O cineasta Terrence Malick

O cineasta Terrence Malick

Cinema líquido

No cinema

21.07.17

De can­ção em can­ção, o novo fil­me de Terrence Malick, é um obje­to – melhor seria dizer: um orga­nis­mo – difí­cil de apre­en­der, pois tudo nele é flui­do: a his­tó­ria, os per­so­na­gens, o modo de fil­má-los.

São frag­men­tos, reta­lhos, sem ordem cro­no­ló­gi­ca ou pro­gres­são dra­má­ti­ca apa­ren­te, das vidas de qua­tro per­so­na­gens cen­trais: um pro­du­tor musi­cal rico e pode­ro­so (Michael Fassbender), sua jovem assis­ten­te e namo­ra­da (Rooney Mara), um músi­co em iní­cio de car­rei­ra (Ryan Gosling) e uma gar­ço­ne­te (Natalie Portman). Todos belos, jovens e inqui­e­tos, cir­cu­lan­do por ambi­en­tes moder­nos e sun­tu­o­sos, hotéis de luxo, bas­ti­do­res de shows de rock, em cida­des ricas do Texas, com oca­si­o­nais incur­sões em colo­ri­dos pue­blos mexi­ca­nos.

Consta que as fil­ma­gens foram fei­tas de modo inter­mi­ten­te ao lon­go de dois anos, duran­te a rea­li­za­ção de outro lon­ga-metra­gem do dire­tor, Cavaleiro de copas (2015). Consta tam­bém que o fil­me não seguiu um rotei­ro e que sua pri­mei­ra ver­são edi­ta­da tinha nove horas. No pro­ces­so de depu­ra­ção que resul­tou nas atu­ais pou­co mais de duas horas, Malick pare­ce ter-se pre­o­cu­pa­do mais com a cri­a­ção de um flu­xo do que de um enre­do ou de uma con­ca­te­na­ção lógi­ca. É, como em outras obras do dire­tor, um cine­ma mais sen­so­ri­al do que pro­pri­a­men­te nar­ra­ti­vo ou “inte­lec­tu­al”.

Daí que todas as cenas – fil­ma­das com uma câme­ra qua­se sem­pre em movi­men­to – pare­çam come­çar já em anda­men­to e ser inter­rom­pi­das antes de ter um des­fe­cho. O uso fre­quen­te de len­tes gran­de-angu­la­res acen­tua a flui­dez, cur­van­do o mun­do, ama­ci­an­do suas qui­nas e ares­tas (ain­da que os cená­ri­os sejam fre­quen­te­men­te reti­lí­ne­os, con­di­zen­tes com a arqui­te­tu­ra moder­na e cle­an de seus ambi­en­tes de vidro, con­cre­to e aço).

Numa esfe­ra soci­al de abun­dân­cia (casas naba­bes­cas, iates, jati­nhos par­ti­cu­la­res, jar­dins babilô­ni­cos), os per­so­na­gens se deba­tem com angús­ti­as e carên­ci­as impal­pá­veis, que o hedo­nis­mo e o sexo não con­se­guem apla­car por com­ple­to. Mesmo o mais pode­ro­so e mani­pu­la­dor dos per­so­na­gens, o pro­du­tor vivi­do por Fassbender, gira em fal­so, movi­do por uma ener­gia inte­ri­or que não se apla­ca total­men­te com a dan­ça, o sexo pro­mís­cuo, as lutas e jogos cor­po­rais.

Âncoras de rea­li­da­de

Alguns dados pon­tu­ais sobre o tra­ba­lho, as rela­ções com fami­li­a­res, os pro­je­tos ime­di­a­tos, são peque­nas ânco­ras de rea­li­da­de que não che­gam a fixar mui­to bem a tra­je­tó­ria dos per­so­na­gens, que pare­cem seguir flu­tu­an­do à deri­va, “de can­ção em can­ção”. Do mes­mo modo, a apa­ri­ção de roquei­ros das anti­gas (Iggy Pop, Patti Smith, Johnny Rotten), no papel deles mes­mos, e de alguns ato­res vete­ra­nos (Holly Hunter, Val Kilmer) em papéis secun­dá­ri­os tem o dom de tra­zer momen­ta­ne­a­men­te o espec­ta­dor para um cer­to chão de rea­li­da­de.

No mais, é aque­la flui­dez dos fil­mes de Malick, que pare­ce ten­tar inse­rir cada ser e obje­to no movi­men­to con­tí­nuo do cos­mo, seja num fil­me de guer­ra, num dra­ma fami­li­ar ou numa his­tó­ria de amor. É uma voca­ção mais meta­fí­si­ca do que his­tó­ri­ca, soci­al ou psi­co­ló­gi­ca.

Essa abor­da­gem auto­ral pode ter efei­tos con­tras­tan­tes no espec­ta­dor. Há os que se dei­xam con­du­zir pelo anda­men­to líqui­do das ima­gens, por sua musi­ca­li­da­de intrín­se­ca (exa­cer­ba­da no caso des­te fil­me fei­to de can­ções) e há os que sim­ples­men­te se dis­per­sam e se desin­te­res­sam ao não encon­trar onde se agar­rar para man­ter o pru­mo e encon­trar um sen­ti­do. Não é por outro moti­vo que Malick divi­de opi­niões, e até pai­xões. Não é neces­sá­rio tomar par­ti­do, mas ten­tar sus­pen­der por um par de horas as expec­ta­ti­vas e embar­car nes­sa via­gem pode ser uma expe­ri­ên­cia enri­que­ce­do­ra.

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