Carta nº 1

Correspondência

05.06.13

Leia a car­ta seguin­te.

 

Leila Diniz em "Todas as mulheres do mundo" (Domingos Oliveira)

Leila Diniz em “Todas as mulheres do mundo” (Domingos Oliveira)

Prezado Alvaro Costa & Silva, ple­ni­po­ten­ciá­rio Marecha da boe­mia bra­ba, Alvinho das can­don­gas, meu que­ri­do Alvarenga de copos e lite­ra­tu­ras para­ti­en­ses, que teve como padri­nho de batis­mo nin­guém menos do que Nelson Cavaquinho, sob a guar­da e os sova­cos do Cristo Redentor, sal­ve-sal­ve.

Tem três (03) pré­di­os em dife­ren­tes está­gi­os de cons­tru­ção ao redor do meu, nes­ta região do Jardim Paulista na qual venho habi­tan­do há uns 10 anos já, entre a Nove de Julho e a Brigadeiro, e que pas­sa por um ace­le­ra­do pro­ces­so de copa­ca­ba­ni­za­ção. No quar­tei­rão da minha rua só sobra­ram duas caso­tas gemi­na­das nas quais fun­ci­o­nam uma lavan­de­ria e um ate­liê de cos­tu­ra. Soçobrarão em bre­ve, dis­so não há dúvi­da.

Digo isso por­que o tema musi­cal des­ta hora mati­nal, ao invés de uma melí­flua bos­sa-nova, como seria mais ade­qua­do, estan­do eu a dia­lo­gar com um con­su­ma­do cari­o­ca, é uma ser­ra elé­tri­ca a cor­tar metal. É um tipo de estri­dên­cia mui­to dife­ren­te da ser­ra que cor­ta madei­ra, ou das fura­dei­ras de um modo geral, como apren­di a dife­ren­ci­ar nes­tes lon­gos anos de con­vi­vên­cia com obras. É de esgar­çar os tím­pa­nos de qual­quer viven­te. Mas assis­ti há pou­co pela jane­la à che­ga­da de umas beto­nei­ras gigan­tes na fren­te de outra obra, na rua de trás, de modo que daqui a pou­co tere­mos o ron­co gra­ve, em altís­si­mo volu­me, que faz tre­mer pare­des e coro­ná­ri­as, do con­cre­to sen­do bom­be­a­do pro alto da estru­tu­ra de madei­ra e fer­ro que a cada 20 dias, mais ou menos, sobe um andar. O que tiver sobra­do dos meus tím­pa­nos esgar­ça­dos pela ser­ra elé­tri­ca logo será pul­ve­ri­za­do pelo estron­do con­tí­nuo das beto­nei­ras.

Ah, sim! Agora alguém ligou uma bri­ta­dei­ra em algum dos pré­di­os. Deve ser no que já está todo con­cre­ta­do, ao lado esquer­do do meu. Eles con­cre­tam e depois des­con­cre­tam algu­mas par­tes da estru­tu­ra com a bri­ta­dei­ra. Devem gos­tar do baru­lho dos infer­nos que isso pro­vo­ca. Posso ver essa obra pela jane­la sem sair do meu pos­to de tra­ba­lho. Tem uns peões de capa­ce­te de plás­ti­co ama­re­lo pen­du­ra­dos em andai­mes, reves­tin­do de cimen­to os tijo­los fura­dos da empe­na late­ral do pré­dio. Em outros tem­pos eu sen­ti­ria algum tipo de cul­pa de clas­se por estar aqui exer­cen­do a nobre arte da escri­ta subli­te­rá­ria pra ganhar num dia de tra­ba­lho de qua­tro ou cin­co horas o que os menos qua­li­fi­ca­dos des­ses ope­rá­ri­os devem ganhar por mês. Mas a gen­te se acos­tu­ma com tudo, assi­mi­la tudo, supor­ta tudo, numa gran­de metró­po­le do capi­ta­lis­mo ter­cei­ro-mun­dis­ta sel­vá­ti­co-avan­ça­do, com ser­ra elé­tri­ca, beto­nei­ra, sire­nes, buzi­nas, moto­res, roto­res, ter­ro­res e tiro­tei­os em geral.

Tiroteio, então, tá em alta por aqui. Sempre este­ve, mas ago­ra está mais. Ontem, na av. Paulista, que fica umas seis ou sete qua­dras aci­ma da minha rua, uns malas ten­ta­ram rou­bar um cara que tinha aca­ba­do de sacar uma gra­na do ban­co. Rolou tiro à von­ta­de, à luz do dia, ferin­do a víti­ma, um segu­ran­ça do ban­co e um PM. Dessa vez nenhum pas­san­te foi atin­gi­do. E nin­guém mor­reu, pare­ce, ao con­trá­rio do mes­mo tipo de assal­to — a cha­ma­da “sai­di­nha do ban­co” — que, ante­on­tem, ter­mi­nou com a víti­ma levan­do um tiro fatal no meio da cara. Era um bai­a­no de Vitória da Conquista, ser­ven­te de um colé­gio chi­que de Higienópolis, que havia aca­ba­do de sacar três con­tos num ban­co pra finan­ci­ar as obras de sua casa pró­pria na peri­fa. Tava lá a foto do infe­liz tom­ba­do de bru­ços no asfal­to, à vis­ta dos tran­seun­tes que pas­sa­vam na cal­ça­da, enquan­to os ban­di­dos se esca­fe­di­am de moto. Toda a sequên­cia do cri­me, a ren­di­ção da víti­ma e seu fuzi­la­men­to, foi fil­ma­da por câme­ras “de segu­ran­ça” da rua, gran­des ali­a­das da soci­e­da­de do espe­tá­cu­lo, mas inca­pa­zes de ini­bir cri­mes bár­ba­ros come­ti­dos todo san­to dia na cida­de.

Saltando de pato a gan­so, lem­bro da pri­mei­ra vez que fui pro teu Rio de Janeiro, em 1968, no fus­ca azul do meu pai. Yes, um volks-volkswa­gen blue, como o do pai do Gilberto Gil, naque­la músi­ca gra­va­da pelo bai­a­no tro­pi­ca­lis­ta alguns anos depois da minha bes­treia no Rio, creio que em 1971. Ocorre que eu tinha um ami­go cari­o­ca, vizi­nho de casa, no Butantã, e foi pra casa da famí­lia dele, um apê da Barata Ribeiro, a pou­cas qua­dras do mar, que ruma­mos tão logo nos livra­mos da inter­mi­ná­vel ave­ni­da Brasil. Meu velho Marecha, nem pos­so des­cre­ver a emo­ção de pisar em solo cari­o­ca pela pri­mei­ra vez, aos meus 18 ani­nhos não mui­to puros, mas bas­tan­te bes­tas. Sendo assim, não des­cre­vo, até pra não tro­pe­çar em pie­gui­ces e obvi­e­da­des de que só um pau­lis­ta bas­ba­que é capaz. (Uma bió­lo­ga, em Manaus, a quem eu tinha aca­ba­do de con­tar que era de São Paulo, me dis­se um dia: “Chiii! Paulista, nem a pra­zo nem à vis­ta!”) Mas pos­so te con­tar, sem som­bra de deva­nei­os lite­rá­ri­os, qual foi a pri­mei­ra coi­sa em que pen­sei ao con­fron­tar-me com a pai­sa­gem que te cer­ca aí todos os dias na tua cari­oquís­si­ma vida: Leila Diniz.

Onde está Leila Diniz? — eu me per­gun­ta­va. Em que rua ela mora, em que praia ela se banha, em que bar ele toma cho­pe? E a prin­ci­pal per­gun­ta, fei­ta de sonho e ilu­são, e for­mu­la­da aqui em anti­qua­da mesó­cli­se: amar-me-á Leila Diniz se a encon­trar numa rua de Ipanema?

Leila Diniz se ins­ta­la­ra um ano antes como musa tute­lar da minha libi­do pós-ado­les­cen­te, quan­do assis­ti ao fil­me do Domingos Oliveira, o clás­si­co Todas as mulhe­res do mun­do, a mais deli­ci­o­sa comé­dia líri­ca de todos os tem­pos e luga­res. A pri­mei­ra vez que vi a fita, não con­se­gui des­gru­dar da pol­tro­na depois do FIM. Fiquei pra ver a ses­são seguin­te, mes­mo ao pre­ço de supor­tar um daque­les docu­men­tá­ri­os-coxi­nha do intra­gá­vel Primo Carbonari que ante­ce­di­am as ses­sões de cine­ma na épo­ca. Qualquer sacri­fí­cio valia a pena para ver o sor­ri­so da Leila Diniz enqua­dra­do por seus zigo­mas jovi­ais, o cor­pa­ço more­no da Leila Diniz de rou­pa, de biquí­ni e sem rou­pa ou biquí­ni, a sim­pa­tia sobre­na­tu­ral da Leila Diniz, a con­tra­ce­nar com o macu­naí­mi­co Paulo José. Era tão lin­da a Leila Diniz, que nem dava pra notar, num pri­mei­ro momen­to, o quão boa atriz ela era. Eu que­ria ser o Paulo José, ter a manha que o per­so­na­gem dele tinha com as mulhe­res, ter a namo­ra­da que ele tinha no fil­me do Domingos Oliveira, que outra não era senão a Leila Diniz.

Eita fer­ro, como diz meu ami­go Marcelino Freire, escri­tor per­nam­bu­ca­no apau­lis­ta­do.

Ao invés de cho­rar aqui de sau­da­de da Leila Diniz, aca­bo de pes­car no Youtube a sequên­cia de aber­tu­ra do Todas as mulhe­res do mun­do, na qual a Leila nem apa­re­ce, na ver­da­de. Descrevo a sequên­cia pra avi­var sua memó­ria, e tam­bém pra encher um pou­co de lingüi­ça aqui, con­fes­so. (E mal­di­to seja o revi­sor que ousar tirar o tre­ma da minha lingüi­ça. Meter-lhe-ei a dita lingüi­ça pelo oro­bó aden­tro!)

É assim: sob um fun­do musi­cal de ban­di­nha de cir­co, ouvi­mos a voz radi­ofô­ni­ca de um nar­ra­dor, cober­ta por ima­gens de alma­na­que: anji­nho bar­ro­co, ilus­tra­ção de tor­tu­ras arcai­cas, uma char­ge do Jaguar mos­tran­do um homem semi­nu numa microi­lha soli­tá­ria, fotos de gen­te anti­ga etc. Diz o nar­ra­dor, em off: “O amor con­so­me a liber­da­de… cas­tra a autoi­ni­ci­a­ti­va… con­duz à aco­mo­da­ção… des­trói a individualidade.…leva à fra­que­za. Seja só. O homem mais for­te é o que está mais só!”

Vemos então o Flávio Migliaccio sen­ta­do numa pedra à bei­ra-mar, tal­vez no Arpoador, não sei, amar­gan­do sua soli­dão dian­te do imen­so mar cari­o­ca ver­de-espe­ran­ça sob um céu azul de bri­ga­dei­ro, em que pese o bran­co & pre­to da pelí­cu­la. Eis que o gran­de ator de gran­des fil­mes bra­si­lei­ros — outro fil­me, tam­bém comé­dia, com o Flávio Migliaccio, de que me lem­bro com sau­da­de, é O homem que com­prou o mun­do, do Eduardo Coutinho, da mes­ma épo­ca do Todas as mulhe­res do mun­do -, eis que o emble­má­ti­co ator, eu dizia, se vol­ta pra câme­ra, num lan­ce meta­lin­guís­ti­co bas­tan­te inu­si­ta­do e moder­no na épo­ca, e me sol­ta essa: “Não dá pé.”

E o que é que não dá pé? O Flávio logo expli­ca:

“O amor não dá pé.”

Hahaha!

(Goethe nun­ca escre­veu “hahaha!”. Proust tam­bém não. Nem Rubem Braga. Mas eu sou um escri­ba menor, per­do­ai!)

Leila Diniz apa­re­cia somen­te alguns minu­tos depois de o fil­me come­ça­do, pra nun­ca mais desa­pa­re­cer da minha vida. A sequên­cia é uma fes­ta na casa do Paulo José. Ela abre a por­ta do apar­ta­men­to para ser enqua­dra­da em clo­se pela câme­ra do Mário Carneiro, o gran­de fotó­gra­fo da fita. Séria a prin­cí­pio, com meio ros­to ensom­bre­ci­do, ela mere­ce o comen­tá­rio em off do pró­prio Paulo José: “O que que uns olhos têm, que outros não têm?” Em segui­da a musa máxi­ma da cine­ma­to­gra­fia bra­si­lei­ra tem o ros­to ilu­mi­na­do por intei­ro e abre um sor­ri­so — o míti­co sor­ri­so de Leila Diniz! -, ense­jan­do outro comen­tá­rio do mes­mo per­so­na­gem: “O que que um sor­ri­so tem, que outros não têm?”

Pois é.

E ago­ra pre­pa­re-se pra mor­rer de inve­ja, meu velho Alvarenga: seu ami­go aqui viu de per­to o sor­ri­so de Leila Diniz. Fui, aliás, o alvo daque­le sor­ri­so, na avant-pre­mié­re de um tre­men­do aba­ca­xi estre­la­do por ela, o Madona de cedro, no hoje extin­to cine Metro, na av. São João. Eu teria o que, uns 19, 20 anos? Tinha ganha­do um con­vi­te pra estreia fes­ti­va do Madona atra­vés do filho do pro­du­tor do fil­me, que era pau­lis­ta e cole­ga de um vizi­nho meu de rua. Pra minha estu­po­ran­te sur­pre­sa, aca­bei sen­do apre­sen­ta­do à minha musa supre­ma, que não só sor­riu pra mim, como tam­bém depo­si­tou duas pre­ci­o­sas bei­jo­cas nas minhas faces páli­das de como­ção ciner­ro­mân­ti­ca. Notei, com cer­ta per­ple­xi­da­de e algum desa­pon­ta­men­to, que aque­le monu­men­to vivo à mulher cari­o­ca, nas­ci­da embo­ra em Niterói, era bran­ca como uma sue­ca de cabe­los cas­ta­nhos. Havia meses que aque­la pele — pele, não: cútis! — não via um sol ipa­ne­me­nho. Mas era ela ali na minha fren­te, a mulher que sin­te­ti­zou todas as mulhe­res do mun­do para toda uma gera­ção de jovens sen­ti­men­tais e priá­pi­cos des­te Brasil varo­nil — Leila Diniz!

Acho que sou um cara de sor­te, meu caro Marecha. Fui oscu­la­do e oscu­lei Leila Diniz. E, ape­sar de já ter sido assal­ta­do a mão arma­da vári­as vezes aqui no pla­nal­to de Piratininga, nun­ca fui víti­ma de um latro­cí­nio, como o coi­ta­do daque­le bai­a­no em Higienópolis, razão pela qual tô eu cá a puxar anti­gas nos­tal­gi­as, valen­do-me de vos­sas bene­vo­len­tes oiças.

E, por hoje, bas­ta.

(Mas, afi­nal: o amor dá ou não dá pé, meu onis­sa­pi­en­te Marechal?)

De seu ami­go, cri­a­do e admi­ra­dor,

Reinaldo Moraes

* Reinaldo Moraes é escri­tor, autor de Pornopopéia (2009), Abacaxi (1985) e Tanto faz (1981), den­tre outros.

, , , , , ,