Bruna querida,

Correspondência

27.03.13

Leia a car­ta ante­ri­or.                                                                                              Leia a pró­xi­ma car­ta.

Bruna que­ri­da,

Que car­ta lin­da! Preferia que, em vez do poe­ma escri­to, esti­ves­se eu ali e falas­se o poe­ma e, em ven­do seu encan­to, pulas­se da tela, a la Woody Allen, em cima de você. Melhor não. Você esta­ria mui­to ocu­pa­da. De todo jei­to, fiquei pro­sa com o impac­to des­se tre­cho do poe­ma sobre você. O poe­ma cha­ma “Nada será como antes”. Ele todo é assim: “Nosso amor puro / Pulou o muro / Caiu na vida. // Jamais sere­mos o par român­ti­co / Que outro­ra fomos”.

A pri­mei­ra vez que pus os olhos sobre você, Bruna, embo­ra não tenha cer­te­za, foi numa noi­te de Flip em 2005. Ali num bote­co na rua atrás da pra­ça. Estava com a Cecília Giannetti e ela me dis­se: “que­ro te apre­sen­tar a uma poe­ta”. E, de repen­te, você sai do fun­do do bar e no meio da nuvem etí­li­ca, da alga­ra­via de maru­jos alco­o­li­za­dos, me olha atrás das suas len­tes de fun­do de gar­ra­fa. Conversamos coi­sas ani­ma­das que fogem na bru­ma do tem­po. Talvez tenha lhe con­vi­da­do para fazer o CEP 20.000. Mas mal sabia que, a essa épo­ca, ape­nas mur­mu­ra­va.

Depois com­prei seu livro A fila sem fim dos demô­ni­os des­con­ten­tes. Foi um furor aqui­lo. Ri, cho­rei. Chorei, ri. Fui pos­suí­do pelo indes­cri­tí­vel pra­zer de des­co­brir jovens poe­tas. Ali tinha humor + por­ra­da + leve­za + sur­pre­sa. Era eston­te­an­te. Fui à lona. Queria repro­du­zir aqui os poe­mas de que mais gos­tei, mas o livro desa­pa­re­ceu mis­te­ri­o­sa­men­te da minha estan­te.

Depois te segui aqui e ali pela web. Acho que te encon­trei em São Paulo. Mas não afir­mo. Eu me lem­bro de uma his­tó­ria do Ruy Guerra, que dizia ter lido que o Gabriel García Márquez dizia em uma entre­vis­ta que o conhe­ce­ra na África, e os dois saí­ram para jan­tar depois de algu­ma efe­mé­ri­de. Ruy nega vee­men­te­men­te. Para ilus­trar habil­men­te que a memó­ria de um artis­ta não foi fei­ta para se lem­brar das coi­sas que acon­te­ce­ram, pois essas já acon­te­ce­ram. Mas sim para lem­brar o que não acon­te­ceu. Antes que eu ado­te essa tese e saia por aqui me lem­bran­do de qua­tro ou cin­co noi­ta­das nos­sas num zôo da Manchúria, vou me man­ter den­tro do vivi­do. Ou qua­se.

No ano pas­sa­do te reen­con­trei num show mara­vi­lho­so que divi­dis­te com o Letuce (Letícia Novaes e Lucas Vasconcellos) e o André Dahmer, diri­gi­dos por Márcio Debelian e Miguel Jost, no Oi Futuro de Ipanema. Entrei por trás do pal­co e vi uma more­na-colos­so espe­ran­do na coxia o show come­çar. Nós nos entre­o­lha­mos. Até que você riu e dis­se: “não está me reco­nhe­cen­do?”. Não esta­va. Você dera um mor­tal e pula­ra o muro que sepa­ra a ado­les­cên­cia de uma mulher adúl­te­ra. E você ria. E eu, sem gra­ça, falei “Bruna!?” e fui meio ton­to pro­cu­rar o meu lugar. O show foi lin­do e você tinha apren­di­do a falar (e a can­tar) mui­to que bem. Eu, na pla­teia, com o cora­ção aos pino­tes. Depois nos fala­mos no fim. Confesso que fui embo­ra ator­do­a­do com sua muta­ção con­ga­lo­mon­ga.

Neste verão sou­be que divi­di­mos uma mos­tra no Arpoador. No dia, verão a pino, fiquei em casa. Esse defei­to aca­ba comi­go. Vai me sujar na roda. Sou meio ermi­tão mes­mo. Mas vi uma foto no Facebook do seu tra­ba­lho e mor­ri. Era uma onda azul sobre fun­do ver­me­lho. Depois vi o til. Creio que mais que dizer que o arpex é uma onda boa, você quis acen­tu­ar o mar. Acentuar o mar. Bruna, a ver­da­dei­ra onda é você. Até jah!


Imagem: “Til, onde o mar se acen­tua”, de Bruna Beber. Fotografia de Letícia Novaes