Chatô, réu do Brasil

No cinema

20.11.15

Quase vin­te anos depois de fil­ma­do, entra final­men­te em car­taz Chatô, o rei do Brasil, lon­ga-metra­gem de estreia de Guilherme Fontes. Não cabe aqui falar sobre os per­cal­ços e des­ca­mi­nhos da pro­du­ção, mas ape­nas obser­var o resul­ta­do, isto é, o fil­me que ago­ra che­ga às telas, e cote­já-lo um pou­co com o cine­ma que se tem fei­to hoje no Brasil, sobre­tu­do as cine­bi­o­gra­fi­as e pro­du­ções de enfo­que his­tó­ri­co.

Desnecessário dizer que Francisco de Assis Chateaubriand (vivi­do no fil­me por Marco Ricca) foi o gran­de mag­na­ta da impren­sa bra­si­lei­ra entre o final dos anos 1930 e iní­cio dos 60, a pon­to de ser cha­ma­do, por uma ana­lo­gia um tan­to pre­gui­ço­sa, de “cida­dão Kane bra­si­lei­ro”.

Documento e paró­dia

Do pon­to de vis­ta cine­ma­to­grá­fi­co, o para­le­lo com Kane tal­vez seja inte­res­san­te. A obra-pri­ma de Orson Welles pra­ti­ca­men­te come­ça com um fal­so docu­men­tá­rio sobre seu con­tro­ver­ti­do per­so­na­gem. O fil­me de Guilherme Fontes come­ça com uma paró­dia de pro­gra­ma tele­vi­si­vo de audi­tó­rio (o “jul­ga­men­to públi­co” de Chateaubriand), que ser­ve como seu pre­sen­te nar­ra­ti­vo, com a tra­je­tó­ria do pro­ta­go­nis­ta sen­do mos­tra­da frag­men­ta­ri­a­men­te em retros­pec­to. Ou seja: Chatô, des­de o iní­cio, colo­ca-se sob o sig­no satí­ri­co e debo­cha­do da chan­cha­da.

Com essa opção, o dire­tor elu­de habil­men­te as arma­di­lhas da recons­ti­tui­ção his­tó­ri­ca, da “fide­li­da­de bio­grá­fi­ca”, da veros­si­mi­lhan­ça expo­si­ti­va. É, des­de logo, uma lei­tu­ra pes­so­al, livre, joco­sa e em gran­de medi­da arbi­trá­ria da vida do per­so­na­gem, embo­ra se baseie em fatos nar­ra­dos no livro-repor­ta­gem de Fernando Morais. Trafega livre­men­te entre gêne­ros: musi­cal, comé­dia, dra­ma de épo­ca, poli­ci­al noir.

A embo­ca­du­ra ado­ta­da per­mi­te, por exem­plo, que Getúlio Vargas – che­fe polí­ti­co com quem Chatô teve uma rela­ção pró­xi­ma e con­tur­ba­da – seja encar­na­do por Paulo Betti sem nenhu­ma pre­o­cu­pa­ção mimé­ti­ca (ao con­trá­rio de Tony Ramos no lon­ga Getúlio), a não ser pela ado­ção de um cari­ca­tu­ral sota­que gaú­cho.

Pois bem. O que resul­ta des­sa sem-cerimô­nia toda? Uma nar­ra­ti­va diver­ti­da e vivaz, com cores for­tes, carac­te­ri­za­ções sabo­ro­sas (a melhor delas de Andrea Beltrão como soci­a­li­te e aman­te ao mes­mo tem­po de Getúlio e Chatô) e mon­ta­gem vibran­te. Apesar de algu­ma irre­gu­la­ri­da­de, momen­tos frou­xos e um boca­do de dis­per­são, é diver­são garan­ti­da.

Elo per­di­do do humor

Referi aci­ma que se tra­ta de uma chan­cha­da, pelo espí­ri­to debo­cha­do com que enca­ra os fatos, o país e a pró­pria repre­sen­ta­ção cine­ma­to­grá­fi­ca. Mas, sen­do uma chan­cha­da rea­li­za­da lite­ral­men­te em outro sécu­lo, ela nos che­ga hoje com um sabor qua­se nos­tál­gi­co, por ser ante­ri­or à con­ta­mi­na­ção do humor do nos­so cine­ma pelo padrão tele­vi­si­vo glo­bal (o que cha­ma­mos, erro­ne­a­men­te, de “glo­bo­chan­cha­da”). É qua­se um elo per­di­do entre a chan­cha­da pro­pri­a­men­te dita e o que pode­ria ter sido uma comé­dia popu­lar se o cine­ma bra­si­lei­ro não tives­se se eli­ti­za­do e enca­re­ta­do tan­to.

Chegamos à ima­gem de Assis Chateaubriand cons­truí­da pelo fil­me. O Chatô vivi­do por Marco Ricca é um poço de con­tra­di­ções (arcai­co e moder­ni­za­dor, pro­vin­ci­a­no e cos­mo­po­li­ta, bru­tal e sedu­tor, gros­sei­rão e patro­ci­na­dor da arte mais refi­na­da). Mais que isso, ele con­cen­tra tra­ços carac­te­rís­ti­cos de boa par­te do nos­so reni­ten­te patri­ar­ca­do: é machis­ta, ganan­ci­o­so, auto­ri­tá­rio, cli­en­te­lis­ta. Um exem­plo aca­ba­do do “homem cor­di­al”, na acep­ção dada à expres­são por Sergio Buarque de Holanda: aque­le que des­co­nhe­ce a for­ça impes­so­al da lei e se move pela emo­ção, bor­ran­do as fron­tei­ras entre o públi­co e o pri­va­do.

Chatô não é Charles Foster Kane, mas é José Sarney, é Antonio Carlos Magalhães e é Roberto Marinho, sor­ri­den­tes coro­néis de ter­no bem cor­ta­do e lon­gos abra­ços, donos de jor­nais e emis­so­ras de rádio e TV. É, em últi­ma ins­tân­cia, o pró­prio Getúlio Vargas com sua tira­nia que­ren­ço­sa. De cer­to modo, é esse per­sis­ten­te tipo da fau­na soci­al bra­si­lei­ra, o macho oli­gar­ca, que está em jul­ga­men­to em Chatô.

Nessa comé­dia des­ca­be­la­da e antro­po­fá­gi­ca, o que há de mais absur­do, de mais inve­ros­sí­mil, é jus­ta­men­te o que acon­te­ceu de fato, é a “rea­li­da­de”, como o decre­to bai­xa­do por Getúlio Vargas para que Chatô tives­se o direi­to ao “pátrio poder” sobre a filha e a tiras­se de sua segun­da mulher (Leandra Leal no fil­me). No Brasil, o sur­re­a­lis­mo tomou o poder faz tem­po.

, , , ,