Carlão, cinema e vida

No cinema

15.06.12

Hoje é impos­sí­vel falar de outro assun­to que não seja Carlos Reichenbach, mor­to ontem, no mes­mo dia em que com­ple­ta­va 67 anos. Nenhuma mor­te foi tão sen­ti­da nos mei­os cine­ma­to­grá­fi­cos bra­si­lei­ros. Talvez a de Glauber Rocha, mas Glauber saiu des­ta vida de mal com meio mun­do, incom­pre­en­di­do, rene­ga­do, soli­tá­rio, amar­gu­ra­do.

Carlão não. A des­pei­to da ira sagra­da con­tra os podres pode­res e a medi­o­cri­da­de geral que nos cer­ca, foi até o fim um ser gre­gá­rio, doce e gene­ro­so, fer­vi­lhan­te de sonhos e pro­je­tos, ami­go do cine­ma e das pes­so­as. Era ama­do por todo mun­do: cine­as­tas, ato­res, téc­ni­cos, jor­na­lis­tas, alu­nos, ciné­fi­los. Todos têm algu­ma lem­bran­ça boni­ta, algu­ma pala­vra posi­ti­va a dizer sobre ele.

Popular e expe­ri­men­tal

Ainda sob o impac­to da inter­rup­ção brus­ca do flu­xo de inte­li­gên­cia e afe­to que ema­na­va daque­le homen­zar­rão de voz tro­ve­jan­te, me vejo sem con­di­ções de dizer algo que pres­te, por isso trans­cre­vo aqui o final de um tex­to que escre­vi sobre Carlão no final de 2006 para o blog Ilustrada no Cinema, da Folha de S. Paulo:

A uto­pia de Carlos Reichenbach, que era tam­bém a de Rogério Sganzerla, é a de um cine­ma ao mes­mo tem­po popu­lar e expe­ri­men­tal, cos­mo­po­li­ta e pro­fun­da­men­te bra­si­lei­ro, radi­cal­men­te crí­ti­co e cele­bra­tó­rio. Por isso ele ata­ca em vári­as fren­tes: não para de fil­mar (mui­tas vezes cui­dan­do pes­so­al­men­te da câme­ra, da mon­ta­gem e da músi­ca), de pro­du­zir rotei­ros e pro­je­tos (enlou­que­cen­do sua sócia, a pro­du­to­ra Sara Silveira), de escre­ver crí­ti­cas (na impren­sa e na inter­net) e de orga­ni­zar even­tos como as ses­sões Comodoro, de exi­bi­ção de fil­mes raros no Cinesesc. Como Mário de Andrade, Carlão não é um só, é “tre­zen­tos, tre­zen­tos e cin­quen­ta”. Só assim para viver de cine­ma e man­ter uma inte­gri­da­de a toda pro­va num país tão aca­na­lha­do como o Brasil.

A pala­vra de Carlão

E dou a pala­vra ao pró­prio Carlão. Neste docu­men­tá­rio cur­to rea­li­za­do como tra­ba­lho de con­clu­são de cur­so de alu­nos do Centro Universitário Belas Artes de São Paulo, ele fala sobre o cine­ma e a vida, entre tre­chos de seus fil­mes:

http://www.youtube.com/watch?v=oLT9B2BghNs

Por fim, um momen­to espe­ci­al­men­te belo de sua fil­mo­gra­fia, uma cena do fil­me Alma cor­sá­ria que con­den­sa toda a poe­sia áspe­ra e exu­be­ran­te des­se homem imen­so que, como Drummond, pre­pa­ra­va uma can­ção que fizes­se acor­dar os homens e ador­me­cer as cri­an­ças.

http://www.youtube.com/watch?v=H0OwIhO7_-E

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