Cápsulas do tempo

Correspondência

10.02.11

Camarada Andrew Negroconti,

Barbaridade, aque­la noi­te de ano novo. Lembro de acor­dar às cin­co da tar­de do pri­mei­ro dia do glo­ri­o­so ano de 2011 no quar­to de visi­tas de um ami­go nos­so em comum que cha­ma­rei ape­nas de Miguel do Amor, engo­lir um pou­co de ar como se tives­se res­sus­ci­ta­do, sen­tir as per­nas doen­do da São Silvestre, erguer o tron­co num tran­co (des­cul­pe a poe­sia ruim, nem todos nas­ce­mos poe­tas) espas­mó­di­co e ros­nar, como aque­le per­so­na­gem do final do Kids: “Jesus Christ, what hap­pe­ned?”. Ninguém res­pon­deu, pois eu esta­va sozi­nho (nos­so ami­go tinha via­ja­do, lem­bre). De qual­quer modo, a per­gun­ta era retó­ri­ca.

E véio, eu não lem­bra­va de nada. Depois, enquan­to con­su­mia latas de Schweppes Citrus Light assis­tin­do a um fil­me com a Naomi Watts na TV a cabo mara­vi­lho­sa de Michael Love, foram apa­re­cen­do uns flash­backs. Uns cla­rões de um jan­tar lha­no e urba­no na resi­dên­cia do Antônio. Duas gar­ra­fas de Black & White. Uma bre­ve dis­cus­são sobre a estra­nha paz pro­por­ci­o­na­da pelo celi­ba­to. Mineiras. Alguma espé­cie de boa­te. Fragmentos tão con­tun­den­tes quan­to elu­si­vos. Com base neles, tenho uma his­tó­ria par­ti­cu­lar sobre o que acon­te­ceu na noi­te de reveil­lon. Com cer­te­za é mui­to dife­ren­te da tua.

Há evi­dên­cia cien­tí­fi­ca sóli­da de que as memó­ri­as são alte­ra­das no cére­bro cada vez que as evo­ca­mos. Não é só que a nar­ra­ti­va men­tal cons­truí­da a par­tir dos regis­tros se alte­ra: os pró­pri­os regis­tros se alte­ram. Cada vez que resol­vo pen­sar naque­la noi­te de ano novo e evo­co as pou­cas peças do que­bra-cabe­ça que sobre­vi­ve­ram à amné­sia alcoó­li­ca, o dese­nho das pró­pri­as peças muda um pou­qui­nho, qui­çá mui­to. Em cer­to sen­ti­do, recor­dar é lite­ral­men­te revi­ver.

Adoro a ideia de que, se vivês­se­mos mil ou dois mil anos, a recor­da­ção de expe­ri­ên­ci­as vivi­das há cen­te­nas de anos pode­ria se trans­for­mar numa coi­sa total­men­te dife­ren­te da memó­ria ini­ci­al. Temos indí­ci­os de que esse tipo de coi­sa é pos­sí­vel mes­mo em cur­tos perío­dos. Eu, pelo menos, tenho. Te pro­po­nho um exer­cí­cio. Vamos recor­dar segui­da­men­te des­sa noi­te de ano novo e bater nos­sas ver­sões daqui a trin­ta ou qua­ren­ta anos (acre­di­te, vai dar). Tenta não cor­tar rela­ções comi­go no meio do cami­nho. Vai ser diver­ti­do.

Vai ser como enter­rar uma gar­ra­fa na areia e desen­ter­rar anos depois, uma cáp­su­la do tem­po. Uma vez fiz isso com uns ami­gos, por coin­ci­dên­cia numa noi­te de ano novo, na Praia da Guarda. Colocamos bilhe­ti­nhos e alguns obje­tos — cola­res, pul­sei­ras, o que pas­sas­se pelo gar­ga­lo — den­tro de uma gar­ra­fa de cin­co litros de cham­pa­nhe e enter­ra­mos. Acho que foi em 1998. Não faço a menor ideia do que está lá den­tro, mas ima­gi­na encon­trar e abrir aque­le tro­ço. Evidências con­tun­den­tes de que hou­ve um pas­sa­do pes­so­al são sem­pre per­tur­ba­do­ras, por­que o pas­sa­do não exis­te e no fun­do todos sabe­mos dis­so. Aí de repen­te sur­ge um indí­cio bru­tal de que essa his­to­ri­nha men­ti­ro­sa que vamos con­tan­do e rees­cre­ven­do de fato exis­tiu em algo que só pode ser o pas­sa­do. Opa, como assim? Mas não, sabe­mos que não. Tudo que temos são cáp­su­las do tem­po, e elas estão aqui ago­ra.

Já leu um roman­ce cha­ma­do Remainder, do Tom McCarthy? Acho que te falei des­se livro uma vez. O pro­ta­go­nis­ta sofre um aci­den­te mis­te­ri­o­so, per­de a mai­or par­te da memó­ria e quan­do sai do hos­pi­tal rece­be uma for­tu­na dos advo­ga­dos de uma empre­sa ou orga­ni­za­ção anô­ni­ma, supos­ta­men­te res­pon­sá­vel pelo aci­den­te, pra ficar cala­do pra sem­pre a res­pei­to do que acon­te­ceu. O cara vol­ta pra casa mili­o­ná­rio, apá­ti­co, meio alei­ja­do e semi-amné­si­co e vai viven­do uma vidi­nha de mer­da e sem sen­ti­do até que, numa fes­ta, tem uma espé­cie de déjà-vu no banhei­ro da casa. Uma cena riquís­si­ma de seu supos­to pas­sa­do, com sen­ti­men­tos, chei­ros, ruí­dos e incon­tá­veis deta­lhes, vol­ta com tudo e ele tem, pela pri­mei­ra vez des­de o aci­den­te, a sen­sa­ção de estar de fato viven­do algo ver­da­dei­ro.

O deta­lhe é que a cena expe­ri­men­ta­da não sig­ni­fi­ca nada. Envolve racha­du­ras na pin­tu­ra, chei­ro de fíga­do fri­to entran­do pela jane­la, um gato andan­do no telha­do, uma pes­soa pra­ti­can­do pia­no no andar de bai­xo etc. Parece total­men­te ale­a­tó­rio. Mas ele fica obce­ca­do com isso e resol­ve inves­tir sua for­tu­na na recri­a­ção fide­dig­na daque­le déjà-vu no mun­do real. Contrata um indi­a­no malu­co pra aju­dar ele, pois tudo tem que ser abso­lu­ta­men­te per­fei­to, e a cena tem que ficar se repe­tin­do sem parar, para ele poder entrar nela e vivê-la quan­do qui­ser. Atores con­tra­ta­dos ficam fri­tan­do fíga­do e tocan­do pia­no numa minu­ci­o­sa esca­la de horá­rio, gatos são reco­lo­ca­dos no telha­do pra sem­pre esta­rem no lugar onde devem etc. Depois de um esfor­ço her­cú­leo e milhões de libras, ele con­se­gue recons­ti­tuir a cena da sua men­te, mas ime­di­a­ta­men­te a coi­sa per­de a gra­ça. E a par­tir daí o per­so­na­gem fica obce­ca­do em reen­ce­nar outras cenas e sen­ti­men­tos que even­tu­al­men­te res­sur­gem de seu pas­sa­do per­di­do.

De uma for­ma difí­cil de expli­car, eu acho que esse livro é uma ale­go­ria pre­ci­sa da natu­re­za dis­so que cha­ma­mos de pas­sa­do. O pas­sa­do é uma cons­tru­ção arti­fi­ci­al que, vis­ta de fora, é ale­a­tó­ria e sem sen­ti­do. Incapaz de encon­trar suas cáp­su­las do tem­po na memó­ria, o pro­ta­go­nis­ta do livro pre­ci­sa cons­truí-las do nada, e com um nível de deta­lhe absur­do, para con­se­guir dar sen­ti­do à exis­tên­cia após o aci­den­te. Com o tem­po ele não se con­ten­ta mais com cenas ale­a­tó­ri­as. Passa a ence­nar expe­ri­ên­ci­as mais nar­ra­ti­vas e peri­go­sas, como um assal­to a ban­co. Mas o que para ele é ape­nas uma ence­na­ção fiel de algo ima­gi­na­do, para o mun­do a seu redor é total­men­te real. Sua ence­na­ção do assal­to a ban­co ima­gi­na­do é um assal­to a ban­co, e as con­sequên­ci­as des­sa con­fu­são entre ence­na­ção e rea­li­da­de vão fican­do cada vez mais gra­ves.

(Desculpa, tu não mere­ce essa meta­fí­si­ca bara­ta. Estou meio ten­so hoje, pre­ci­so decep­ci­o­nar alguém e não sei fazer isso sem sofrer inu­til­men­te, sou fra­co. De qual­quer modo, exce­len­te livro, ten­ta ler.)

Vê se apa­re­ce lá na fes­ti­nha ama­nhã no Clube Glória, vou tocar um Rudimentary Peni pra ti na pis­ta (o mun­do que se adap­te). Quero ver os dedi­nhos pra cima, que nem na fes­ta de casa­men­to do Joca, esse mar­co da nos­sa ami­za­de. E vou ficar o fim de sema­na aí, então uma madru­ga­da está reser­va­da pra gen­te virar o Mario Galaxy 2. Comecei o No More Heroes 2 ago­ra, bom jogo.

Um abra­ço,

D. Galera

PS.  Tu vem pra Porto Alegre no lan­ça­men­to do livro do Sica?

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