Casquete de lã — Por Armando Freitas Filho

Correspondência

09.05.11

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Pois é, Ri. Como escre­ver car­tas ago­ra? Tenho a impres­são de que escre­vi no últi­mo fim de sema­na todas as car­tas pos­sí­veis, todas as car­tas do mun­do, só que con­ver­sa­das. São car­tas na fase oral.

Quando você che­ga aqui em casa, sin­to que, enfim, che­gou em  casa. Depois de sara­co­te­ar por toda a par­te (às vezes fico moni­to­ran­do pelo tele­fo­ne), você che­ga em casa para des­can­sar um pou­co (afi­nal, até os glo­be-trot­ters des­can­sam) e por o dia a dia em dia. Eu podia falar, sem for­çar, que, quan­do che­ga, você tam­bém não para de che­gar. Já conhe­ço o seu toque de cam­pai­nha, cur­to, segui­do ime­di­a­ta­men­te da aber­tu­ra do fer­ro­lho do por­tão, que você sabe onde fica, e que a pla­ca CÃO FEROZ é retó­ri­ca pura, está lá para cons­tar. Não há nem mes­mo um cão roti­nei­ro; pode haver algu­ma fero­ci­da­de velha conhe­ci­da, que no fun­do é ami­ga, mas sal­ga­da, uma fero­ci­da­de defron­te do espe­lho, que ces­sa quan­do não se fica para­do dian­te dele, mas vamos, os dois, os três, os qua­tro, com as nos­sas famí­li­as, para o outro lado para nos enxer­gar­mos sem nar­ci­sos e pas­sa­mos a esmiu­çar não as apa­rên­ci­as, mas as nos­sas essên­ci­as com uma deli­ca­de­za fir­me, com uma taxa irre­le­van­te de com­pla­cên­cia, espa­ço neces­sá­rio para uma fes­ti­nha no ros­to, um segu­rar na mão, um sus­pi­ro fun­do que, em mim, é habi­ta­do pelos que não estão aqui: por sim­ples ausên­cia, vou logo dizen­do, para nin­guém pen­sar que esse vici­a­do em dra­mas na veia, está pegan­do pesa­do, está pegan­do a mão do outro para não se afo­gar, está que­ren­do pegar a mão que não exis­te mais.

Como você sabe, para este via­jan­te con­tra­ri­a­do, este via­jan­te con­fi­na­do, com o escri­tó­rio na cabe­ça, no míni­mo, qual­quer cida­de só exis­te atra­vés das pes­so­as ami­gas que vivem nela. Para mim, “a mais com­ple­ta tra­du­ção” de Sampa é a minha Rita, que não é aque­la que o can­tor can­ta, mas é exa­ta­men­te você, para quem eu con­to, o bem, o mal, o tal­vez. Não me esque­ço da sen­sa­ção de orfan­da­de que sen­ti, há alguns anos, quan­do ater­ris­sei, desen­gon­ça­do como sem­pre, aí, e, ain­da segu­ran­do a mala, tele­fo­nei: nin­guém res­pon­dia, nem a Sula!!!! Liguei para sua mãe e D. Cecília me dis­se que você esta­va de mudan­ça para a sua casa atu­al, que o tele­fo­ne ain­da não tinha sido ins­ta­la­do e ela não tinha o ende­re­ço novo. O celu­lar não tinha nas­ci­do, é bom lem­brar. Papagaio! Eu me sen­ti per­di­do em cima do car­pe­te impe­cá­vel do Crowne Plaza, com sua gela­dei­ra com o cos­tu­mei­ro ron­co do abo­mi­ná­vel homem das neves; se você esti­ves­se, ao menos telefô­ni­ca, teria me dito o tru­que que um esper­ti­nho lhe ensi­nou: des­li­ga da pare­de! Cumpre avi­sar aos nave­gan­tes, para os que sofrem notur­na­men­te com esse mons­tro embu­ti­do nos quar­tos de hotel, con­tu­do, que esse recur­so só fun­ci­o­na bem com cer­tas gela­dei­ras, pois em noi­te lon­gín­qua em Ouro Preto cau­sou uma inun­da­ção no quar­to de quem não sabe nadar.

Me ocor­reu outra lem­bran­ça pau­lis­ta­na até o talo: almo­çá­va­mos Cristina, eu e o Reinaldo no Spot; con­ver­sa vai, con­ver­sa vem, cis­mei que que­ria com­prar uma cas­que­te de lã pied de pou­le, igual a de Antonio Candido. Quem sabe se com uma cas­que­te como a dele na cabe­ça, eu pode­ria tirar uma cas­qui­nha pelo menos e pen­sar que pen­sa­va algo de pare­ci­do com o que ele pen­sa? Iludir-se, ou fan­ta­si­ar é um bom remé­dio, para quem é abs­tê­mio e hipo­con­dría­co, como eu. Fomos às com­pras, atra­ves­sa­mos, a pé, a cida­de até o cen­tro “velho”, que meu pai gos­ta­va de visi­tar quan­do ia a São Paulo. O comér­cio anti­go, as casas tra­di­ci­o­nais old fashi­on, o lan­che no Mappin, os belos anún­ci­os pin­ta­dos na empe­na dos edi­fí­ci­os, um chei­ro de car­vão, de café, algu­ma coi­sa assim,  pre­ta, ou de fer­ra­gem boa como as da Estação da Luz, onde eu tinha che­ga­do dois dias antes no fabu­lo­so e ines­que­cí­vel trem notur­no de aço, se não estou em erro, da mar­ca Budd, inglês, esta­lan­do de novo, pra­te­a­do, com suas esta­ções que pas­sa­vam ou para­vam ren­te à minha cama em ple­na madru­ga­da fria, que sen­tia colan­do minha tes­ta na vidra­ça ampla da jane­la da cabi­ne. Experimentei, então, sen­sa­ções con­tra­di­tó­ri­as, que per­du­ra­ri­am se me fos­se dado hoje uma via­gem igual: um mis­to de medo e pro­te­ção, de inti­mi­da­de incom­pre­en­sí­vel e impró­pria com as figu­ras nubla­das que fica­vam para trás. Na ver­da­de, era uma clas­se de pes­so­as olhan­do do lado de den­tro para outra, do lado de fora, atra­vés das suas peri­go­sas dife­ren­ças.  Depois, o mês de féri­as de julho na casa ami­ga da Alameda Nothman ao lado do Palácio dos Campos Elíseos, onde um dia minha bola de cou­ro núme­ro 5 caiu e o chauf­feur (assim mes­mo, em fran­cês) a devol­veu com um gri­to ale­gre. Mais tar­de, sério, de que­pe, ter­no e gra­va­ta, apa­re­ceu no volan­te de um car­ro pre­to (um Rolls Royce?) com o gover­na­dor gor­do cha­ma­do Adhemar de Barros, escar­ra­pa­cha­do, no ban­co de trás. Fiquei sur­pre­so ao ver como ele era ver­me­lho, pare­cen­do suar mes­mo no frio. Nessa casa fiquei enfur­na­do (eu tinha 13 anos) qua­se o mês todo len­do a cole­ção da Seleção Reader’s Digest, enca­der­na­da em ver­me­lho vinho, des­pre­zan­do todos os pas­sei­os ofe­re­ci­dos. No dia da vol­ta ao Rio, joguei uma boli­nha de papel den­tro da bacia de ala­bas­tro do lus­tre da sala. Quando vol­tas­se ia con­fe­rir se ela ain­da esta­ria lá. Nunca vol­tei. Mas até hoje gos­to de ima­gi­nar onde esta­rá aque­le lus­tre, aque­la luz baça, ama­re­la­da, como con­vém para ilu­mi­nar a lem­bran­ça de dias anti­gos. Não creio que o lus­tre se per­deu (a boli­nha, sim), por­que era uma peça por­ten­to­sa, coi­sa que vai lon­ge den­tro de uma famí­lia, se acen­den­do e apa­gan­do.

A digres­são foi lon­ga como a nos­sa tra­ves­sia em bus­ca da cas­que­te. Cristina esta­va exaus­ta, mas Rei e eu, cruéis, só sos­se­ga­mos quan­do a encon­tra­mos numa velha cha­pe­la­ria que guar­da­va no ar um chei­ro bom de bri­lhan­ti­na e lã. Não a usei de pron­to, pois o dia esta­va quen­te. Só sei que, por dois ou três dias, tor­ci por um frio sibe­ri­a­no que não soprou. De vol­ta ao Rio, não a usei uma vez sequer. Aqui ela não fun­ci­o­na­ria a con­ten­to, e eu tenho que man­ter, a todo cus­to, a ilu­são e a fan­ta­sia que me fez com­prá-la, mes­mo se o pre­ço for o de não usá-la nun­ca. Aquela cas­que­te, para mim, é São Paulo, é Antonio Candido entran­do numa tar­de de inver­no na livra­ria fran­ce­sa. Mas um dia, quem sabe, não ouso e a uso aí, como uma home­na­gem a ele? Homenagem a um homem a quem sem­pre deve­mos tirar o cha­péu.

Pelo que escre­vi aci­ma vejo como é dife­ren­te a visão que um tem da cida­de do outro. É natu­ral que seja assim: você já veio ao Rio n vezes e con­ti­nu­a­rá vin­do e eu só fui a São Paulo, umas vin­te, se tan­to, e se con­se­guir dobrar a frequên­cia será mui­to. Não pos­so ter esse seu amor de apa­che pela cida­de em si, como coi­sa sua, embo­ra a sua mira­da  não dei­xe de ter uma curi­o­si­da­de de turis­ta, de quem não tem o mar à mão.

Mas, como bem me dis­se Cristina, esse punha­do de lem­bran­ças tão par­ti­cu­la­res que inte­res­se pode­rá ter no mun­do apres­sa­do dos blogs? Só me res­ta ir fre­an­do aos pou­cos o motor prous­ti­a­no “de quin­ta”, e agra­de­cer o seu belís­si­mo poe­ma que res­tau­ra, como um fil­me que vol­ta para trás, o nos­so Santos Dumont, a nos­sa ater­ris­sa­gem nele, tão de acor­do com o ar da cida­de, com a baía mais boni­ta do mun­do. Para mim, abrir a por­ta do avião era abrir a por­ta de casa, na Urca, pegar o jor­nal e ir lê-lo na praia do Forte, onde Estácio de Sá fun­dou a cida­de, a 400 e pou­cos pas­sos de onde moro, com a Rua São Sebastião, a pri­mei­ra do Rio, cos­te­an­do o mor­ro Cara de Cão. Por fim, gos­to de pen­sar que sua inti­mi­da­de com o Rio nas­ceu da nos­sa inti­mi­da­de, na sua hos­pe­da­gem no quar­to que eu cha­ma­va o “recreio dos ban­dei­ran­tes”, com a “unha” do Pão de Açúcar encra­va­da no jar­dim, assim:

URCA

para Cri

em casa     No quin­tal, abrup­ta, pri­má­ria
a rocha aflo­ra — é o pé no chão
do Pão de Açúcar, pron­to, sen­ti­do!
Sentinela baten­do no céu, em con­ti­nên­cia.
Parado, atrás da casa, equi­li­bra­do
para não dar um pas­so a mais, para não pisar
na vida do peque­no jar­dim, no bos­que de ráfi­as.

na rua      Cheiro de chão de cerâ­mi­ca molha­da
e de gra­ma recém cor­ta­da ren­te.
O mar sem­pre bei­ran­do as pedras, mas
às vezes, raro, em res­sa­ca, no pare­dão.
O rumor arra­nha­do das folhas secas na rua
a nota só, agu­da, repe­ti­da, reto­ma­da
do rap arden­te da tri­lha das cigar­ras
e a per­cus­são bre­ve das amên­do­as
quan­do caem na cal­ça­da, e meio abau­la­da
quan­do batem no teto e no capô dos car­ros.

Beijo de um cari­o­ca da gema, para uma cla­ra cari­o­ca.  Armando.

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