Cachorrão brabo

Correspondência

01.04.11

André,

Mesmo conhe­cen­do bem Napoleão e Jacinto, nun­ca tinha te vis­to como um homem afei­to a ani­mais de esti­ma­ção, gos­tei de saber. De minha par­te, tenho uma lon­ga his­tó­ria com cachor­ros, sem­pre tive­mos cães no Galera´s Lair, que é uma casa com pátio gran­de. Tivemos uma set­ter, vári­os vira-latas, um trio de bea­gles que foi bem mar­can­te — eles caça­vam gam­bás, fugi­am o tem­po todo, eram lin­dos e fedo­ren­tos, daque­le tipo mais alto e esbel­to, acho que cha­mam de per­di­guei­ro, e o últi­mo deles, a fêmea do trio, dei­tou pla­ci­da­men­te no sol­zi­nho de uma tar­de de domin­go, pou­cos dias depois que os outros dois mor­re­ram, e mor­reu tam­bém, sem doen­ça, sem avi­so, ape­nas dei­tou de lado com as patas esten­di­das e se foi, e quan­do meu pai olhou pela jane­la e dis­se que acha­va que ela esta­va mor­ta, eu duvi­dei, real­men­te pare­cia que esta­va ape­nas toman­do sol, ela ain­da era sau­dá­vel e bela, mas creio que não esta­va inte­res­sa­da em viver sem os outros dois e apa­gou sem alar­de, de uma manei­ra que até hoje me pare­ce ter sido cons­ci­en­te: vou mor­rer ago­ra. Acho que era minha favo­ri­ta, a Brisa. Tinha um olhar inte­li­gen­te e gos­ta­va de uvas.

Hoje mes­mo eu esta­va pas­se­an­do com o Cardoso pela Redenção e comen­tei com ele a minha von­ta­de de ter um cachor­ro de novo, faz mui­tos anos que não tenho, mas moro em apar­ta­men­to e levo mui­to a sério a res­pon­sa­bi­li­da­de de cri­ar um bicho num lugar assim, então fico adi­an­do. Não me ser­ve cachor­ro peque­no, gos­to de cachor­ro médio — nem peque­no nem gran­de: médio. Também não gos­to de tra­tar cachor­ro como gen­te, pre­fi­ro eles num pátio ou na rua, sem banho, roen­do o que bem enten­dem. E é curi­o­so como os cães se infil­tram nas his­tó­ri­as que escre­vo, é algo que ain­da estou ten­tan­do enten­der, uma inves­ti­ga­ção em pro­gres­so. Eu era bem peque­no quan­do meu pai me cha­mou a aten­ção para os cachor­ros de rua, a incrí­vel adap­ta­ção deles ao ambi­en­te urba­no e aos huma­nos, e o assun­to nun­ca esgo­tou pra mim.

Falei em cachor­ro de rua e em escre­ver fic­ção, e com isso lem­brei de um negó­cio legal que gos­ta­ria de com­par­ti­lhar con­ti­go. Duvido que eu con­si­ga trans­mi­tir direi­ti­nho a expe­ri­ên­cia de lei­tu­ra a seguir, mas vou ten­tar. Uns meses atrás eu esta­va toman­do umas com ami­gos no Parangolé e pas­sou uma moça ven­den­do o Boca de Rua, que é um jor­nal fei­to por mora­do­res de rua. Eles apu­ram as maté­ri­as, alguns devem escre­ver sozi­nhos, outros devem con­tar com a aju­da de moni­to­res, e o jor­nal resul­tan­te é ven­di­do pelos pró­pri­os auto­res na rua, por um ou dois pilas. Deve ter algo seme­lhan­te em São Paulo, não sei, é um pro­je­to boni­to. Naquele dia a moça dis­se que tinha uma edi­ção espe­ci­al de ani­ver­sá­rio, e como sem­pre eu com­prei o jor­nal.

Uma das pági­nas apre­sen­ta­va uma his­tó­ria escri­ta por uma meni­na de cin­co anos iden­ti­fi­ca­da como “Steffany, 5 anos”. Antes mes­mo de ler, a coi­sa toda pren­deu a minha aten­ção. No alto, diz assim: “Pingue tin­ta colo­ri­da na folha bran­ca e dobre ao meio. Quando abrir, verá figu­ras que nun­ca pen­sou em dese­nhar. Depois inven­te uma his­tó­ria.” Há uma repro­du­ção em tama­nho gran­de da figu­ra assim pro­du­zi­da por Steffany: um bor­rão estra­nha­men­te figu­ra­ti­vo que pare­ce uma car­ran­ca mis­ta de ser huma­no com cachor­ro. O títu­lo está em cima, em letras gran­des, e é o seguin­te (aten­ção):

Amor em cin­co capí­tu­los.

Eu ain­da nem tinha lido a his­tó­ria e já esta­va hip­no­ti­za­do por aque­le arran­jo: o bor­rão car­ran­cu­do, os cin­co anos da meni­na, o títu­lo curi­o­sa­men­te adul­to con­ten­do “Amor” e a ins­tru­ção “você verá uma figu­ra que nun­ca pen­sou em dese­nhar, depois inven­te uma his­tó­ria” que pare­cia suplan­tar qual­quer outra defi­ni­ção do impul­so fic­ci­o­nal. Na par­te infe­ri­or da pági­na, cin­co blo­qui­nhos de tex­to tra­zen­do no topo, em negri­to, o núme­ro do capí­tu­lo e o títu­lo, até o Capítulo 5, o últi­mo. Saca só o pri­mei­ro capí­tu­lo:

Capítulo 1

Cachorrão bra­bo

Este cachor­ro é mui­to bra­bo. Só eu pos­so encos­tar nele por­que ele não dei­xa nin­guém botar a mão. Ele não gos­ta das pes­so­as que não conhe­ce. As pes­so­as jogam pedras nele por­que ele late. A dona cri­ou ele mas ele fugiu. Eu encon­trei o cachor­rão na rua per­di­do e peguei para mim.

Talvez seja rudi­men­tar, pri­má­rio. Não sei o que tu vai achar. De minha par­te, pen­sei que mui­to adul­to que­ren­do ser escri­tor pre­ci­sa­ria de anos de prá­ti­ca e ofi­ci­na para che­gar numa sim­pli­ci­da­de tão expres­si­va, em ora­ções tão defi­ni­ti­vas sem nenhum ador­no. Repara como o dado intri­gan­te — o cachor­rão bra­bo, por algum moti­vo, dei­xa ape­nas a nar­ra­do­ra, a meni­na, botar a mão nele — está ape­nas insi­nu­a­do. E aí vem o segun­do capí­tu­lo:

Capítulo 2

Carro pre­to

Tem um cachor­ro den­tro do car­ro pre­to. É o meu cachor­rão bra­bo. E tem a dona dele. Ela não dava comi­da para ele. Por isso ele matou ela. Ela está mor­ta.

Eu sei que cri­an­ças de cin­co anos podem mani­fes­tar iro­nia e mor­bi­dez de manei­ra espon­tâ­nea e ino­cen­te. Mas uma par­te de mim leu isso como, sei lá, uma ano­ta­ção do Kafka para uma pará­bo­la nun­ca desen­vol­vi­da, ou quem sabe uma pará­bo­la do Kafka mes­mo, redon­da e aca­ba­da. A entra­da mis­te­ri­o­sa e gra­tui­ta do “car­ro pre­to”, a tra­ma nefas­ta com­pri­mi­da numa cadeia buro­crá­ti­ca de cau­sa e efei­to — ela não dava comi­da, por isso ele matou ela — e essa rea­fir­ma­ção des­ne­ces­sá­ria, e por isso mes­mo res­so­nan­te, da mor­te da dona: “Por isso ele matou ela. Ela está mor­ta.” É isso mes­mo. Aceitem. Ela está mor­ta.

Todavia, no Capítulo 3, “Casa anti­ga”, depois de colo­car a mor­te da dona como esse fato aca­ba­do, Steffany muda de ideia e diz que o cachor­rão bra­bo não pode vol­tar pra casa anti­ga por­que a dona pode ir bus­car ele, por­que na ver­da­de ela não mor­reu, só foi para o hos­pi­tal. Sinto o chei­ro de uma inter­ven­ção peda­gó­gi­ca nis­so, um adul­to escan­da­li­za­do com o tom do rela­to suge­rin­do à meni­na que a mor­te era de men­ti­ri­nha. Ou vai ver que Steffany ficou com pena da dona, não se pode saber. O Capítulo 3 ter­mi­na feliz, o cachor­rão gos­ta da casa nova e ganha comi­da da meni­na. “Nós somos ami­gos”, ela con­clui. No Capítulo 4, entra um novo per­so­na­gem: a bor­bo­le­ta azul.

Capítulo 4

Borboleta azul

A bor­bo­le­ta azul que­ria mui­to ser ami­ga do cachor­rão. Ela que­ria mui­to e um dia con­se­guiu. Só que a bor­bo­le­ta era meni­na e o cachor­rão era meni­no. Então eles namo­ra­ram e casa­ram.

O que cha­ma a aten­ção aqui, para o lei­tor adul­to — fora que a cena em si é ado­rá­vel — é o tra­ta­men­to banal dado a con­fli­tos com­pli­ca­dís­si­mos. A bor­bo­le­ta que­ria mui­to ser ami­ga do cachor­rão, então… um dia ela con­se­guiu. Mas a ami­za­de não fun­ci­o­na­va por­que eles eram meni­na e meni­no. Sem pro­ble­ma. Eles namo­ra­ram e casa­ram. Pois o que mais eles pode­ri­am fazer, não é mes­mo? Não vou me enver­go­nhar na tua fren­te des­cre­ven­do todo tipo de expe­ri­ên­cia pes­so­al com­ple­xa que esse expe­di­en­te nar­ra­ti­vo — se foi inten­ci­o­nal ou não da par­te de Steffany, pou­co impor­ta — me evo­cou. Sigamos. Ela encer­ra:

Capítulo 5

Cachorrinhos voa­do­res

A bor­bo­le­ta e o cachor­rão tive­ram filhi­nhos. Os cachor­ri­nhos bebe­zi­nhos não gos­ta­vam de cami­nhar. Eles tinham asas. Eles que­ri­am voar.

Eles tinham asas, Conti. Eles que­ri­am voar. Fim. A sequên­cia de dimi­nu­ti­vos nos desa­fia a levar o der­ra­dei­ro capí­tu­lo a sério, mas ain­da assim tem algo ali no final que pro­je­ta a his­tó­ria para o infi­ni­to, mas se man­tém coe­ren­te com toda a nar­ra­ti­va no tra­ta­men­to das cau­sas e efei­tos: eles tinham asas, por­tan­to não gos­ta­vam de cami­nhar e que­ri­am voar. Não podi­am ser ami­gos: namo­ra­ram e casa­ram. Ela não dava comi­da: ele matou ela. Por mais mór­bi­do ou fabu­lo­so que seja, tudo é óbvio. E esse é o mini-roman­ce da Steffany. A his­tó­ria que ela inven­tou depois de ver uma figu­ra que nun­ca teria pen­sa­do em dese­nhar. O amor em cin­co capí­tu­los.

Tenho o jor­nal guar­da­do, se achou tri, pos­so te fazer uma xérox.

E acho que nenhum herói meu mor­reu de over­do­se. Tenho difi­cul­da­de em admi­rar pes­so­as que se dro­gam demais. Alguns que admi­ro bebe­ram em exces­so, che­ga­ram a mor­rer por isso, mas nenhum é herói. Outros se mata­ram. Não sei. Teria que pen­sar melhor nis­so.

David Foster Wallace é um can­di­da­to a herói. “Because being thirty-four, sit­ting alo­ne in a room with a pie­ce of paper is what’s real to me.” Quando come­ço a me fres­que­ar demais, ten­to lem­brar des­sa fra­se dele.

Vou dar um pulo em Sumpa sema­na que vem. Porque sim. Farei con­ta­to.

Abraço,

D. Galera

, , , , , ,