Caminho para o nada, janelas para o abismo

No cinema

30.05.14

No mer­ca­do cine­ma­to­grá­fi­co ame­ri­ca­no — e tam­bém no bra­si­lei­ro — pare­ce haver uma lei não escri­ta segun­do a qual quan­to mais rele­van­te for o fil­me, quan­to mais ques­tões ele sus­ci­tar, menos espa­ço ele terá no cir­cui­to exi­bi­dor e menos visi­bi­li­da­de na mídia.

É o caso do esplên­di­do e per­tur­ba­dor Caminho para o nada, de Monte Hellman. Lançado há três anos nos cine­mas bra­si­lei­ros, pas­sou pra­ti­ca­men­te des­per­ce­bi­do aqui, a exem­plo do que ocor­re­ra nos EUA. Por sor­te, ele che­ga ago­ra ao DVD, pela Lume Filmes, dan­do aos ciné­fi­los uma segun­da chan­ce de conhe­cê-lo — ou de vê-lo de novo e explo­rar suas múl­ti­plas cama­das.

Pois é de cama­das sobre­pos­tas — ou antes, con­tra­pos­tas, refra­ta­das como num jogo de espe­lhos — que se tra­ta aqui, nes­te fil­me sobre um fil­me. Esclarecendo: num luga­re­jo atra­sa­do da Carolina do Norte, um jovem cine­as­ta, Mitchell Haven (Tygh Runyan), ten­ta recons­ti­tuir num lon­ga-metra­gem de fic­ção um rumo­ro­so dra­ma local, a dupla mor­te de uma moça cuba­na, Velma Duran, e seu aman­te, o escro­que Rafe Taschen.

Fundos fal­sos

Tendo como prin­ci­pais fon­tes uma blo­guei­ra do luga­re­jo (Dominique Swain) e um inves­ti­ga­dor de com­pa­nhia de segu­ros (Waylon Payne), Haven se move num cipo­al de dúvi­das e ver­sões. Assassinato, sui­cí­dio, tro­cas de iden­ti­da­de, frau­de imo­bi­liá­ria, sone­ga­ção fis­cal, pro­mis­cui­da­de entre o capi­tal, a polí­cia e o poder polí­ti­co, tudo isso se emba­ra­lha numa nar­ra­ti­va fei­ta de fun­dos fal­sos, em que nun­ca sabe­mos o que é “de ver­da­de” e o que é ence­na­do.

Para com­pli­car, o cine­as­ta se apai­xo­na pela atriz (Shannyn Sossamon) que encar­na Velma Duran e que tem tan­ta seme­lhan­ça com a pró­pria a pon­to de cau­sar per­ple­xi­da­de nele, na polí­cia e no espec­ta­dor.

Hitchcock cos­tu­ma­va cha­mar de McGuffin o pre­tex­to em tor­no do qual gira a ação. Em geral é algo (um docu­men­to, um segre­do, uma arma secre­ta etc.) que tem mui­ta impor­tân­cia para os per­so­na­gens, mas que só inte­res­sa ao cine­as­ta como dis­po­si­ti­vo que faz a nar­ra­ti­va avan­çar e cria momen­tos de ten­são e emo­ção.

Pois bem: em Caminho para o nada, de cer­ta for­ma, tudo é McGuffin. Não há um “real ver­da­dei­ro” a ser alcan­ça­do por trás da repre­sen­ta­ção, mas ape­nas mais repre­sen­ta­ção.

Janelas para o abis­mo

No pri­mei­ro diá­lo­go do fil­me, Haven, o cine­as­ta, diz à blo­guei­ra que lhe ser­viu de fon­te: “Velma Duran foi a jane­la que me levou para den­tro des­sa his­tó­ria”. E jane­la, de fato, é a ima­gem que defi­ne o modo de cons­tru­ção do fil­me de Monte Hellman. Enquanto Haven con­ver­sa com a blo­guei­ra, vemos, pela “jane­la” da tela do com­pu­ta­dor, Velma (ou a atriz que a repre­sen­ta) na cama, secan­do as unhas e os cabe­los. No pla­no seguin­te, a câme­ra vai até uma jane­la, de den­tro para fora vemos um car­ro che­gar. “Atravessamos” a jane­la, vemos o homem pegar algu­ma coi­sa no car­ro, colo­car num saco plás­ti­co. Em segui­da, há uma casa vis­ta do exte­ri­or, à noi­te. Um homem che­ga e entra, um tiro é dis­pa­ra­do, fora do qua­dro.

Trata-se da mes­ma casa? Das mes­mas jane­las? Não impor­ta. De fora para den­tro ou de den­tro para fora, que­re­mos atra­ves­sar a jane­la, ver o que há do outro lado. Às vezes o fil­me nos mos­tra, às vezes nos sone­ga. Às vezes emba­ra­lha o exte­ri­or de uma casa com o inte­ri­or de outra. Cria um espa­ço vir­tu­al, men­tal, que só exis­te na ima­gi­na­ção, isto é, no cine­ma.

Mais do que sim­ples­men­te emba­ra­lhar os tem­pos e luga­res na mon­ta­gem des­con­tí­nua, como já é moe­da cor­ren­te há déca­das no cine­ma nar­ra­ti­vo, o que Caminho para o nada faz a todo momen­to é puxar o tape­te das cer­te­zas debai­xo dos pés do espec­ta­dor, dei­xan­do-o num vácuo de dúvi­da e curi­o­si­da­de. Mesmo num momen­to dra­má­ti­co cru­ci­al, em que um per­so­na­gem (não vou dizer qual para não estra­gar a sur­pre­sa) se move ata­ran­ta­do num quar­to onde duas pes­so­as aca­bam de ser mor­tas, um bre­vís­si­mo con­tra­pla­no mos­tra uma equi­pe de fil­ma­gem cap­tan­do a cena. Não é por aca­so que se cos­tu­ma cha­mar esse pro­ce­di­men­to de “cons­tru­ção em abis­mo”.

Xadrez com a mor­te

Poucas vezes o cine­ma se des­nu­dou tão ple­na­men­te como “a men­ti­ra a vin­te e qua­tro qua­dros por segun­do”, para usar a defi­ni­ção sar­cás­ti­ca de Brian DePalma. Traições, assas­si­na­tos, sui­cí­di­os, tra­mas polí­ti­cas mira­bo­lan­tes, é como se tudo isso fos­se vis­to num sonho em que as par­tes não se conec­tam ple­na­men­te e o sen­ti­do geral nos esca­pa. “Se tudo fizes­se sen­ti­do, eu não esta­ria inte­res­sa­do”, diz o cine­as­ta à blo­guei­ra, cer­ta­men­te eco­an­do o pen­sa­men­to do pró­prio Monte Hellman.

Outras pis­tas para ler Caminho para o nada e mul­ti­pli­car suas impli­ca­ções são os fil­mes que ele cita expli­ci­ta­men­te. Em As três noi­tes de Eva, comé­dia de Preston Sturges em que uma viga­ris­ta (Barbara Stanwyck) se pas­sa por uma lady ingle­sa, há o tema da tro­ca de iden­ti­da­de; em O espí­ri­to da col­meia, de Victor Erice, há o trân­si­to entre a fan­ta­sia cine­ma­to­grá­fi­ca e a vida coti­di­a­na; em O séti­mo selo, por fim, há a ten­ta­ti­va de dri­blar a mor­te (medi­an­te uma par­ti­da de xadrez).

São essas três idei­as bási­cas que nor­tei­am — ou des­nor­tei­am — a estra­da de Monte Hellman. O cine­ma como jogo de iden­ti­da­des, trans­fu­são entre fan­ta­sia e rea­li­da­de, xadrez para ludi­bri­ar a mor­te.

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