Cine drive-in, onde trafega o imaginário

No cinema

21.08.15

Um cine­ma dri­ve-in é o lugar onde se encon­tram dois pro­dí­gi­os tec­no­ló­gi­cos pode­ro­sos, duas pai­xões cole­ti­vas, dois sig­nos cen­trais do ima­gi­ná­rio do sécu­lo XX: o cine­ma e o auto­mó­vel. Fica em Brasília aque­le que, segun­do cons­ta, é últi­mo local des­se tipo ain­da em ati­vi­da­de na América Latina. Ciente da pre­ci­o­si­da­de des­se fato, o cine­as­ta bra­si­li­en­se Iberê Carvalho resol­veu fazer do local o tema e o cená­rio de seu pri­mei­ro lon­ga-metra­gem, inti­tu­la­do jus­ta­men­te O últi­mo cine dri­ve-in.

Um fil­me com esse pon­to de par­ti­da pode­ria des­cam­bar para o mero réqui­em nos­tál­gi­co ou para uma afe­ta­da col­cha de refe­rên­ci­as cine­ma­to­grá­fi­cas “esper­tas”. Iberê Carvalho evi­ta esses dois extre­mos ao entre­la­çar a his­tó­ria do ago­ni­zan­te dri­ve-in ao melo­dra­ma cômi­co (ou comé­dia dra­má­ti­ca) da famí­lia desa­gre­ga­da de seu pro­pri­e­tá­rio, Almeida (Othon Bastos).

O fil­me come­ça quan­do o úni­co filho de Almeida, o ope­rá­rio Marlombrando (Breno Nina), che­ga de Anápolis para visi­tar a mãe doen­te (Rita Assemany), inter­na­da num hos­pi­tal bra­si­li­en­se. Ao se ins­ta­lar na casa do pai, que fica no pró­prio espa­ço do cine­ma, Marlombrando des­co­bre que seu quar­to ago­ra é ocu­pa­do por uma moça grá­vi­da, Paulinha (Fernanda Rocha), que tra­ba­lha ali como pro­je­ci­o­nis­ta, cozi­nhei­ra e gar­ço­ne­te.

Relações ambí­guas

Em tor­no do espi­nho­so vín­cu­lo pai-filho se esta­be­le­ce então uma rede de rela­ções deli­ca­das e ambí­guas, em que os papéis vão se defi­nin­do e modi­fi­can­do aos pou­cos. Seria Paulinha aman­te de Almeida? Ou uma espé­cie de segun­da filha? Por que os pais de Marlombrando se sepa­ra­ram? Qual a atu­al rela­ção entre eles? Graças às suti­le­zas do rotei­ro e ao esplên­di­do desem­pe­nho dos ato­res, pre­ser­vam-se até o fim cer­tas dubi­e­da­des e zonas de som­bra. (Não é pre­ci­so dizer que Othon Bastos car­re­ga em si, no cor­po e na voz, boa par­te do cine­ma bra­si­lei­ro das últi­mas cin­co déca­das.)

Como pano de fun­do do dra­ma fami­li­ar, a situ­a­ção pre­cá­ria do cine­ma, as rela­ções de Almeida com um bem-suce­di­do dono de um moder­no mul­ti­plex e com um secre­tá­rio de gover­no supos­ta­men­te com­pro­me­ti­do com a pre­ser­va­ção de espa­ços cul­tu­rais. Todo um con­tex­to soci­al, cul­tu­ral, polí­ti­co e tec­no­ló­gi­co se esbo­ça em cenas bre­ves e efi­ca­zes.

As pos­si­bi­li­da­des poé­ti­cas e dra­má­ti­cas do espa­ço – sobre­tu­do da ampla área aber­ta do dri­ve-in, entre o urba­no e o rural, sob o belo e melan­có­li­co céu do Planalto Central – são explo­ra­das de manei­ra ao mes­mo tem­po gene­ro­sa e come­di­da.

Leveza e trans­pa­rên­cia

O últi­mo cine dri­ve-in tem uma nar­ra­ti­va clás­si­ca e uma apa­ren­te des­pre­ten­são esté­ti­ca que o tor­nam leve e, por assim dizer, “trans­pa­ren­te”, ime­di­a­ta­men­te aces­sí­vel a qual­quer públi­co. Mistura habil­men­te pro­ce­di­men­tos e con­ven­ções de gêne­ros dis­tin­tos: melo­dra­ma, comé­dia, sus­pen­se. Pontua tudo isso com refe­rên­ci­as dis­cre­tas (medi­an­te cenas pro­je­ta­das, car­ta­zes, diá­lo­gos) a fil­mes que tenham algu­ma rela­ção com a his­tó­ria con­ta­da: o filho em bus­ca do pai em Central do Brasil, o tiro­teio num dri­ve-in em Na mira da mor­te, de Peter Bogdanovich, car­ta­zes de O pode­ro­so che­fão (o filho não se cha­ma Marlombrando por aca­so) e Cinema Paradiso.

O cote­jo ine­vi­tá­vel com o fil­me de Giuseppe Tornatore – que tam­bém tra­ta da ago­nia do cine­ma como diver­são popu­lar – não enfra­que­ce O últi­mo cine dri­ve-in. Muito pelo con­trá­rio. Mostra que seu dire­tor evi­tou a mani­pu­la­ção sen­ti­men­tal de Cinema Paradiso, modu­lan­do suas cenas mais dra­má­ti­cas com o sus­pen­se e o humor.

Se no fil­me de Tornatore o clí­max é cons­ti­tuí­do pela car­ga emo­ti­va apor­ta­da por obras alhei­as (a cola­gem das mais diver­sas cenas de bei­jos), aqui o momen­to cru­ci­al é a exi­bi­ção de um fil­me pre­ci­o­so para deter­mi­na­do per­so­na­gem, mas que nos é omi­ti­do. Só o que vemos é a luz sain­do do pro­je­tor e inun­dan­do a tela com um bran­co ofus­can­te. Cada um que pro­je­te o fil­me da sua vida. 

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