Cinema de cabelo duro

No cinema

17.04.14

Não é todo dia que che­ga ao Brasil um fil­me da Venezuela. Menos ain­da um fil­me extra­or­di­ná­rio como Pelo malo, pre­mi­a­do numa por­ção de fes­ti­vais mun­do afo­ra, mui­to bem rece­bi­do na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo do ano pas­sa­do, e que entra em car­taz nos pró­xi­mos dias.

Tudo gira em tor­no de um impas­se apa­ren­te­men­te banal: con­tra a von­ta­de da mãe, um meni­no de 9 anos, mula­to, quer ali­sar o cabe­lo para pare­cer um can­tor popu­lar. A faís­ca pro­du­zi­da por esse atri­to domés­ti­co bas­ta para a dire­to­ra e rotei­ris­ta Mariana Rondón ilu­mi­nar toda uma soci­e­da­de, uma épo­ca, um país.

Além de que­rer ali­sar seu “cabe­lo ruim”, o peque­no Junior (Samuel Lange Zambrano) gos­ta de can­tar e dan­çar. Sua mãe (Samantha Castillo), jovem viú­va que ten­ta recu­pe­rar o empre­go de vigi­lan­te par­ti­cu­lar, vê em tudo indí­ci­os de que o filho é — ou está pres­tes a virar — um mari­cón. Entre as ati­tu­des que ela toma na espe­ran­ça de “tor­ná-lo um macho” está a de fazer sexo com o aman­te dian­te dos olhos do meni­no.

O pro­dí­gio mais notá­vel do fil­me é man­ter em seu cen­tro a ten­são da tro­ca de olha­res — per­ple­xos, hos­tis — entre mãe e filho, ao mes­mo tem­po em que expõe um amplo e vívi­do pai­nel his­tó­ri­co, soci­al e cul­tu­ral. Fundo e figu­ra rece­bem a mes­ma aten­ção da câme­ra, sem que um des­fo­que ou obs­cu­re­ça o outro.

Caracas é aqui

A Caracas que pul­sa na tela, com seu trân­si­to caó­ti­co, seus ôni­bus lota­dos, seus ambu­lan­tes, suas pare­des des­cas­ca­das e picha­das, seu lixo nas ruas, asse­me­lha-se a qual­quer metró­po­le bra­si­lei­ra. Aqui e ali, entre­tan­to, sobre­tu­do nas bre­ves inser­ções de pro­gra­mas de TV e rádio, apa­re­cem sinais inequí­vo­cos de tem­po e lugar: o mes­si­a­nis­mo popu­lar em tor­no de Hugo Chávez (então ago­ni­zan­te), a obses­são vene­zu­e­la­na com os con­cur­sos de miss.

Parece que Pelo malo foi acu­sa­do em seu país de ser “anti­cha­vis­ta”, o que mos­tra que a estu­pi­dez não tem fron­tei­ras. O alcan­ce de sua crí­ti­ca vai mui­to além de um gover­no e um regi­me espe­cí­fi­cos, atin­gin­do uma con­fi­gu­ra­ção his­tó­ri­co-cul­tu­ral comum a todo o con­ti­nen­te, com seus pre­con­cei­tos, este­reó­ti­pos e hie­rar­qui­as de gêne­ro, etnia e clas­se soci­al.

Miss ou sol­da­do

Uma das pas­sa­gens mais elo­quen­tes, nes­se sen­ti­do, é aque­la em que Junior vai com uma ami­gui­nha (Maria Emilia Sulbarán) ao fotó­gra­fo para faze­rem a 3x4 da car­tei­ri­nha de esco­la. O fotó­gra­fo diz que, por uns bolí­va­res a mais, ela pode ser foto­gra­fa­da com uma coroa de miss e ele com uma boi­na do exér­ci­to. Não há outras opções.

Assim como equi­li­bra suti­le­za e con­tun­dên­cia na expo­si­ção de seus temas, a dire­to­ra con­se­gue a pro­e­za de não dei­xar que a gra­vi­da­de do dra­ma sufo­que a leve­za e o humor com que a nar­ra­ti­va é con­du­zi­da. A ima­gi­na­ção con­fu­sa e o espí­ri­to lúdi­co de Junior — em espe­ci­al suas ten­ta­ti­vas desas­tra­das de ali­sar o indo­má­vel pelo malo — pro­du­zem momen­tos cômi­cos memo­rá­veis, assim como suas con­ver­sas dis­pa­ra­ta­das com a ami­gui­nha.

Numa cena mar­can­te, as duas cri­an­ças estão no cor­re­dor exter­no de seu pré­dio e se diver­tem obser­van­do os mora­do­res do edi­fí­cio em fren­te, um daque­les mons­tru­o­sos par­di­ei­ros com cen­te­nas de peque­nos apar­ta­men­tos. Ali eles veem, e vemos jun­to com eles, que entre as mis­ses e os sol­da­dos, há uma gama ver­ti­gi­no­sa­men­te vari­a­da de exis­tên­ci­as huma­nas. O cli­ma ao mes­mo tem­po tris­te e diver­ti­do des­sa cena, espé­cie de ver­são ter­cei­ro-mun­dis­ta de Janela indis­cre­ta, impreg­na todo o belo fil­me de Mariana Rondón.

Assista ao trai­ler:

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