Chamada a cobrar e as fraturas de um país

No cinema

21.06.13

Costuma-se dizer que as boas repor­ta­gens de polí­cia são per­me­a­das pelas con­tra­di­ções soci­ais. O mes­mo se pode dizer dos bons livros e fil­mes poli­ci­ais, ou que tan­gen­ci­am o gêne­ro: expõem de modo cru e dra­má­ti­co as fra­tu­ras de toda uma soci­e­da­de. É o caso de Chamada a cobrar, de Anna Muylaert. No regis­tro da nar­ra­ti­va fic­ci­o­nal rea­lis­ta, é um fil­me tão ilu­mi­na­dor quan­to O som ao redor, o que não é dizer pou­co.

A dire­to­ra, que remon­tou aqui em for­ma­to de lon­ga-metra­gem o tele­fil­me Para acei­tá-la, con­ti­nue na linha, fei­to para a TV Cultura em 2009, par­te de um fato qua­se banal em nos­sas gran­des cida­des: um fal­so seques­tro, des­ses que bus­cam extor­quir dinhei­ro e cré­di­tos de celu­lar de um paren­te deses­pe­ra­do. A víti­ma, no caso, é uma senho­ra pau­lis­ta­na de clas­se média alta, Clarinha (Beth Dogan), con­ven­ci­da por um ban­di­do anô­ni­mo e ocul­to de que uma das filhas está em poder de seques­tra­do­res.

Não cabe ante­ci­par aqui os pas­sos do cal­vá­rio que será cum­pri­do por Clara, mas ape­nas obser­var que, se em O som ao redor as ten­sões soci­ais e cul­tu­rais se con­cen­tra­vam em pou­cas ruas de um bair­ro de eli­te reci­fen­se, aqui a pro­ta­go­nis­ta é for­ça­da por vias tor­tas a sair do casu­lo de con­for­to e boa cons­ci­ên­cia (é uma mulher civi­li­za­da e cor­tês, pre­o­cu­pa­da com os pobres e o meio ambi­en­te) e se des­lo­car hori­zon­tal e ver­ti­cal­men­te por um país reple­to de maze­las.

"Chamada a cobrar", de Anna Muylaert

O modo como Anna Muylaert con­duz o dra­ma ates­ta seu notá­vel ama­du­re­ci­men­to como rotei­ris­ta e dire­to­ra, reve­lan­do um sen­so pre­ci­so de rit­mo e de atmos­fe­ra, a par da suti­le­za na obser­va­ção de deta­lhes sig­ni­fi­ca­ti­vos dos pon­tos de vis­ta psi­co­ló­gi­co, cul­tu­ral e soci­al.

Do equi­lí­brio ao caos

As pri­mei­ras ima­gens mos­tram pla­ci­da­men­te, em pla­nos fixos e qua­se silen­ci­o­sos, o mun­do da pro­ta­go­nis­ta: o bom gos­to e a ele­gân­cia dis­cre­ta de sua ampla casa, a rela­ção cor­di­al com a domés­ti­ca Dalva (a quem, entre­tan­to, recor­re a todo momen­to para as meno­res neces­si­da­des), o tra­ta­men­to cari­nho­so e zelo­so diri­gi­do às filhas.

Esse equi­lí­brio se rom­pe brus­ca­men­te com o tele­fo­ne­ma do ban­di­do. Os pla­nos pas­sam a ser ins­tá­veis e “sujos”, com a ima­gem sem­pre par­ci­al­men­te obs­truí­da por uma por­ta ou um móvel, uma alter­nân­cia ner­vo­sa de zooms para fren­te e para trás, uma câme­ra de movi­men­tos trô­pe­gos. O dra­ma mate­ri­a­li­za­do em lin­gua­gem.

Gaguejante, à bei­ra de um colap­so, Clarinha sai de car­ro, seguin­do as ordens ame­a­ça­do­ras da voz anô­ni­ma car­re­ga­da de pala­vrões, gíri­as e for­te sota­que cari­o­ca. Nessa saí­da da paz domés­ti­ca para o mun­do, a cida­de se apre­sen­ta mais inós­pi­ta e hos­til do que nun­ca, com suas ave­ni­das e via­du­tos inde­ci­frá­veis, seus oni­pre­sen­tes auto­mó­veis e cami­nhões. As liga­ções caem repe­ti­das vezes, a angús­tia cres­ce a cada men­sa­gem da ope­ra­do­ra de “cha­ma­da a cobrar”. No auge do deses­pe­ro da pro­ta­go­nis­ta, uma saca­da de mon­ta­gem: sob a ten­sa con­ver­sa, ima­gens da vida que segue: uma var­re­do­ra de rua con­ver­san­do com uma tran­seun­te, uma mulher com um car­ri­nho de bebê, um pas­sa­ri­nho cis­can­do na gra­ma. O mun­do é indi­fe­ren­te ao vór­ti­ce indi­vi­du­al.

Se é neces­sá­rio lou­var a extra­or­di­ná­ria atu­a­ção de Beth Dougan, per­fei­ta em todas as nuan­ces, da fra­gi­li­da­de à fúria, cabe notar tam­bém a efi­cá­cia enga­no­sa­men­te natu­ra­lis­ta das falas, que explo­ram com um humor pró­xi­mo do sar­cas­mo o abis­mo soci­al e cul­tu­ral entre os inter­lo­cu­to­res. Tão engra­ça­da quan­to a ten­ta­ti­va desa­jei­ta­da de Clarinha de usar o voca­bu­lá­rio do fal­so seques­tra­dor, na ânsia de mos­trar empa­tia e cri­ar um ter­re­no comum de diá­lo­go.

Pode não pare­cer à pri­mei­ra vis­ta, mas Chamada a cobrar diz mui­to sobre este país con­fla­gra­do e con­fu­so que esta­mos ven­do à nos­sa vol­ta.

Poeta das fra­que­zas huma­nas

Começa hoje no CineSESC, em São Paulo, uma retros­pec­ti­va com­ple­ta da obra de um dos mai­o­res cine­as­tas do sécu­lo pas­sa­do, Billy Wilder. É uma mos­tra de impor­tân­cia só com­pa­rá­vel à que exi­biu pra­ti­ca­men­te tudo de Howard Hawks em Belo Horizonte, há alguns meses. Aqui, a pro­gra­ma­ção com­ple­ta.

Aliás, Wilder foi uma espé­cie de dis­cí­pu­lo extra­vi­a­do de Hawks, para o qual escre­veu rotei­ros memo­rá­veis (Bola de fogo, por exem­plo). Seu outro gran­de mes­tre foi Ernest Lubitsch. O cine­ma de Wilder é um pou­co uma mis­tu­ra dos dois: a obje­ti­vi­da­de nar­ra­ti­va sem “gor­du­ras” do pri­mei­ro, a suti­le­za da obser­va­ção psi­co­ló­gi­ca e moral do segun­do.

Mais do que um fino cul­tor do duplo sen­ti­do, como Lubitsch (para quem tam­bém fez rotei­ros), Wilder foi um obser­va­dor feri­no da natu­re­za huma­na, sobre­tu­do de suas fra­gi­li­da­des. Seja na comé­dia (gêne­ro ao qual deu obras-pri­mas como Quanto mais quen­te, melhor e O peca­do mora ao lado), no poli­ci­al noir (Pacto de san­gue) ou no dra­ma (Crepúsculo dos deu­ses, Farrapo huma­no), seus per­so­na­gens são sem­pre pegos como que no con­tra­pé, traí­dos por dese­jos nem sem­pre líci­tos, pelas fra­que­zas da car­ne e do espí­ri­to.

Com pou­cas exce­ções (como no cáus­ti­co A mon­ta­nha dos sete abu­tres), Wilder não cos­tu­ma jul­gar suas cri­a­tu­ras, mes­mo as que come­tem os atos mais vis. Coloca-se à altu­ra delas, nun­ca aci­ma, com­par­ti­lhan­do sua con­di­ção ao mes­mo tem­po falha e gran­di­o­sa. Parece nos dizer: nin­guém é san­to, a vida é uma dro­ga, mas a gen­te se diver­te. Pois bem, divir­tam-se.

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