O diretor Hugo Gélin

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O diretor Hugo Gélin

Cinema sem arestas

No cinema

30.06.17

Talvez não seja casu­al que, a cer­ta altu­ra de Uma famí­lia de dois, de Hugo Gélin, se faça refe­rên­cia a Eddie Murphy. Omar Sy está hoje para o cine­ma comer­ci­al fran­cês como o come­di­an­te nor­te-ame­ri­ca­no esta­va para Hollywood nos anos 1980: é o astro negro ofi­ci­al, esca­la­do para dar aos fil­mes um ver­niz de sim­pa­tia e cor­re­ção polí­ti­ca e, no fim das con­tas, aju­dar a mas­ca­rar ou edul­co­rar ten­sões raci­ais mais incô­mo­das e ver­da­dei­ras.

 

 

Amortecimento de atri­tos

Aliás, assim como ocor­ria em Intocáveis (comé­dia dra­má­ti­ca que lan­çou o ator ao estre­la­to), tudo aqui con­flui para a aco­mo­da­ção, para o amor­te­ci­men­to dos atri­tos em todos os cam­pos: das rela­ções inter-raci­ais, da imi­gra­ção, do tra­ba­lho, das desa­ven­ças amo­ro­sas e, sobre­tu­do, da pater­ni­da­de. É o tipo do fil­me do qual o espec­ta­dor menos exi­gen­te sai “com os olhos úmi­dos e um sor­ri­so no ros­to”. Um cine­ma que apre­sen­ta os pro­ble­mas para resol­vê-los em segui­da, de modo pra­ze­ro­so e indo­lor para o espec­ta­dor.

Desta vez, Sy, no come­ço da his­tó­ria, é Samuel, um bon vivant que tra­ba­lha como pilo­to de um iate de alu­guel num bal­neá­rio fran­cês e tran­sa com todas as mulhe­res – turis­tas e locais – ao alcan­ce de seu sor­ri­so irre­sis­tí­vel. Um dia, uma des­sas aman­tes pas­sa­gei­ras, a ingle­sa Kristin (Clémence Poésy), apa­re­ce com uma cri­an­ça de colo e diz a fra­se clás­si­ca: “Toma que a filha é tua”. A par­tir daí a vida do rapaz sofre uma revo­lu­ção: ele vai para Londres, empre­ga-se como dublê de cine­ma, cria a filha sozi­nho (na ver­da­de, com a aju­da de um ami­go gay, que pare­ce estar ali para pre­en­cher outra “cota”) etc. etc.

Não é o caso de reve­lar aqui as revi­ra­vol­tas do entre­cho. Basta dizer que elas entre­la­çam cal­cu­la­da­men­te todos os ele­men­tos neces­sá­ri­os para satis­fa­zer o cha­ma­do “gos­to médio”: dis­pu­ta mani­queís­ta pela guar­da da filha (à manei­ra de Kramer vs Kramer em ver­são mais leve), doen­ça ter­mi­nal man­ti­da em segre­do, dra­ma de tri­bu­nal, rei­te­ra­das cenas de ale­gria em par­ques de diver­são, flashes de bas­ti­do­res (ide­a­li­za­dos) do mun­do do cine­ma, men­sa­gens de espe­ran­ça e bons sen­ti­men­tos.

Não é por aca­so que o fil­me, rema­ke do mexi­ca­no Não acei­ta­mos devo­lu­ções (Eugenio Derbez, 2013), é um suces­so estron­do­so de públi­co na França (3,5 milhões de espec­ta­do­res) e no exte­ri­or. Mistura habil­men­te os ape­los da lin­gua­gem publi­ci­tá­ria (nar­ra­ti­va “ágil”, sem tem­pos mor­tos, ilu­mi­na­ção uni­for­me, ceno­gra­fia cle­an, cená­ri­os de car­tão pos­tal) e os da auto­a­ju­da (“o impor­tan­te é ser feliz”, “viva inten­sa­men­te cada segun­do” etc.).

Diversão inó­cua

Sinto que o tom dos pará­gra­fos aci­ma ficou um tan­to aze­do, tal­vez para com­pen­sar a doçu­ra do fil­me. Trata-se de um entre­te­ni­men­to legí­ti­mo como outro qual­quer, que pro­por­ci­o­na um par de horas agra­dá­veis, des­de que não se espe­re mais do que ele se pro­põe a dar. É inó­cuo, em todos os sen­ti­dos da pala­vra, inclu­si­ve no posi­ti­vo, de não cau­sar danos. E há méri­tos ine­gá­veis. Omar Sy tem o que se cos­tu­ma cha­mar de “star qua­lity”, pre­en­chen­do toda a tela com sua figu­ra lumi­no­sa, e a peque­na Gloria (Gloria Colston) é encan­ta­do­ra. E alguns momen­tos são de fato diver­ti­dos, em espe­ci­al o diá­lo­go entre Samuel e o namo­ra­do nor­te-ame­ri­ca­no de Kristin, Lowell (Ashley Walters), com goza­ções mútu­as dos dois idi­o­mas e cul­tu­ras.

Na pro­fu­são de ele­men­tos cômi­co-dra­má­ti­cos que Uma famí­lia de dois joga na tela para pren­der o espec­ta­dor, aca­ba fican­do suba­pro­vei­ta­da tal­vez sua ideia mais fecun­da, a da rea­li­da­de ima­gi­ná­ria cri­a­da por Samuel para escon­der da filha a ver­da­de sobre sua mãe. Explorar a pal­pa­bi­li­da­de des­se mun­do para­le­lo, à manei­ra do memo­rá­vel con­to de Cortázar “A saú­de dos doen­tes”, pode­ria ser inte­res­san­te. Mas seria outro fil­me e não esse, do qual o públi­co pare­ce gos­tar tan­to. Enfim, que impor­ta que o crí­ti­co res­mun­gue?  Como dis­se o outro, “a pla­teia aplau­de e ain­da pede bis; a pla­teia só dese­ja ser feliz”.

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