Camille Claudel e a educação pela pedra

No cinema

16.08.13

Camille Claudel, 1915

Vários crí­ti­cos já usa­ram a pala­vra “ari­dez” para falar de Camille Claudel, 1915 e lem­bra­ram o débi­to de seu dire­tor, Bruno Dumont, com o gran­de Robert Bresson. Vamos des­trin­char um pou­co essas duas idei­as, que na ver­da­de são uma só.

http://www.youtube.com/watch?v=aEg7NjzwDO0

Para apre­ci­ar melhor a sin­gu­la­ri­da­de do fil­me de Dumont, tal­vez seja útil cote­já-lo com o Camille Claudel rea­li­za­do por Bruno Nuytten em 1988 e estre­la­do por Isabelle Adjani. Ali, tudo con­du­zia ao espe­tá­cu­lo da catar­se. A artis­ta sufo­ca­da e incom­pre­en­di­da, a mulher opri­mi­da por um ciu­men­to e pre­po­ten­te Rodin (encar­na­do por Gérard Depardieu), tudo era expli­ci­ta­do de modo qua­se decla­ra­tó­rio, enfa­ti­za­do pela músi­ca de Schubert e Debussy e ilus­tra­do pelas obras da pró­pria escul­to­ra. Basta ver o trai­ler:

http://www.youtube.com/watch?v=C5QhxSzz_CI

Em con­tras­te, Bruno Dumont nega a catar­se à per­so­na­gem, sone­ga o espe­tá­cu­lo ao espec­ta­dor. A pai­sa­gem seca e pedre­go­sa de sua ambi­en­ta­ção — o hos­pí­cio do sul da França onde Camille pas­sou suas últi­mas três déca­das de vida — dá o tom de todo o fil­me. A luz bran­ca, as cores “des­sa­tu­ra­das”, a ausên­cia de músi­ca, o laco­nis­mo dos diá­lo­gos, a exten­são exas­pe­ran­te de pla­nos silen­ci­o­sos, a recu­sa qua­se abso­lu­ta do con­tra­cam­po (que em geral é uma espé­cie de alí­vio na nar­ra­ti­va), tudo con­fi­gu­ra, antro­po­mor­fi­ca­men­te, o esta­do exan­gue da pro­ta­go­nis­ta, que aos pou­cos pare­ce per­der as for­ças até mes­mo para se deses­pe­rar.

Arte como arre­me­do

O pró­prio recor­te cro­no­ló­gi­co é elo­quen­te: o inver­no de 1915, quan­do, enclau­su­ra­da já há dois anos, Camille (Juliette Binoche) aguar­da a visi­ta do irmão, o escri­tor cató­li­co Paul Claudel (Jean-Luc Vincent), com a espe­ran­ça de que ele a tire do sana­tó­rio. É um momen­to de expec­ta­ti­va que logo se reve­la­rá uma ilu­são, e põe em evi­dên­cia o papel cas­tra­dor, este­ri­li­zan­te, do cato­li­cis­mo de Paul.

Esse movi­men­to de espe­ran­ça abor­ta­da ecoa no fil­me, em pon­to menor, em inú­me­ras pas­sa­gens. A mais tocan­te tal­vez seja aque­la em que Camille apa­nha um punha­do de bar­ro e come­ça a esbo­çar com os dedos uma escul­tu­ra, mas logo aban­do­na e des­trói rai­vo­sa­men­te o tra­ba­lho — como se lem­bras­se de repen­te que naque­le país (a lou­cu­ra, o encar­ce­ra­men­to) é proi­bi­do sonhar.

Do mes­mo modo, todo sinal de cri­a­ção artís­ti­ca, quan­do apa­re­ce, tem a for­ma do ras­cu­nho, do arre­me­do ou da paró­dia: o ensaio da peça de tea­tro por um gru­po de paci­en­tes, a Aleluia can­ta­da fora do tom por uma inter­na, as notas agres­si­va­men­te dis­so­nan­tes tira­das dos ins­tru­men­tos por outro gru­po na sala de músi­ca. Os sons recor­ren­tes que pon­tu­am a nar­ra­ti­va são os pas­sos sobre o cas­ca­lho e os gru­nhi­dos e uivos pré-ver­bais dos lou­cos.

Bresson e Juliette

Até aí esta­mos num ter­ri­tó­rio aus­te­ro, que reme­te a Robert Bresson, com seu rigor qua­se ascé­ti­co, que reve­la os per­so­na­gens uni­ca­men­te por meio de sua inte­ra­ção, ou seu atri­to, com as coi­sas do mun­do. O lugar em que, de algu­ma for­ma, Camille Claudel,1915 esca­pa da esté­ti­ca bres­so­ni­a­na é na atu­a­ção de Juliette Binoche. Bresson, como se sabe, tinha pre­di­le­ção pelos ato­res não pro­fis­si­o­nais, que cha­ma­va de “mode­los”, e que deve­ri­am sur­gir na tela des­pro­vi­dos de expres­são cons­truí­da, de “inter­pre­ta­ção”, como se fos­sem pági­nas em bran­co, que só se con­ver­tem em escri­ta por meio da mon­ta­gem cine­ma­to­grá­fi­ca.

Já o fil­me de Dumont só ganha sen­ti­do gra­ças à atu­a­ção alta­men­te pro­fis­si­o­nal e depu­ra­da de Juliette Binoche. Suas expres­sões, por exem­plo, como espec­ta­do­ra do cômi­co e como­ven­te ensaio tea­tral dos lou­cos, pas­san­do do riso à angús­tia e à melan­co­lia, ates­tam o talen­to e a expe­ri­ên­cia de uma gran­de atriz em seu apo­geu. A arte que o fil­me nos recu­sa (sob a for­ma de músi­ca ou escul­tu­ra) emer­ge no ros­to vin­ca­do, sofri­do e des­gla­mu­ri­za­do de Juliette.

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