Cássia Eller: flor e espinho

No cinema

13.02.15

É impos­sí­vel assis­tir ao docu­men­tá­rio de Paulo Henrique Fontenelle sobre Cássia Eller e não se apai­xo­nar por ela. Não por­que o fil­me apa­re ares­tas e a san­ti­fi­que, como fazem tan­tos outros do gêne­ro, nem tam­pou­co por­que a “expli­que”. Nada dis­so. O méri­to de Cássia Eller con­sis­te jus­ta­men­te no opos­to: apre­sen­tar a per­so­na­gem como pedra bru­ta, mul­ti­fa­ce­ta­da. Enigma que não se deci­fra. No entan­to, ao final da ses­são, sen­ti­mos que de algu­ma for­ma che­ga­mos mais per­to de seu cora­ção sel­va­gem.

Ao tra­tar de uma bio­gra­fia assim, de car­ga dra­má­ti­ca já por si tão inten­sa, e dis­pon­do de uma abun­dân­cia de mate­ri­al audi­o­vi­su­al, tão impor­tan­te quan­to saber o que colo­car na tela é deci­dir o que dei­xar de fora.

Comecemos então pelo que Cássia Eller não tem: não tem expli­ca­ção psi­co­ló­gi­ca nem lição de moral; não tem músi­ca emo­ti­va adi­ci­o­nal nem “câme­ra caça-lágri­ma” (aque­la que dá um zoom nos olhos do entre­vis­ta­do nos momen­tos de como­ção); não tem con­tex­tu­a­li­za­ção didá­ti­ca com ima­gens do que “esta­va acon­te­cen­do no Brasil e no mun­do”; não tem con­ver­sa joga­da fora nem depoi­men­tos de Nelson Motta e Caetano Veloso. Ufa.

À par­te isso, tem de tudo: entre­vis­tas da can­to­ra, ima­gens de bas­ti­do­res e de tur­nês, frag­men­tos de home movi­es, notí­ci­as de jor­nal, depoi­men­tos de paren­tes, ami­gos e par­cei­ros pro­fis­si­o­nais, e sobre­tu­do tre­chos de shows, mui­tos shows.

Informação e poe­sia

Todos os depoi­men­tos colhi­dos para o docu­men­tá­rio são per­ti­nen­tes, e edi­ta­dos com pre­ci­são cirúr­gi­ca, de modo que não se per­de o foco e o rit­mo nem por um momen­to – com exce­ção tal­vez dos minu­tos finais, em que o fil­me pare­ce relu­tar em ter­mi­nar, em dizer adeus à per­so­na­gem. Mas a essa altu­ra o espec­ta­dor tam­bém lamen­ta dei­xá-la, quer adi­ar a des­pe­di­da.

Uma qua­li­da­de de Fontenelle, que já apa­re­cia em Loki – Arnaldo Baptista (2008) e que o dis­tan­cia dos fabri­can­tes de pro­sai­cos docu­men­tá­ri­os tele­vi­si­vos, é o fato de valo­ri­zar cada ima­gem não ape­nas pelo que traz de infor­ma­ção mas tam­bém pelo seu peso esté­ti­co, dra­má­ti­co e rít­mi­co intrín­se­co. Parece fácil, mas, no mar de regis­tros audi­o­vi­su­ais exis­ten­tes, pin­çar os momen­tos mais expres­si­vos e orde­ná-los numa nar­ra­ti­va que bus­que fazer jus à rique­za con­tra­di­tó­ria da per­so­na­gem não é para qual­quer um. Requer inte­li­gên­cia, per­sis­tên­cia e sen­si­bi­li­da­de.

Há em Cássia Eller ima­gens pre­ci­o­sas por sua como­ven­te sin­ge­le­za, como as dos show­zi­nhos qua­se clan­des­ti­nos que ela, já famo­sa naci­o­nal­men­te, fazia com um gru­po de ami­gos em clu­bes de cida­des do inte­ri­or, escon­di­da do empre­sá­rio. Seu pra­zer de can­tar, de estar no pal­co – fos­se o do Rock in Rio ou de um salão paro­qui­al – é algo que trans­bor­da da tela a cada momen­to.

Inserção tor­ta na indús­tria

A impren­sa explo­rou à exaus­tão alguns apa­ren­tes para­do­xos de Cássia Eller: a homos­se­xu­a­li­da­de e a mater­ni­da­de; o reper­tó­rio hete­ro­do­xo que ia de Nirvana a Edith Piaf, pas­san­do por Riachão e Nando Reis; as trans­gres­sões liber­tá­ri­as e o pen­dor domés­ti­co; a fero­ci­da­de e a ter­nu­ra. Tudo isso está no fil­me, cla­ro.

 

Mas o dra­ma cen­tral da vida da can­to­ra tal­vez seja o con­tras­te entre a expo­si­ção des­pu­do­ra­da nos shows e a timi­dez no con­ví­vio soci­al, entre a voca­ção para bri­lhar e o incô­mo­do com a con­di­ção de cele­bri­da­de. E é esse, a meu ver, o eixo nar­ra­ti­vo do fil­me. Em outras pala­vras, seu obje­to é a inser­ção envi­e­sa­da, tor­ta, de uma artis­ta de talen­to sin­gu­lar no mun­do codi­fi­ca­do e opres­si­vo da indús­tria cul­tu­ral (o que inclui a estu­pi­dez cor­rup­ta e mora­lis­ta da mídia).

De cer­to modo, esse tam­bém era o cer­ne de Loki. Cássia Eller e Arnaldo Baptista não cabem no show busi­ness, ou melhor, não saem ile­sos dele. Só cabem ali à cus­ta de mui­to sofri­men­to e, no limi­te, da auto­des­trui­ção. Para quem qui­ser con­fe­rir o cita­do Loki, ele está dis­po­ní­vel na ínte­gra no Youtube. Vale a pena cote­jar os dois fil­mes.

Entre as bre­ves cenas que se repe­tem em Cássia Eller, qua­se como pon­tu­a­ções rít­mi­cas, há uma que me pare­ce par­ti­cu­lar­men­te expres­si­va: ela vai entrar no pal­co com Roberto e Erasmo Carlos; os três vêm em dire­ção à câme­ra, Roberto e Erasmo atrás, meio mumi­fi­ca­dos, ver­da­dei­ras ins­ti­tui­ções ambu­lan­tes; à fren­te deles, Cássia soca e chu­ta o ar, como um luta­dor pres­tes a subir ao rin­gue. É essa ener­gia incon­ti­da, indo­má­vel, que o fil­me nos ofe­re­ce. Uma flor sel­va­gem com espi­nhos e tudo.

, ,