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05.08.15

Um cão ron­da Adeus à Linguagem, fil­me de Jean-Luc Godard em car­taz no Rio e em São Paulo, enquan­to uma voz em off cita Rilke: “Só con­ce­be­mos o que é exte­ri­or pelo olhar do ani­mal”. Roxy, o cão, olha para a câme­ra. “Não é o ani­mal que é cego, mas o homem, cego pela cons­ci­ên­cia, que é inca­paz de olhar o mun­do.”

Há outras máxi­mas sobre a alte­ri­da­de, enquan­to Roxy vaga pela casa e pela natu­re­za: “Ninguém pode­ria pen­sar livre­men­te se seus olhos não pudes­sem esca­par a outros olhos que os seguis­sem”; ou “Só os seres livres podem ser estra­nhos uns aos outros. Eles têm uma liber­da­de comum, que é pre­ci­sa­men­te o que os sepa­ra”; ou “O filó­so­fo é aque­le que se dei­xa intri­gar pela figu­ra do outro”.

O cão Roxy em Adeus à linguagem, de Jean-Luc Godard / Divulgação

O cão Roxy em Adeus à lin­gua­gem, de Jean-Luc Godard / Divulgação

Passei o fim de sema­na na praia, com dois cachor­ros per­di­guei­ros. Eles já tinham ganha­do o meu amor quan­do, no final da tar­de de domin­go, ao vol­tar da praia, o dono da casa me pediu que abris­se a por­ta que dá aces­so à sala e ao ter­ra­ço e os dei­xas­se entrar. Antes, é pre­ci­so dizer que essa é uma casa de vidro, com por­tas e pare­des de vidro por todos os lados, e que está situ­a­da no meio da mata. Os cachor­ros entra­ram como duas balas, esta­vam pos­suí­dos, como se tives­sem um obje­ti­vo, como se pro­cu­ras­sem algu­ma coi­sa. Correram para o ter­ra­ço, lou­cos. O que eu não sabia, ao che­gar e abrir a por­ta para que entras­sem, é que aca­ba­vam de ouvir um baru­lho. Pior: aca­ba­vam de reco­nhe­cer um baru­lho.

Comentei ino­cen­te­men­te com o dono da casa que pare­cia que os dois esta­vam caçan­do. E, de repen­te, ouvi­mos os gri­tos deses­pe­ra­dos de um pas­sa­ri­nho, na boca de um dos per­di­guei­ros, se deba­ten­do con­tra a mor­te, com ape­nas uma das asas esti­ca­da para fora. Tentei abrir a boca do cão e tirar de lá de den­tro o bicho que já não gri­ta­va nem se mexia. Em vão. Desci pro meu quar­to com a cul­pa de ter mata­do o pás­sa­ro – ou pelo menos de ter cri­a­do as con­di­ções de pos­si­bi­li­da­de para que isso acon­te­ces­se.

De nada adi­an­tou o dono dos cães e da casa repe­tir que era a natu­re­za, que não se pode fazer nada con­tra o ins­tin­to ani­mal, que vol­ta e meia os cachor­ros abo­ca­nha­vam um pás­sa­ro que se espa­ti­fa­va con­tra as pare­des de vidro e que caía esta­te­la­do no chão, ain­da com vida. Voltei para São Paulo na mai­or tris­te­za, com a cena na cabe­ça, arre­pen­di­do de ter aber­to a por­ta, pen­san­do em estra­té­gi­as (como se eu fos­se a pre­sa) que podi­am ter sal­va­do o pás­sa­ro, como bicar a lín­gua do cão até fazê-lo abrir a boca.

Por coin­ci­dên­cia, tinha reli­do A Mulher que Matou os Peixes, de Clarice Lispector, na sema­na ante­ri­or. Os orga­ni­za­do­res de um encon­tro lite­rá­rio me pedi­ram para ler um tex­to que tives­se mar­ca­do a minha infân­cia e eu esco­lhi essa his­tó­ria de cul­pa. Parece que não evo­luí mui­to de lá pra cá. Reli o livro às lágri­mas. Clarice escre­veu A Mulher que Matou os Peixes pra expli­car aos filhos em féri­as que não tinha sido de pro­pó­si­to que ela esque­ce­ra de dar comi­da aos pei­xi­nhos ver­me­lhos. E, pra pro­var que ama­va os ani­mais, resol­veu fazer uma lis­ta dos bichos que tive­ra.

Entre eles, esta­va o cão Dilermando, que ela foi for­ça­da a aban­do­nar numa de suas mudan­ças, quan­do o mari­do diplo­ma­ta foi trans­fe­ri­do da Itália para a Suíça. Clarice nun­ca se refez da cul­pa. E a cul­pa em rela­ção a esse epi­só­dio ganhou mais de uma ten­ta­ti­va de expi­a­ção pela lite­ra­tu­ra. Pra mim, a mais boni­ta é o con­to “O Crime do Professor de Matemática”, incluí­do em Laços de Família.

Em Adeus à Linguagem, Godard cita Darwin que, citan­do Buffon, dizia: “O cão é o úni­co ani­mal que te ama mais do que a si mes­mo”. No con­to de Clarice, um homem lamen­ta o cão que ele teve de aban­do­nar duran­te uma mudan­ça. Está mor­ti­fi­ca­do de cul­pa. Não se per­doa e não esque­ce. Sabe, entre­tan­to, que o amor incon­di­ci­o­nal do ani­mal esbar­ra em uma bar­rei­ra irre­du­tí­vel, “no pon­to de rea­li­da­de resis­ten­te das duas natu­re­zas”: “De ti mes­mo, exi­gi­as que fos­ses um cão. De mim, exi­gi­as que eu fos­se um homem. (…) Embora meu, nun­ca me cedes­te nem um pou­co do teu pas­sa­do e da tua natu­re­za (…). Agora, estou bem cer­to de que não fui eu quem teve um cão. Foste tu que tives­te uma pes­soa.”

Você pode amar os bichos, pro­je­tan­do neles um amor incon­di­ci­o­nal ou uma fal­ta, gra­ças à opa­ci­da­de do olhar do ani­mal, gra­ças a essa irre­du­ti­bi­li­da­de sem lin­gua­gem, ou pode (o que é bem mais difí­cil) amá-los como se ama a natu­re­za com tudo o que ela tem de amor e de hor­ror simul­tâ­ne­os. “Enquanto eu te fazia à minha ima­gem, tu me fazi­as à tua”, pen­sa o pro­fes­sor de mate­má­ti­ca em rela­ção ao cão que ele aban­do­nou.

Um ami­go me dis­se outro dia que eu não podia dei­xar de ver o docu­men­tá­rio E Agora? Lembra-me, do por­tu­guês Joaquim Pinto. O cine­as­ta e seu com­pa­nhei­ro, Nuno Leonel, vivem com cães que enve­lhe­cem, ado­e­cem e se apro­xi­mam da mor­te. Cultivam um peda­ço de ter­ra que com­pra­ram no inte­ri­or de Portugal, com­ba­tem incên­di­os. Amam a natu­re­za, mas a natu­re­za no que ela tem de cícli­ca, ao mes­mo tem­po mor­te e luta con­tra a mor­te, e é isso o que faz de E Agora? Lembra-me um fil­me sen­sa­ci­o­nal.

E Agora? Lembra-me é o diá­rio fil­ma­do de um ano ruim, no qual o dire­tor, lutan­do con­tra a aids e a hepa­ti­te C, deci­de se sub­me­ter a um tra­ta­men­to expe­ri­men­tal. Como é ele quem está qua­se sem­pre dian­te da câme­ra, o fil­me não dei­xa de ser uma espé­cie de sel­fie. Mas, ao con­trá­rio das sel­fi­es, o que é cele­bra­do ali não é o deses­pe­ro camu­fla­do da apa­rên­cia ten­tan­do ven­cer a mor­te; é, antes, a pró­pria natu­re­za, na sua rea­li­da­de físi­ca, repre­sen­ta­da pela ambi­gui­da­de de cães que lam­bem os donos e matam coe­lhos e dos vírus, que são ao mes­mo tem­po vida e mor­te, que matam o homem, mas sem os quais é pos­sí­vel que o homem nem exis­tis­se.

Cena de E Agora? Lembra-me, de Joaquim Pinto / Divulgação

Cena de E Agora? Lembra-me, de Joaquim Pinto / Divulgação

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