Recordações de literatura e de vida

IMS na FLIP

01.08.14

Às 10h da manhã do dia 31, a Casa do IMS na Flip começou suas atividades. A exposição Millôr 100 + 100, que ficará até domingo em cartaz, apresenta imagens e frases de Millôr Fernandes, o homenageado da festa literária e cujo acervo de desenhos e cartuns está sob a guarda do IMS. 

“Batuta na Flip”, a série de conversas com escritores e intelectuais promovida pelo IMS, começou às 16h com Gregorio Duvivier, autor de Ligue os pontos. Gregorio conversou com Alice Sant’Anna e disse que, quando adolescente, não tinha nenhuma atração pela literatura adulta. Era o maior fã de Roald Dahl até se deparar com O estrangeiro, de Albert Camus, “um livro que me deu uma rasteira”. Segundo ele, há uma complexa identificação do leitor com o personagem principal, que mata um indivíduo sem motivo algum para isso.

O ator e poeta disse que a narrativa é muito aflitiva por nos revelar a subjetividade de um personagem que é incapaz de sentir. A sua experiência profissional é levada em conta na sua interpretação da obra do autor franco-argelino: “Os atores têm o afeto à flor da pele, mas o afeto não é inerente à experiência humana”. Gregorio diz sentir que um laço afetivo seria capaz de salvar o protagonista de Camus.

Outras obras de Camus que interessam muito a Gregorio são O primeiro homem, a autobiografia do francês, escrita precocemente – e uma obra incompleta -, e O mito de sísifo, ensaio existencialista que afirma que “o ator é um Sísifo feliz, todo dia faz o mesmo percurso e é essa tarefa absurda que te preenche”.

Gregorio disse que sempre quis escrever um romance, mas para isso “falta tudo”, especialmente disciplina. Seu novo livro, uma coletânea de crônicas e textos inéditos, sairá em novembro pela Companhia das Letras com o título de Put some farofa.

Às 17h, o cronista Antonio Prata conversou com Paulo Roberto Pires sobre um de seus livros favoritos de Campos de Carvalho, A lua vem da Ásia. Prata é primo em terceiro grau do autor. Ele leu o início do romance para demonstrar o ritmo incansável de frases demolidoras que conduzem as 120 páginas do livro. “Aos 16 anos, matei meu professor de lógica invocando legítima defesa”. Esta frase inicial já gerou uma grande identificação, pois Prata conheceu a obra de Carvalho aos 15 anos logo após ter sido reprovado no colégio.

Quando conheceu ao vivo o escritor, sofreu uma grande decepção. Achou-o um “senhorzinho deprimido” com uma casa banal, com “tapete de peixinhos” no banheiro. Porém, ao conversar com ele, percebeu o humor peculiar do autor, que falava coisas estranhas com a maior seriedade.

A segunda vez em que Prata entrevistou Carvalho foi três dias antes de sua morte. Ele foi ao velório do escritor, que estava completamente vazio, só havendo um primo dele. Então, em uma cena tristíssima (mas, na narração de Prata, também cômica), ajudou a carregar o caixão do seu ídolo ao lado de Jesus, o motorista do rabecão radicalmente ateu.

Tornando a falar de A lua vez da Ásia, Prata destacou o tom delirante e a geografia esquisitíssima que o livro expõe. “Carvalho leva a lógica tão ao pé da letra que subverte a lógica. É o trabalho de um cara bom de matemática.”

Jorge Edwards conversou com Alice Sant’Anna e foi o último convidado do dia. Ele começou narrando como enviou seu primeiro livro a Pablo Neruda e ficou três meses sem resposta, até um encontro acidental na rua com um homem que lhe informou que Neruda queria conhecê-lo. O encontro com o poeta foi um grande choque, pois revelou a Edwards um grupo de escritores muito diferente de sua realidade.

Edwards destaca, da obra de Neruda, Residência na terra, um livro obcecado pela natureza — Neruda lia muito Walt Whitman na época, uma referência clara nesse sentido. Neruda é, para Edwards, “um poeta plástico, próximo da pintura, distante da música”.

O primeiro poema que ouviu de Neruda e que lhe causou grande impacto foi o que abre 20 poemas de amor, quando estava no colégio. Sobre o seu primeiro encontro com Neruda, Edwards recordou sua voz anasalada, a maneira absolutamente incomum de se vestir do poeta e o quanto ele tinha medo da matemática.

No decorrer da conversa, Edwards narrou várias anedotas sobre a sua relação com Neruda, de quem se tornou amigo. Ele disse tê-lo visto lendo poesia de todos os cantos do mundo: americana, francesa, latina… “Gostava de François Villon, o hippie da época. Baudelaire era um de seus favoritos.” Por fim, E contou que Neruda também conhecia muito bem a literatura policial, de Chester Himes a Simenon. Por outro lado, não gostava de William Faulkner: achava que Santuário não passava de uma cópia de Raymond Chandler.

Às 20h, encerrando as atividades do dia na casa, ocorreu o coquetel de lançamento do livro Millôr 100 + 100 e do número 17 da revista serrote, além da edição especial de distribuição gratuita, a serrote 17 e 1/2.

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