Bressane e a educação dos sentidos

No cinema

13.12.13

Júlio Bressane, um dos gran­des cine­as­tas bra­si­lei­ros em ati­vi­da­de, está com fil­me novo na pra­ça, Educação sen­ti­men­tal. É tal­vez sua melhor obra des­de o subli­me Filme de amor (2003), e pode ser vis­to como uma sín­te­se de suas obses­sões recen­tes (o tem­po huma­no e o tem­po cós­mi­co, a trans­pa­rên­cia e a opa­ci­da­de, a tira­nia do tra­ba­lho e o ócio contemplativo/criativo). Pena que pou­ca gen­te vai ver. Pérola para os pou­cos, como diria José Miguel Wisnik.

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Seu eixo é a ami­za­de entre um rapa­zi­nho (Bernardo Marinho) e uma mulher vin­te anos mais velha (Josie Antello). O tópi­co da edu­ca­ção sen­ti­men­tal de um jovem por uma mulher madu­ra é recor­ren­te na lite­ra­tu­ra mun­di­al des­de a Antiguidade. Aqui, Bressane o entre­la­ça ao mito de Selene, deu­sa gre­ga da lua, e seu amor proi­bi­do pelo jovem e belo mor­tal Endimião.

O dire­tor bati­zou seus per­so­na­gens, sig­ni­fi­ca­ti­va­men­te, de Áureo e Áurea. Além de rela­ti­vo a ouro, o adje­ti­vo “áureo” sig­ni­fi­ca tam­bém “mag­ni­fi­cen­te”, “que tem pri­ma­zia” e, não menos impor­tan­te, refe­re-se ao ciclo lunar que dura 19 anos.

Desde o iní­cio, por­tan­to, as cama­das de sig­ni­fi­ca­ção não ces­sam de se acu­mu­lar no fil­me, como cos­tu­ma acon­te­cer em Bressane, que sem­pre defi­niu o cine­ma como “um orga­nis­mo dema­si­a­do sen­sí­vel, atra­ves­sa­do por todas as artes e dis­ci­pli­nas”.

Desafio à inter­pre­ta­ção

A edu­ca­ção pro­por­ci­o­na­da aqui por Áurea a Áureo é, mais pre­ci­sa­men­te, uma edu­ca­ção dos sen­ti­dos. Nas con­ver­sas entre ambos, fala de lite­ra­tu­ra, de filo­so­fia, de artes, de músi­ca, expli­ca a ori­gem das pala­vras, a his­tó­ria dos obje­tos etc. Mas o que se fala é ape­nas um aspec­to do fil­me, con­ju­ga­do, modu­la­do e refra­ta­dos por todos os outros: a com­po­si­ção da ima­gem, os movi­men­tos (suti­lís­si­mos) de câme­ra, os ruí­dos, a músi­ca, a rela­ção entre cores, entre luz e som­bra, a dura­ção dos pla­nos, a alte­ra­ção da velo­ci­da­de etc.

É, sem exa­ge­ro retó­ri­co, um fil­me ines­go­tá­vel, que nos desa­fia a todo momen­to a fazer asso­ci­a­ções e inter­pre­ta­ções. Uma obra que nos con­fron­ta com nos­sa pró­pria igno­rân­cia esté­ti­ca, filo­só­fi­ca, lite­rá­ria, musi­cal, com nos­sa pró­pria sen­si­bi­li­da­de embo­ta­da. Há duas ati­tu­des pos­sí­veis dian­te des­sa inter­pe­la­ção: virar as cos­tas, tachan­do o fil­me de obs­cu­ro ou her­mé­ti­co, ou abrir-se a sua gene­ro­si­da­de, bus­car apren­der com ele e fora dele.

Alguns sig­nos, for­mas e pro­ce­di­men­tos res­sal­tam ao lon­go do fil­me. Sem pre­o­cu­pa­ção algu­ma com o rigor ana­lí­ti­co, vou me limi­tar a apon­tar alguns. São tal­vez pon­tas de ice­bergs a ser explo­ra­dos em pro­fun­di­da­de por mer­gu­lha­do­res de mai­or fôle­go.

Transparência e opa­ci­da­de

Há, por exem­plo, a recor­rên­cia do moti­vo da trans­pa­rên­cia e da opa­ci­da­de. Não ape­nas na cena mag­ní­fi­ca em que Áurea desen­ro­la dian­te da câme­ra um peda­ço de fil­me em pre­to e bran­co, pro­du­zin­do um ras­cu­nho da ilu­são de movi­men­to, enquan­to dis­cur­sa sobre o cine­ma, que “esta­rá em bre­ve no museu das sen­si­bi­li­da­des per­di­das”. Mas tam­bém no recur­so fre­quen­te às “más­ca­ras” que, como as íris dos fil­mes mudos, recor­tam ape­nas o peda­ço da ima­gem que se pre­ten­de mos­trar. Os pró­pri­os per­so­na­gens segu­ram em vári­as cenas — sobre­tu­do nos dez minu­tos finais — as folhas de pape­lão pre­to recor­ta­do usa­das para cri­ar o efei­to.

A for­ma que mais se repe­te nes­ses recor­tes é o tri­ân­gu­lo isós­ce­les, sím­bo­lo do femi­ni­no e da divin­da­de nas mais diver­sas cul­tu­ras. Esse tri­ân­gu­lo (um “V” inver­ti­do) rever­be­ra inú­me­ras vezes na com­po­si­ção da ima­gem, por con­ta de cor­ti­nas par­ci­al­men­te aber­tas, por exem­plo, mas tam­bém das ruas e cor­re­do­res por onde os per­so­na­gens cami­nham em dire­ção a um pon­to de fuga/vértice — o que pode suge­rir, aliás, a noção de pene­tra­ção.

Triângulos apa­re­cem tam­bém num qua­dro ao fun­do da sale­ta onde os per­so­na­gens con­ver­sam, e na vas­sou­ra tri­an­gu­lar azul, sem cabo, pen­du­ra­da na pare­de, que, vis­ta a meia dis­tân­cia, pode reme­ter à ima­gem de Nossa Senhora Aparecida ou à do ori­xá Nanã. Remete tam­bém, mais con­cre­ta­men­te, ao can­tor Vassourinha, cita­do nas falas de Áurea e na tri­lha sono­ra. É a esse tipo de asso­ci­a­ção, per­ti­nen­te ou não, que o cine­ma de Bressane nos ins­ti­ga.

As entra­nhas e o cos­mo

Há um diá­lo­go cons­tan­te das ima­gens com a tra­di­ção da pin­tu­ra, sobre­tu­do com natu­re­zas-mor­tas, mari­nas e retra­tos, do Renascimento ao sur­re­a­lis­mo, do bar­ro­co a Matisse.

A ideia-cha­ve do fil­me é a de que vive­mos numa épo­ca de valo­ri­za­ção do dinhei­ro e do uti­li­ta­ris­mo, que “empe­drou o cora­ção dos homens”. Por isso Bressane fez deli­be­ra­da­men­te um fil­me ana­crô­ni­co. Um fil­me não ape­nas fora de seu tem­po, mas con­tra seu tem­po. Como em Filme de amor, cons­truiu como que uma ilha de sen­si­bi­li­da­de em meio à estu­pi­dez rei­nan­te.

No cen­tro des­sa aula-expe­ri­ên­cia está a ima­gem da lua com sua “natu­re­za andró­gi­na, femi­ni­na em rela­ção ao sol, mas­cu­li­na em rela­ção à ter­ra”. A lua como “intér­pre­te entre imor­tal e mor­tal”. Também a mulher apa­re­ce aqui como pon­te entre o con­tin­gen­te e o infi­ni­to. Por meio da dan­ça, ela fun­de dio­ni­si­a­ca­men­te as entra­nhas e o cos­mo.

A lua está asso­ci­a­da ao femi­ni­no, à fer­ti­li­da­de, à ima­gi­na­ção, mas tam­bém à doen­ça e à lou­cu­ra (a pala­vra “luná­ti­co” não saiu do nada, e em tem­pos anti­gos foi sinô­ni­mo de epi­lé­ti­co).

Outras asso­ci­a­ções bro­tam sem parar: o tre­cho de pelí­cu­la desen­ro­la­do por Áurea, sal­vo enga­no, é do Tabu de Murnau. Bressane fez tam­bém seu pró­prio Tabu (1982), e no cen­tro de Educação sen­ti­men­tal com­pa­re­ce o tabu pri­mor­di­al, o do inces­to, tra­zi­do à bai­la pela mãe de Áureo (Débora Olivieri).

Jogos visu­ais e ver­bais

Impossível dar con­ta da miría­de de sig­nos, sím­bo­los, jogos visu­ais e ver­bais colo­ca­dos em movi­men­to pelo dire­tor num fil­me apa­ren­te­men­te tão plá­ci­do e come­di­do. Os dez minu­tos finais não são meras “cenas de fil­ma­gem”, à manei­ra dos making of con­ven­ci­o­nais, nem tam­pou­co a assi­na­tu­ra meta­lin­guís­ti­ca que nos habi­tu­a­mos a ver em vári­as obras de Bressane. São, na ver­da­de, cha­ves de lei­tu­ra, que aju­dam a fruir melhor cer­tas pas­sa­gens e inci­tam a novas inter­pre­ta­ções. Não são um apên­di­ce ao fil­me, mas uma par­te inte­gran­te, orgâ­ni­ca e essen­ci­al dele.

Educação sen­ti­men­tal, como toda obra de arte, não aca­ba quan­do apa­re­ce a pala­vra “Fim”, mas se espraia para além de suas mar­gens, em todas as dire­ções, com o espec­ta­dor que o leva con­si­go ao tér­mi­no da ses­são, pois, como diz Áurea a cer­ta altu­ra, “con­tem­plar é par­ti­ci­par”.

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