Carta nº 3

Correspondência

03.07.13

Leia a car­ta ante­ri­or.
Leia a pró­xi­ma car­ta.

Rubem Braga

Rubem Braga

Cumpadre meu Alvarenga, alvís­sa­ras, meu bom!

Frequentador das fri­as alvo­ra­das que me tor­nei aqui na ser­ra, sabo­reio, envol­to em lãs e fla­ne­las, o meu café requen­ta­do, aliás tão bom quan­to um pas­sa­do na hora, deten­do-me bovi­na­men­te a con­tem­plar o ver­de ultra­ma­ti­za­do da pai­sa­gem pela jane­la da sala-copa-cozi­nha aqui do cha­le­zi­nho que alu­go do meu den­tis­ta, meu palá­cio pro­vi­só­rio das letras e dos óci­os, entre arau­cá­ri­as hie­rá­ti­cas que velam por minha soli­dão volun­tá­ria (só a invo­lun­tá­ria dói na alma e dá sam­ba) e cata­li­sam com seus ramos arque­a­dos em cáli­ce toda a ins­pi­ra­ção que ron­da os céus cin­zen­tos des­ta Mantiqueira inver­nal, tal qual um Jacinto de Thormes de pija­ma, malha, duas mei­as quen­tes e chi­ne­lão. Inda bem que não esta­mos a nos falar num sky­pe com vídeo. Não faço boa figu­ra nes­ta manhã. É impos­sí­vel ser ele­gan­te logo ao sair da cama. Por isso ain­da não me olhei no espe­lho da pia, úni­co da casa, o que não dei­xa de ter suas impli­ca­ções onto­ló­gi­cas, pois como garan­tir que este que acor­dei ago­ra há pou­co é o mes­mo que me dei­tei ontem por vol­ta da meia-noi­te? E pior: qual dos dois é o eu ver­da­dei­ro que há de assi­nar esta der­ra­dei­ra mis­si­va, ao fim e ao cabo?

Desgraça: acor­dei meta­fí­si­co. Deve ser efei­to des­se café requen­ta­do que, bem con­si­de­ran­do, tá é uma ver­da­dei­ra dro­ga. Mas qué­de saco de pas­sar um novo? Nada a fazer. Nem tocar um tan­go argen­ti­no me con­fe­ri­ria mais ele­gân­cia e espes­su­ra exis­ten­ci­al. Tocaria de bom gra­do um 78 rpm do Alvarenga & Ranchinho, isso sim, dupla ser­ta­ne­ja que cres­ci ven­do na tevê, um no vio­lão, o outro na vio­la, os dois de cha­péu de palha. “Nos tem­po que eu via­ja­va pela estra­da de Ouro Fino, de lon­ge se avis­ta­va a figu­ra de um meni­no…” Tinham um reper­tó­rio pró­prio, com vári­os suces­sos, mas não se can­sa­vam de home­na­ge­ar o reper­tó­rio crás­si­co do ser­tão e da roça nas apre­sen­ta­ções e nos dis­cos. “É a mar­va­da pin­ga que me atra­paia…”

Ê mun­do véio sem por­tê­ra du caraio a qua­tro.

Falo eu, falais vós. Ainda bem que você renun­ci­ou, meu ati­la­do Marecha, ao nefan­do “vós” em sua últi­ma car­ta, num bra­do retum­ban­te encap­su­la­do entre expres­si­vos tra­ves­sões: “? bas­ta de segun­das pes­so­as do plu­ral! ? “, com o que deso­bri­gou-me aqui de tor­tu­o­sas fle­xões ver­bais que pode­ri­am dar em algo como “vós fôdes,” segun­da pes­soa do plu­ral do pre­té­ri­to obs­ce­no do ver­bo fui segun­do o Febeapá do Stanislaw Ponte Preta. Bem ver­da­de que na minha segun­da mis­si­va eu tinha man­da­do uns “tu” até que bem fle­xi­o­na­di­nhos e tal, mó de dá um lus­tro lite­rá­rio pra coi­sa. Bullshitaço. Me arre­pen­di tar­de. E tomei um vós no con­tra­flu­xo. Mas ago­ra feliz­men­te res­tau­rou-se a nor­ma­li­da­de ver­bal: com eu e você a gen­te vai lon­ge. De todo jei­to, nem sei mais con­ju­gar nenhum ver­bo direi­to. O futu­ro do pre­té­ri­to do sub­jun­ti­vo do pre­sen­te mais que imper­fei­to dos dias que cor­rem me afli­ge de uma tal manei­ra que é melhor ficar cala­do no meu can­to espe­ran­do pas­sar o chu­vis­co gela­do que cai ago­ra nes­te car­tão pos­tal ser­ra­no em que me ins­ta­lei. Enquanto isso, ou por cau­sa dis­so, sigo matra­que­an­do aos leros e bole­ros cá no meu can­to, implo­ran­do ao cul­ti­va­do ami­go que rele­ve os erros do meu por­tu­guês ruim, se é que ain­da pos­so citar Roberto Carlos sem ser ime­di­a­ta­men­te pro­ces­sa­do por ele.

E apro­vei­to pra dei­xar regis­tra­do em car­tó­rio, com fir­ma reco­nhe­ci­da, estam­pi­lhas carim­ba­das e impos­tos e emo­lu­men­tos devi­da­men­te reco­lhi­dos: hoje hei de tomar banho. Sim senhor, xuá com­ple­to: cara-pé-cu, e todo o res­to, cabe­lo inclu­si­ve, com bas­tan­te xam­pu.

Prosseguindo na linha papo vadio, mas não neces­sa­ri­a­men­te fura­do, e pro­cras­ti­nan­do o quan­to pos­sí­vel a entra­da nos gra­ves assun­tos his­tó­ri­cos que a sua dou­ta mis­si­va levan­ta (olha ela aí de novo, a ines­ca­pá­vel atriz de fil­mes com men­sa­gem, a prin­ce­sa gita­na dos tris­tes Cárpatos, ora extra­vi­a­da nos con­tur­ba­dos tró­pi­cos, a cro­o­ner sus­te­ni­da dos Bemóis Selvagens… ops! Bambolês Simultâneos, digo. Gente, essas arau­cá­ri­as mui­to lou­cas estão sugan­do len­ta­men­te o que res­ta da minha já rala memó­ria…), devo dizer o quan­to me empol­gou ouvir de seu punho falan­te, ó prín­ci­pe da ora­li­da­de bra­si­lei­ra, e cari­o­ca em par­ti­cu­lar, as his­tó­ri­as sobre o cari­o­ca­pi­xa­ba cro­nis­ta e pas­sa­ri­nhei­ro Rubem Braga. Nunca pode­ria ima­gi­nar que ele tives­se sido um antis­su­fra­gis­ta femi­ni­no, como tam­bém des­co­nhe­cia o caso que ele teve com a mulher do Wainer, não a Danuza, a outra, como era mes­mo o nome dela? Txô ver aqui… Bluma. Belo nome de mulher. Só pelo nome já mere­ceu aque­la está­tua no jar­dim sus­pen­so do mai­or cro­nis­ta bra­si­lei­ro de todos os tem­pos geri­dos por Cronos, o deus suí­ço da pon­tu­a­li­da­de, se não me enga­no. Bluma. Não teria Bluma algum paren­tes­co lon­gín­quo com Missiva Levanta, por par­te de pri­mos de ele­va­do grau enca­fu­a­dos nas géli­das este­pes da Bessarábia?

Concordo a ple­nos pul­mões com a sua tese sobre o Braga de que o “negó­cio dele era achar o mato den­tro da cida­de gran­de.” E não dei­xa de ser irô­ni­co pen­sar que, ao con­trá­rio do “velho, soli­tá­rio, cas­mur­ro, res­mun­gão, com gros­sas sobran­ce­lhas e bigo­de em for­ma de tra­pé­zio,” na sua pre­ci­sa des­cri­ção, vim pra­qui achar o mato den­tro do mato mes­mo, dei­xan­do pra trás a cida­de con­vul­si­o­na­da. (Na ver­da­de, não con­se­gui esca­par de todo das atu­ais con­vul­sões soci­ais da patri­a­ma­da, como creio que te con­ta­rei mais à fren­te).

Do Braga, além das cole­tâ­ne­as de crô­ni­cas que li a par­tir do final da ado­les­cên­cia em aura de san­ti­da­de — a série da bor­bo­le­ta ama­re­la que o cro­nis­ta per­se­gue pelas ruas do Rio e a da mulher que, na guer­ra, espe­ra em vão pelo mari­do e que, em sua afli­ção, aca­ba tra­van­do peri­go­so coló­quio com o dia­bo, estão gra­va­das com tin­ta inde­lé­vel na minha memó­ria afe­ti­va — lem­bro-me de uma his­tó­ria que maca­bra seria, não fos­se ungi­da pelo humor que o Velho do Restêlo de Itapemirim sabia impri­mir às coi­sas da vida, e até às da mor­te.

A his­tó­ria come­ça, ao que me cons­ta, quan­do o Braga é diag­nos­ti­ca­do com um cân­cer por demais inva­si­vo e infor­ma­do pelo médi­co ami­go e sin­ce­ro de que seus dias esta­vam se encur­tan­do rapi­da­men­te. Conformado e tal­vez até ali­vi­a­do com a infaus­ta notí­cia, o Velho pega um Elektra da pon­te aérea, des­ce em São Paulo, entra num táxi e pede para ser con­du­zi­do ao cemi­té­rio da Vila Alpina, úni­co no eixo Rio-São Paulo que cre­ma­va cadá­ve­res na épo­ca, até onde me infor­ma minha infor­me memó­ria.

Tratando com o fun­ci­o­ná­rio da admi­nis­tra­ção da gre­lha mor­tuá­ria, Rubem Braga lhe pas­sa os dados do cida­dão a ser cre­ma­do e saca o talão de che­ques. Mas fal­ta um docu­men­to para com­ple­tar a tran­sa­ção: o cer­ti­fi­ca­do de óbi­to do fale­ci­do.

“Trago depois”, afi­an­ça o mes­tre. “Junto com o cadá­ver”.

“E onde está o cadá­ver?”

“Você está falan­do com ele. E vamos logo com isso que eu não tenho tem­po a per­der”, teria repli­ca­do Rubem Braga fazen­do jus à fama de tur­rão sem saco pra recal­ci­trân­ci­as buro­crá­ti­cas.

Não sei se o cau­so pro­ce­de de fato, nem se o Braga virou cin­za em São Paulo, que, além de túmu­lo do sam­ba, teria vira­do tam­bém for­no cre­ma­tó­rio de cro­nis­tas geni­ais. Pobre Pauliceia, quem se dis­pu­ser a can­tar teus encan­tos terá pri­mei­ro que inven­tá-los.

Outra his­to­ri­e­ta envol­ven­do o Braga qua­se me teve por tes­tu­ma­nha, cê acre­di­ta? Foi lá na bara­fun­da dos anos 80, no Pirandello, o bar e res­tau­ran­te do Baixo Augusta que con­gre­ga­va cer­ca de 100% da boe­mia pau­lis­ta­na da épo­ca, sob a égi­de do então gor­do Maschio (hoje está um pali­to ele­gan­te) e do sem­pre magro Vladimir, donos da bibo­ca, o pri­mei­ro um cozi­nhei­ro e fes­tei­ro de mão cheia, o segun­do, sem­pre com seu cha­pli­ni­a­no cha­péu-coco, um conhe­ci­do jor­na­lis­ta que escre­via sobre artes e espe­tá­cu­los no hoje extin­to Jornal da Tarde.

Nesse tem­po eu mora­va no mes­mo edi­fí­cio que o meu que­ri­do ami­go Mário Prata, em Higienópolis, e era comum sair­mos jun­tos à noi­te de nos­sos cafo­fos pra men­di­gar o tumul­to nas ruas, como diria Pascal. Imagine você que numa des­sas noi­tes me pas­sa o Prata em casa pra me arras­tar ao Pirandello, onde ele iria se encon­trar com nin­guém menos que o Rubem Braga, que esta­va em São Paulo tra­tan­do, des­ta fei­ta, de assun­tos mais ame­nos que a cre­ma­ção dos pró­pri­os des­po­jos mor­tais, como viria a fazer anos depois. Ocorre que, de namo­ra­da nova a tira­co­lo, deci­di ficar em casa, mais pre­ci­sa­men­te na cama, explo­ran­do com afin­co os apra­zí­veis rin­cões recre­a­ti­vos de jovem cor­po da ama­da — todos dis­pú­nha­mos de jovens cor­pos naque­la altu­ra -, e assim foi que não tive o his­tó­ri­co pra­zer de conhe­cer o velho urso. Quão tolo é o sujei­to que se dei­xa levar, ou melhor, ficar, por sua fami­ge­ra­da e famé­li­ca libi­do.

No dia seguin­te, o Prata veio me espe­zi­nhar com rela­tos ape­ti­to­sos da mag­ní­fi­ca con­ver­sa­ção de horas a fio que tive­ra com o Braga numa mesa do Piranda. Disse o Prata que, a cer­ta altu­ra, ele e seu ilus­tre comen­sal avis­ta­ram uma esfu­zi­an­te e obe­sa senho­ra aden­trar o recin­to e se pôr a mirar-se com nar­cí­si­ca desen­vol­tu­ra num dos mui­tos espe­lhos afi­xa­dos nas pare­des do casa­rão res­tau­ra­do dos anos 20 que teria per­ten­ci­do a Oswald de Andrade, infor­ma­ção esta que nun­ca pude con­fir­mar. Vendo a mocreia se pavo­ne­an­do daque­le jei­to dian­te do espe­lho, o velho cro­nis­ta saiu-se com essa péro­la de sexis­mo escla­re­ci­do: “Certos espe­lhos deve­ri­am refle­tir melhor antes de refle­tir cer­tas mulhe­res.”

Bom seria gas­tar todo o papel vir­tu­al de que dis­po­nho tra­tan­do das crô­ni­cas magis­trais do Braga e de seu infin­dá­vel ane­do­tá­rio pes­so­al. Mas, como diz você, ques­tões mais come­zi­nhas se impõem. Os pro­tes­tos. Sim, tem razão você, os pro­tes­tos são, de fato, espe­ta­cu­la­res, quan­do vis­tos na tevê em seu auge de vio­lên­cia e pai­xão. Ninguém sabe bem no que vão dar, embo­ra já tenham tido a for­ça de anu­lar um aumen­to de tari­fa de ôni­bus e fazer a pre­si­den­ta cogi­tar um ple­bis­ci­to para mudar as regras podres do nos­so jogo polí­ti­co, onde “quiém no llo­ra no mama y quiém no roba es um gil,” sen­do gil, como todos sabem, uma gíria por­te­nha para otá­rio — pala­vra que, por aca­so, tam­bém se ori­gi­na no lufar­do bue­nai­ren­se, se me per­mi­te uma per­nós­ti­ca mas bre­ve digres­são eti­mo­ló­gi­ca.

Aninhado e alhe­a­do aqui nos refo­lhos bucó­li­cos da Mantiqueira, não tinha tido ain­da con­ta­to com os pro­tes­tos até vol­tar a São Paulo na sema­na pas­sa­da. Caminhando num fim de tar­de pela Paulista, topei com dois blo­cos de pro­tes­tan­tes ento­an­do pala­vras de ordem, osten­tan­do car­ta­zes e baten­do tam­bo­res. O pri­mei­ro blo­co, mais nume­ro­so, embo­ra não che­gas­se a ter uma cen­te­na de par­ti­ci­pan­tes, se insur­gia con­tra o ine­nar­rá­vel depu­ta­do Feliciano e sua “cura gay” que faria até o Ubu-Rei engo­lir em seco. O segun­do blo­co, segui­do de um cor­te­jo de poli­ci­ais mili­ta­res liri­ca­men­te equi­li­bra­dos em bici­cle­tas, era ain­da menos popu­lo­so que o pri­mei­ro e com um esco­po rei­vin­di­ca­ti­vo bem mais res­tri­to e con­tun­den­te. A jul­gar pelo úni­co refrão que esgo­e­la­vam na fren­te do MASP,  tudo que aque­le povi­nho plei­te­a­va é que a pre­si­den­ta Dilma vies­se a pra­ti­car o sexo anal, assim, de um modo gené­ri­co. Às vezes acho o Brasil um lugar algo estra­nho para se viver, embo­ra não sai­ba dizer que lugar have­ria de ser menos estra­nho. O Paraguai, tal­vez?

Novo con­ta­to com os novos e tur­bu­len­tos tem­pos eu tive ao vol­tar pra cá, na sex­ta pas­sa­da. Depois de enfren­tar um trân­si­to catatô­ni­co de qua­se duas horas pra sair da cida­de, por con­ta ape­nas do exces­so de car­ros que­ren­do fugir de São Paulo no pri­mei­ro dia de féri­as esco­la­res, final­men­te rodei sol­to pela Carvalho Pinto até embo­car na estra­da de Campos do Jordão, que cos­tu­mo pegar até Santo Antônio do Pinhal, de onde me lan­ço por estra­di­nhas vici­nais rumo ao aben­ço­a­do sul de Minas. Não con­se­gui che­gar a Santo Antônio, porém. Logo no iní­cio da estra­da de Campos, o trân­si­to parou por com­ple­to. O moti­vo não tar­dou a cir­cu­lar entre os moto­ris­tas que, fora de seus veí­cu­los, ten­ta­vam deci­frar que por­ra esta­va acon­te­cen­do lá na fren­te. Obras? Acidente? Nada dis­so: mani­fes­ta­ção. Um gru­po de pes­so­as tinha fecha­do a estra­da no tre­vo de Tremembé. Ninguém ia, nin­guém vinha. Tudo para­do. Não con­se­gui ver os mani­fes­tan­tes e tam­pou­co tive notí­cia de suas ban­dei­ras e rei­vin­di­ca­ções. Talvez fos­se mais uma con­tra o porquê­ra do Feliciano, se é que não esta­vam suge­rin­do a nos­sos gover­nan­tes que fos­sem pra­ti­car sexo anal pas­si­vo alhu­res e nos dei­xas­sem em paz. Difícil aqui saber o que o cu tem a ver com a cau­sa, mas, enfim, depois de uma hora ali para­do, con­se­gui fazer o retor­no na estra­da para ten­tar um cami­nho alter­na­ti­vo por São José dos Campos e Monteiro Lobato. Deu cer­to. Acabei che­gan­do aqui na minha chou­pa­na lite­rá­ria às 11 e meia da noi­te, depois de ter saí­do de casa às 4 e meia da tar­de. Sete horas de via­gem, quan­do o nor­mal é três.

Tudo bem, cá estou eu já há 3 chu­vis­quen­tos dias ins­ta­la­do em minha con­for­tá­vel ali­e­na­ção rupes­tre enquan­to as cida­des ardem e doem como as aftas daque­le famo­so adá­gio ger­mâ­ni­co: “Asaftasardemdoem.” Sinto-me como o Guimarães Rosa cita­do por você em sua impres­si­o­nan­te des­cri­ção do Bogotazo de 1948, d’aprés Antônio Callado e Joel Silveira. Nosso artis­ta mai­or das letras lia Proust enquan­to o cir­co pega­va fogo lá fora, a exem­plo do velho Aires do Machadão, diplo­ma­ta como o Rosa, só que do Império. Lembra des­sa pas­sa­gem, meu doce Alvaro, acho que do Esaú e Jacó — e não do Memorial de Aires — em que o fogo­so Aires, na cama com uma não menos fogo­sa senho­ra, num país lati­no-ame­ri­ca­no, ouve lá fora a tur­ba mul­ta em rumo­ro­sa agi­ta­ção? A mulher, tão pela­da quan­to assus­ta­da, per­gun­ta: “Que con­fu­são é essa? Será o gover­no que cai?” Ao que o seu fleu­má­ti­co aman­te res­pon­de: “Se não é o gover­no que cai, deve ser o gover­no que sobe. Deixa pra lá e vamos con­ti­nu­ar a fun­ção aqui que dá mais cer­to.”

Bem, na ver­da­de não estou em Gonçalvez de cos­tas pra his­tó­ria len­do Proust. Estou é ten­tan­do ardu­a­men­te virar um pri­mo do vizi­nho do con­cu­nha­do do Proust, se tan­to. Pode avi­sar, aliás, nos­sa bela e riso­nha Renatinha Megale de que tem, sim, roman­ce novo à vis­ta. Aqui na minha fren­te estão as arau­cá­ri­as que não me dei­xam men­tir. Na ver­da­de, até dei­xam. As arau­cá­ri­as são famo­sas por sua infi­ni­ta leni­ên­cia dian­te dos víci­os e mal­fei­tos huma­nos. Tudo que rei­vin­di­cam é seu direi­to ina­li­e­ná­vel de inte­grar ver­ti­ca­men­te a pai­sa­gem. Enquanto isso, e sal­vo melhor juí­zo, vou reco­lhen­do os flaps, velhão, não sem antes estrei­tá-lo num for­te e calo­ro­so abra­ço. E que nos­sa pró­xi­ma ter­tú­lia seja ao vivo e flam­ba­da em bons álco­ois, se é que o plu­ral de álco­ol é mes­mo esse.

Dom Reynaldo de los Pinhones Asados,

gran cabal­le­ro de la impe­ri­al Ordem de las Cucarachas Borrachas

PS: Que gata essa Adele Fátima, hein? Pena que você a conhe­ceu já entra­da em qui­los. Também, devo­ran­do os cro­que­tes de car­ne, riso­les de cama­rão  e cer­ve­ji­nhas gela­das, ser­vi­dos em doses indus­tri­ais pelo mari­do, segun­do você sabo­ro­sa­men­te nos con­ta, como man­ter a for­ma de musa por­no­chan­cha­des­ca? Outro dia vi uma foto recen­te e igual­men­te deses­ti­mu­lan­te de outra musa do cine­má bré­si­li­en que emba­lou meus ona­nis­mos juve­nis, lá nos anos 60: Vanja Orico. Manja a Vanja? Aparecia pela­di­nha em flor num fil­me de can­ga­cei­ro cujo nome nem por mila­gre vou lem­brar aqui, diri­gi­do, acho eu, pelo Carlos Coimbra, espe­ci­a­lis­ta no gêne­ro ári­do movie. Foi a pri­mei­ra vez que vi o pela­me púbi­co de uma senhô­ra na tela. Foi um des­ses alum­bra­men­tos que mar­cam pra sem­pre a vida de um homem. Ó xen­te!

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