga esco­lhi­do pelo júri ofi­ci­al, Branco sai. Preto fica, de Adirley Queirós.

Se bor­rar as fron­tei­ras entre fic­ção e docu­men­tá­rio já se tor­nou qua­se cor­ri­quei­ro, Branco sai radi­ca­li­za esse atra­ves­sa­men­to ao fazer bro­tar da rea­li­da­de mais bru­tal a fan­ta­sia mais livre e trans­for­ma­do­ra.

Concebido e fil­ma­do intei­ra­men­te na Ceilândia, cida­de-saté­li­te de Brasília, o fil­me par­te de um acon­te­ci­men­to trau­má­ti­co na vida da comu­ni­da­de: a ação poli­ci­al que dis­sol­veu com vio­lên­cia um bai­le black nos anos 80, dei­xan­do uma por­ção de feri­dos.

Entre eles, um homem que ficou para­plé­gi­co ao levar um tiro e outro que teve ampu­ta­da uma per­na esma­ga­da pela cava­la­ria. Eles pró­pri­os nar­ram sua his­tó­ria, enquan­to tocam sua vida, o pri­mei­ro (Marquim do Tropa, pre­mi­a­do como melhor ator) colo­can­do no ar sua rádio casei­ra, o segun­do fazen­do per­nas mecâ­ni­cas com mate­ri­al reci­cla­do. Mas isso já pode ser fic­ção. Não impor­ta saber.

Canibalização de gêne­ros

O sal­to espe­ta­cu­lar do fil­me con­sis­te em dei­xar o solo segu­ro da recons­ti­tui­ção docu­men­tal des­sas vidas des­tro­ça­das e pro­pi­ci­ar que elas pró­pri­as se rein­ven­tem na ima­gi­na­ção. Os sobre­vi­ven­tes do mas­sa­cre se tor­nam então pro­ta­go­nis­tas de uma des­ca­be­la­da tra­ma de sub­ver­são da ordem exis­ten­te. Há algo da lou­cu­ra anár­qui­ca do roman­ce Os sete lou­cos, de Roberto Arlt, igual­men­te ali­men­ta­da por um fér­til ima­gi­ná­rio popu­lar que cani­ba­li­za todo tipo de refe­rên­cia cul­tu­ral.

Espionagem, fic­ção cien­tí­fi­ca, dra­ma soci­al, tudo isso se mis­tu­ra com a mai­or desen­vol­tu­ra – tal­vez a pala­vra cer­ta seja des­fa­ça­tez – ao subs­tra­to docu­men­tal, que em nenhum momen­to é esque­ci­do. A tra­ma fic­tí­cia e o regis­tro fac­tu­al são cons­truí­dos e expos­tos com a mes­ma espes­su­ra, amal­ga­ma­dos de modo inex­tri­cá­vel. O resul­ta­do é um dos fil­mes mais poten­tes e esti­mu­lan­tes dos últi­mos anos, que supe­ra de um só gol­pe a viti­mi­za­ção dos opri­mi­dos, a sub­mis­são colo­ni­za­da a mode­los nar­ra­ti­vos hegemô­ni­cos, a fol­clo­ri­za­ção da cul­tu­ra popu­lar e uma por­ção de outros cami­nhos fáceis que nos­so cine­ma cos­tu­ma seguir.

O espec­ta­dor sai da ses­são (pelo menos eu saí) com um sen­ti­men­to para­do­xal: uma tris­te­za pro­fun­da por um país que con­ti­nua a esma­gar e muti­lar seus cida­dãos soci­al­men­te mais vul­ne­rá­reis e, ao mes­mo tem­po, uma qua­se eufo­ria pela cren­ça revi­go­ra­da na potên­cia liber­tá­ria do cine­ma.

País do futu­ro, pre­sen­te kaf­ki­a­no

Pelo menos dois outros lon­gas do fes­ti­val mere­cem aten­ção espe­ci­al: Brasil S/A, de Marcelo Pedroso (melhor dire­ção, rotei­ro, mon­ta­gem, tri­lha sono­ra e som), e Sem pena, de Eugenio Puppo (prê­mio do públi­co).

Não há espa­ço para dis­cor­rer sobre eles aqui. Basta dizer que o pri­mei­ro é uma core­o­gra­fia de seres e máqui­nas, sem diá­lo­gos, que brin­ca (a sério) com nos­sa autoi­ma­gem – e nos­sos auto­en­ga­nos – de “país do futu­ro”. O segun­do é um docu­men­tá­rio que reve­la de manei­ra ori­gi­nal, e essen­ci­al­men­te cine­ma­to­grá­fi­ca, as entra­nhas do nos­so kaf­ki­a­no sis­te­ma penal como uma engre­na­gem cru­el de con­tro­le e opres­são soci­al. Vamos falar sobre ambos opor­tu­na­men­te. Aqui, o trai­ler de Sem pena (o de Brasil S/A ain­da não está dis­po­ní­vel):

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