A Mamá e o Chacal

Literatura

22.09.15

É gran­de, qua­se incon­tor­ná­vel, a ten­ta­ção de come­çar aqui afir­man­do que, com Carmen Balcells, mor­re um pou­co mais de uma era da edi­ção lite­rá­ria. Pois é, o cli­chê, bes­ta-fera de que temos a obri­ga­ção moral de fugir, às vezes nos pre­ga uma peça. E vira a “pala­vra exa­ta” jus­to na hora de falar de alguém que, como a agen­te lite­rá­ria cata­lã, sem­pre pas­sou lon­ge do lugar-comum. Pois, con­ve­nha­mos, não era exa­ta­men­te banal deci­dir ganhar a vida inter­me­di­an­do as rela­ções entre escri­to­res e edi­to­res na Espanha fran­quis­ta dos anos 1950. E, mui­to menos ain­da, assu­mir, já na déca­da seguin­te, um pro­ta­go­nis­mo pou­co comum à pro­fis­são, tor­nan­do-se o epi­cen­tro edi­to­ri­al do boom lati­no-ame­ri­ca­no que nos deu a bri­lhan­te gera­ção de Gabriel García Márquez, Mario Vargas Llosa, Julio Cortázar e Carlos Fuentes.

Há quem diga, com exa­ge­ro mas sem des­pro­pó­si­to, que Carmen foi mes­mo a artí­fi­ce do boom, que sou­be apro­vei­tar a bue­na onda de tan­tos talen­tos emer­gen­tes e arti­cu­lar, com maes­tria, escri­to­res então peri­fé­ri­cos, de paí­ses peri­fé­ri­cos, com o cen­tro edi­to­ri­al do mun­do his­pâ­ni­co. Mas é cla­ro que ela fez mui­to mais do que isso: inven­tou, de modo mui­to pas­si­o­nal, um jei­to de defen­der auto­res com unhas e den­tes, de pen­sar sem­pre e tão somen­te em seus inte­res­ses (que, é óbvio, eram tam­bém os dela) e de aco­lhê-los com zelo mater­nal extre­ma­do, for­jan­do com afe­to e cum­pli­ci­da­de uma rela­ção que, não é difí­cil ima­gi­nar, não cabia nem cou­be em “mode­los de negó­cio”. Não à toa era, para García Márquez, a Mamá Grande.

A agen­te lite­rá­ria Carmen Barcells

Não pou­cas vezes, a mãe dos escri­to­res foi madras­ta dos edi­to­res. Respeitada e admi­ra­da por seu tra­ba­lho dili­gen­te, Carmen era não rara­men­te temi­da antes de uma nego­ci­a­ção e detes­ta­da ao fim dela. Na úni­ca vez em que a vi, de lon­ge, na minha pri­mei­ra Feira de Frankfurt, sua figu­ra hie­rá­ti­ca, alti­va, não dei­xa­va ver a afe­tu­o­si­da­de dos mui­tos rela­tos sobre sua inti­mi­da­de. Parecia uma per­so­na­gem e tal­vez até o fos­se, cons­ci­en­te­men­te, num tem­po em que o mer­ca­do edi­to­ri­al era menos assép­ti­co e, no míni­mo, bem mais diver­ti­do e inte­res­san­te.

Ela mudou minha vida”, me diz Lucia Riff, já há algum tem­po a mais impor­tan­te agen­te bra­si­lei­ra. E ela não exa­ge­ra. Há mais de trin­ta anos, quan­do Carmen man­ti­nha uma visi­o­ná­ria ope­ra­ção no Brasil, repre­sen­tan­do àque­la altu­ra deze­nas de auto­res, Lucia, recém-for­ma­da em psi­co­lo­gia, dois filhos, resol­veu se can­di­da­tar a um empre­go mes­mo não ten­do mui­ta ideia do que faria. A sucur­sal cari­o­ca da agên­cia era diri­gi­da por Ana Maria Santeiro, mas Lucia foi entre­vis­ta­da pela pró­pria Carmen depois da inter­me­di­a­ção de um ami­go. “Você gos­ta de ler? Isso é que é impor­tan­te. O res­to você apren­de rápi­do. Tenho cer­te­za de que você nun­ca vai que­rer sair dis­so, quem entra no mer­ca­do não sai mais”, dis­se Carmen.

Gabriel García Márquez, Jorge Edwards, Mario Vargas Llosa, Carmen Balcells, José Donoso e Ricardo Muñoz Suay (1974)

Depois de um ano na agên­cia, Lucia par­tiu para outros empre­gos, todos eles, cum­prin­do o des­ti­no tra­ça­do por Carmen, no mer­ca­do edi­to­ri­al. Em 1989, sete anos depois daque­la entre­vis­ta, rece­be uma liga­ção com a per­gun­ta ines­que­cí­vel: “Você se lem­bra de mim?” Era Carmen, que remo­de­la­va o negó­cio e pro­pu­nha soci­e­da­de. Nascia a BMSR, Balcells, Mello e Souza Riff, que em 2004, quan­do Carmen anun­ci­ou reti­rar-se do dia a dia em Barcelona, virou a Agência Riff de hoje, pro­du­to de uma sepa­ra­ção ami­gá­vel e nego­ci­a­da. “Ela rein­ven­tou a pro­fis­são com a pai­xão pelo autor, o acom­pa­nha­men­to do manus­cri­to, o cui­da­do nas nego­ci­a­ções. Também era dura, e me ensi­nou que todo con­tra­to tinha que poder aca­bar”, con­ta Lucia.

Dos bra­si­lei­ros, a Agência Balcells ain­da man­tém em seu catá­lo­go Rubem Fonseca (só para o exte­ri­or), Nélida Piñon, Clarice Lispector e Autran Dourado. E, no que depen­der dos acor­dos anun­ci­a­dos ano pas­sa­do, eles deve­rão ganhar ain­da mais for­ça no mer­ca­do inter­na­ci­o­nal com a asso­ci­a­ção da agên­cia à Wylie Agency, coman­da­da por Andrew Wylie. Trata-se do encon­tro de dois mun­dos: o da Mamá, com seus laços de san­gue, e os do Chacal, ape­li­do pou­co cari­nho­so dado ao ame­ri­ca­no que há pelo menos vin­te anos dá as car­tas no mer­ca­do edi­to­ri­al lite­rá­rio fazen­do mui­to, mui­to dinhei­ro nos mais leo­ni­nos con­tra­tos de que se tem notí­cia. As per­so­na­li­da­des, diga­mos, for­tes dos dois adi­a­ram por um bom tem­po a con­clu­são das nego­ci­a­ções. Quando come­ça­rem a ope­rar jun­tos, esta­rá for­ma­da a “supe­ra­gên­cia” (o ter­mo é deles) dos tem­pos glo­ba­li­za­dos, unin­do Philip Roth, Borges, Claudio Magris, Jorge Amado (é da Wylie), John Berger, Roberto Bolaño, V.S. Naipaul, James Wood, John Updike entre mui­tos outros.

Numa rea­ção for­te ao anún­cio da soci­e­da­de, Alberto Manguel deplo­rou em arti­go no El País a cri­a­ção do que cha­mou de um “super­mer­ca­do de auto­res”. Argumenta ele que em momen­tos deci­si­vos, quan­do, por exem­plo, os escri­to­res pre­ci­sam das lei­tu­ras cui­da­do­sas do agen­te e do edi­tor, o gigan­tis­mo vai des­truir os impor­tan­tes laços des­ta rela­ção. “Não é pos­sí­vel ser fiel a um harém”, sen­ten­ci­ou Manguel.

Aos 85 anos, Carmen Balcells sai de cena e, iro­ni­ca­men­te, dei­xa-a intei­ra para o Chacal bri­lhar. Seu lega­do não é ape­nas uma empre­sa mui­tís­si­mo bem-suce­di­da, mas peda­ços da his­tó­ria encer­ra­dos nas duas mil cai­xas de seus arqui­vos, ven­di­dos por três milhões de dóla­res, em 2010, ao gover­no espa­nhol. Foi, sem dúvi­da, mais um bom negó­cio. Mas que, como todos os outros que fez, aju­da a enten­der melhor um mun­do que, defi­ni­ti­va­men­te, não foi nem é puro resul­ta­do de nego­ci­a­ções mira­bo­lan­tes.

 

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