Cinco notas sobre a franqueza

Literatura

08.05.13

1. A sin­ce­ri­da­de é um cami­nho de duas vias. Ser ver­da­dei­ro com o outro impli­ca em ser ver­da­dei­ro con­si­go mes­mo: é tan­to meio quan­to fim, e o pro­pó­si­to é a trans­pa­rên­cia na comu­ni­ca­ção. Já a auten­ti­ci­da­de pres­su­põe que ser ver­da­dei­ro con­si­go mes­mo pres­cin­de do outro, que ser­ve como pla­teia de um espe­tá­cu­lo par­ti­cu­lar. O eu autên­ti­co, sobe­ra­no e que se dese­ja (e se enxer­ga) úni­co, não admi­te a pos­si­bi­li­da­de de ser conhe­ci­do genui­na­men­te fora de seus pró­pri­os limi­tes, e assim ganha um sta­tus abso­lu­to. É um fim em si mes­mo. Todo valor exter­no se tor­na rela­ti­vo, e cada tijo­lo empi­lha­do na cons­tru­ção e expres­são (ou, pode­ria ser dito, na per­for­man­ce) de um eu autên­ti­co aca­ba erguen­do um muro que con­fir­ma esse iso­la­men­to. A auto­ex­pres­são assu­me o lugar da inter­sub­je­ti­vi­da­de: o outro como olho — como alheio — ao invés de seme­lhan­te. Como resul­ta­do, dis­tan­ci­a­men­to e nar­ci­sis­mo. Apatia subs­ti­tuin­do empa­tia. O dis­cur­so do sécu­lo pas­sa­do foi a auten­ti­ci­da­de. E ago­ra?

2. Em Remainder (2005), exce­len­te roman­ce de estreia do inglês Tom McCarthy, ain­da sem tra­du­ção no Brasil, a sub­mer­são da ânsia por auten­ti­ci­da­de no solip­sis­mo e seu sub­se­quen­te esva­zi­a­men­to são tra­ta­dos de manei­ra dire­ta. Nele, um homem sofre um aci­den­te nun­ca des­cri­to em mai­o­res deta­lhes além de “umas coi­sas que caí­ram do céu”, rece­be uma inde­ni­za­ção mili­o­ná­ria e após um cur­to perío­do de inde­ci­são pas­sa a usar o dinhei­ro para recri­ar nos míni­mos deta­lhes locais, cenas e momen­tos que viveu (ou ima­gi­na que tal­vez tenha vivi­do) no pas­sa­do. Quanto mais bem-suce­di­das as recri­a­ções, e mais autên­ti­cos pare­cem ao homem os ges­tos ensai­a­dos e repe­ti­dos à exaus­tão, menos satis­fa­ção ele deri­va do pro­ces­so. Isso ins­pi­ra recri­a­ções cada vez mais radi­cais e vio­len­tas: a pri­são do umbi­go (da “auten­ti­ci­da­de”) como gêne­se da apa­tia. McCarthy é “secre­tá­rio-geral” da International Necronautical Society (INS, Sociedade Necronáutica Internacional), que em seu Joint sta­te­ment on inauthen­ti­city decla­rou que “todos os cul­tos da auten­ti­ci­da­de, cele­bran­do-a sob qual­quer pre­tex­to, seja trans­cen­dên­cia, uni­da­de ou tota­li­da­de, para fins esté­ti­cos, reli­gi­o­sos ou polí­ti­cos, devem ser aban­do­na­dos”. Para a INS não há mais indi­ví­du­os, mas “diví­du­os”: sujei­tos esti­lha­ça­dos, em rede, títe­res da con­tin­gên­cia.

3. Estamos em 2013 e o autên­ti­co não mais se sus­ten­ta, mas­sa­cra­do pelo dis­cur­so irô­ni­co, por remi­xes e mashups, víti­ma da pró­pria invi­a­bi­li­da­de auto­des­tru­ti­va, trans­for­ma­do em métri­ca de valor de mer­ca­do. Há um movi­men­to de retor­no à sin­ce­ri­da­de que se mani­fes­ta sob vári­os rótu­los (New Sincerity, meta­mo­der­nis­mo, pós-iro­nia e por aí vai) ou abre mão deles, e do qual um dos pio­nei­ros foi o nor­te-ame­ri­ca­no David Foster Wallace, mor­to em 2008. Que a bus­ca da sin­ce­ri­da­de e da cone­xão emo­ci­o­nal genuí­na, e o repú­dio à iro­nia como dis­cur­so domi­nan­te, sina­li­za­da no já clás­si­co ensaio E Unibus Pluram, eram a inten­ção (con­cei­to pou­co autên­ti­co, bas­tan­te sin­ce­ro) temá­ti­ca por trás de sua obra já se tor­nou con­sen­so entre lei­to­res e crí­ti­ca. De iní­cio influ­en­ci­a­do pelos pós-moder­nis­tas e ain­da sob o encan­to do autên­ti­co (que no fic­ci­o­nis­ta cos­tu­ma se mani­fes­tar como “Olhem para mim! Olhem como eu con­si­go fazer esse mon­te de coi­sas! Olhem como sou úni­co!”), logo tro­cou de rumo e pas­sou a ten­tar usar as armas do “ini­mi­go” con­tra ele mes­mo. E não se pode dizer que fra­cas­sou: bas­ta con­fe­rir a efi­cá­cia de Infinite jest (em tra­du­ção para o por­tu­guês do Brasil, por Caetano W. Galindo) em uti­li­zar piru­e­tas for­mais típi­cas do pós-moder­nis­mo para fazer o lei­tor pres­tar mais aten­ção ao tex­to, rea­li­zar uma lei­tu­ra pró­xi­ma, con­cen­tra­da, e no pro­ces­so inter­na­li­zar de fato con­cei­tos à pri­mei­ra vis­ta qua­se banais, de tão repe­ti­dos e diluí­dos pela cul­tu­ra de mas­sa para fins escu­sos (isto é: não esta­mos sozi­nhos; ser sin­ce­ro faz bem a todos; tire o foco de si mes­mo; pre­ci­sa­mos uns dos outros; auto­cons­ci­ên­cia sufo­ca; entre­te­ni­men­to em dema­sia pode matar; exis­tir pode ser um pro­ble­ma; e por aí vai). Também usou como nin­guém arti­fí­ci­os lite­rá­ri­os, como estranhamento/desfamiliarização, em seus tex­tos não fic­ci­o­nais, cri­an­do em nome da empa­tia com o lei­tor um nar­ra­dor que é mais DFW que o pró­prio DFW: toma­do por uma curi­o­si­da­de infan­til, obce­ca­do por deta­lhes, ao mes­mo tem­po pre­so den­tro da pró­pria cabe­ça e inte­res­sa­do vis­ce­ral­men­te no que acon­te­ce den­tro da cabe­ça dos outros, ques­ti­o­nan­do se exis­tem de fato limi­tes entre uma cabe­ça e outra, pre­o­cu­pa­do com ques­tões morais. Em seus últi­mos anos tal­vez ele tenha se colo­ca­do num beco sem saí­da, radi­ca­li­zan­do a bus­ca pela sin­ce­ri­da­de na pró­pria lin­gua­gem, cada vez mais des­pi­da de arti­fí­ci­os, mais des­bas­ta­da para alcan­çar uma trans­pa­rên­cia tal­vez impos­sí­vel. Há sinais des­sa pre­o­cu­pa­ção em alguns con­tos de Oblivion (ain­da sem tra­du­ção no Brasil), como Encarnações de cri­an­ças quei­ma­das, e do roman­ce incon­clu­so The Pale King (a ser tra­du­zi­do por Caetano W. Galindo), mas aci­ma de tudo no famo­so dis­cur­so aos for­man­dos do Kenyon College, Isto é água. (Aqui em ver­são incom­ple­ta; a ver­são inte­gral foi incluí­da na anto­lo­gia Ficando lon­ge do fato de já estar meio que lon­ge de tudo, publi­ca­do em 2012 pela Companhia das Letras em tra­du­ção minha e de Daniel Galera). Mas have­ria como escre­ver fic­ção sem lan­çar mão de ambi­gui­da­de, usan­do uma lin­gua­gem qua­se que pura­men­te deno­ta­ti­va? Como isso se dife­ren­ci­a­ria de um sim­ples rela­to? Quais os limi­tes da fic­ção, da lin­gua­gem, da comu­ni­ca­ção huma­na? David Foster Wallace não está mais aqui para nos res­pon­der.

4. Talvez a solu­ção pos­sí­vel este­ja mes­mo na pri­mei­ra solu­ção de DFW, que ecoa a dinâ­mi­ca osci­lan­te do meta­mo­der­nis­mo de Vermeulen e van den Akker: escre­ver (e viver) fran­ca­men­te, sem temer a vul­ne­ra­bi­li­da­de, aban­do­nan­do o dis­tan­ci­a­men­to cíni­co e usan­do todo o arse­nal colo­ca­do à dis­po­si­ção dos escri­to­res pelos pós-moder­nis­tas e pela pró­pria cul­tu­ra de mas­sa con­tem­po­râ­nea. Buscando o equi­lí­brio entre infi­ni­tos polos ten­do como nor­te a hones­ti­da­de, a ter­nu­ra e a comu­nhão entre sub­je­ti­vi­da­des. Ou, como bem colo­cou Luke Turner no mani­fes­to meta­mo­der­nis­ta, pra­ti­can­do “um roman­tis­mo prag­má­ti­co livre de ânco­ras ide­o­ló­gi­cas”, bus­can­do a mora­li­da­de sem afun­dar no mora­lis­mo. Sem medo de soar óbvio ou tolo. Ou con­fu­so.

5. Não tenho res­pos­tas, e me sin­to estra­nho por ter de falar isso, e por ter pen­sa­do que falar isso seria neces­sá­rio, e por me sen­tir estra­nho por ter pen­sa­do em falar que me é estra­nho ter de falar isso, mas mes­mo assim falei (estou aqui falan­do, e falan­do que estra­nhei) e esse fato e as moti­va­ções por trás dele, que me inte­res­sam mas não con­si­go pre­ci­sar, tam­bém me cau­sa­ram algu­ma estra­nhe­za. E assim por dian­te. Em algum pon­to des­sa recur­si­vi­da­de ver­ti­gi­no­sa (e sim, qua­se para­noi­de) deve haver algu­ma pis­ta sobre isso tudo.

Tom McCarthy e David Foster Wallace

, , , , , , ,