Eu sem­pre quis escre­ver sobre auto­con­tro­le. O roman­ce no qual tra­ba­lho atu­al­men­te, cujo títu­lo pro­vi­só­rio é Cloro, explo­ra essa ques­tão. O nar­ra­dor, Georges, é um homos­se­xu­al enrus­ti­do casa­do com uma mulher, e pas­sou a vida toda se con­tro­lan­do. Ele mor­reu no dia ante­ri­or, mas man­te­ve a cons­ci­ên­cia e se encon­tra numa espé­cie de lim­bo, deci­din­do quais his­tó­ri­as con­ta­ria sobre si na even­tu­a­li­da­de de um juí­zo final. 

 

A identificação do corpo

Muitos acham que fui um cana­lha. Talvez você, mes­mo depois de ouvir meus argu­men­tos, con­cor­de com eles. Sei que come­ti erros e fui fra­co às vezes, mas a ver­da­de é que as con­tin­gên­ci­as, em geral, não me aju­da­ram.

A menos que os hin­duís­tas este­jam cer­tos, e meu espí­ri­to reen­car­ne como huma­no ou ani­mal, a coi­sa aca­bou para mim. Morri ontem de manhã, de for­ma ines­pe­ra­da.

Nada me foi reve­la­do ain­da. Devo estar no lim­bo, numa espé­cie de ine­xis­tên­cia eter­na. Isso é o mais pro­vá­vel. Retive minha cons­ci­ên­cia, mas não sei exa­ta­men­te o que acon­te­ce ou acon­te­ce­rá comi­go. Tudo pare­ce para­do, e ago­ra o úni­co movi­men­to que sin­to é o dos meus pró­pri­os pen­sa­men­tos.

Dizem que a pri­mei­ra impres­são é a que fica, mas isso não me pare­ce cor­re­to. Para quem te vê mor­rer, o últi­mo momen­to é o que vale. É como você se des­pe­de do mun­do. É como você segui­rá na memó­ria de quem fica. Não have­rá mais modu­la­ção pos­sí­vel.

Imagine que você tenha esco­lhi­do pas­sar a vida ves­tin­do ter­no azul-mari­nho, por­que é o que mais com­bi­na com você. Um dia, porém, você expe­ri­men­ta uma rou­pa nova que lhe dão de pre­sen­te. Não era ter­no, nem azul-mari­nho. Era um tra­je mais infor­mal, mais cla­ro, para ves­tir ao ar livre, na luz do sol.

E você sai ves­ti­do com aque­la rou­pa nova, sem enten­der ain­da se gos­ta do efei­to dela em você ou não. E aí, pá: você mor­re ines­pe­ra­da­men­te, ves­ti­do de algo que não era você. Você aca­ba a vida fan­ta­si­a­do, e pode ser até que tenham difi­cul­da­des para reco­nhe­cer o seu cadá­ver.

Só me dou con­ta dis­so ago­ra.

Há pes­so­as que pas­sam a vida fugin­do de uma coi­sa, e essa coi­sa aca­ba se tor­nan­do o moti­vo de seu fim. Foi o que acon­te­ceu comi­go, e, antes que minha memó­ria se apa­gue, pre­ci­so enten­der como gas­tei minha vida.

Quero dis­tan­ci­ar-me de mim mes­mo e ana­li­sar-me como se eu fos­se outro, como nun­ca fiz. É pre­ci­so conhe­cer-me se qui­ser defen­der-me em um pos­sí­vel juí­zo final.

Os 52 anos de minha vida pas­sa­ram voan­do. Acho que todo mun­do tem essa impres­são quan­do pen­sa no que ficou para trás. Agora, mor­to, isso me pare­ce cla­ro, mas tem cer­tas qua­li­da­des de sonho.

Devo estar pró­xi­mo de tomar conhe­ci­men­to do sen­ti­do da vida, de des­co­brir se Deus exis­te, de saber se vou para o céu ou para o infer­no, se vou reen­car­nar ou não, se tudo aca­ba aqui, para sem­pre, e não enten­do por que estou tão cal­mo.

Katherine Clifton sofreu um aci­den­te de avião com o mari­do no inte­ri­or do Egito. O mari­do mor­reu na hora. Ela sofreu feri­men­tos gra­ves, mas sobre­vi­veu. Foi socor­ri­da por seu aman­te, László Almásy.

O local do aci­den­te era remo­to, e ele a abri­gou em uma caver­na no deser­to e saiu em bus­ca de aju­da médi­ca. No povo­a­do mais pró­xi­mo, ten­tou expli­car a situ­a­ção mas não con­se­guiu. Desesperou-se, per­deu o con­tro­le, desa­ca­tou auto­ri­da­des e aca­bou na pri­são.

Katherine mor­reu na caver­na, enquan­to espe­ra­va pela vol­ta de László. As últi­mas pala­vras que escre­veu no cader­no de notas encon­tra­do jun­to a seu cor­po tra­du­zi­am a cons­ta­ta­ção difí­cil de que ela mor­re­ria sozi­nha: “We die, we die, we die”, foi o que ela escre­veu. “Nós mor­re­mos”, três vezes, como se ela, de cara com a mor­te, deves­se repe­tir seu nome a fim de con­fe­rir sua iden­ti­da­de.

Essa cena é de um fil­me que vi no cine­ma, acho que foi no Shopping Iguatemi. Não sei por que me vem à men­te aqui.

Sempre me per­gun­tei como seria ver a mor­te de fren­te, mas isso não acon­te­ceu comi­go. Quando esta­va mor­ren­do, não enten­di mui­to o que se pas­sa­va. Achei que me sen­tia mal por cau­sa do calor e do fuso horá­rio, quis entrar numa ducha fria para dar uma acor­da­da, mas, quan­do me levan­tei, sen­ti uma fis­ga­da no pes­co­ço que des­ceu até a bata­ta da per­na. A últi­ma coi­sa de que eu me lem­bro é de minha cara no chão e da água mor­na con­tra o meu ros­to, entran­do por minhas nari­nas. Morri, mas não vi a cara da mor­te.

 


 

Meu nome é Georges. Por enquan­to, omi­ti­rei meu sobre­no­me. Começarei pelo que fui fisi­ca­men­te, para faci­li­tar a iden­ti­fi­ca­ção do cor­po:

Homem bran­co, 1,92 metro de altu­ra, 96 qui­los de peso, cabe­los cas­ta­nhos gri­sa­lhos, cal­vo, víti­ma de aci­den­te vas­cu­lar cere­bral, hemor­ra­gia impor­tan­te no lobo pari­e­tal direi­to, jaz numa ban­de­ja de aço no necro­té­rio de um país estran­gei­ro.

Agora que estou mor­to, quais são as pes­so­as, luga­res e coi­sas que, em vida, se tor­na­ram par­te de mim e segui­rão comi­go qual­quer que seja o meu des­ti­no de defun­to? Sou pai de André e Léa, mari­do de Débora, ami­go de Ernani, irmão de Gérard e filho de Ana Amélia e François. Esse sou eu.

Nunca fui reli­gi­o­so, mas admi­to sen­ti­men­tos cris­tãos apren­di­dos com as pará­bo­las bíbli­cas que minha avó lia para mim na cama, antes de eu dor­mir. As pará­bo­las de Jesus para cri­an­ças: lem­bro-me da capa azul do livro con­tra a mesa de cabe­cei­ra bran­ca.

Se, em alguns minu­tos, apa­re­cer um san­to com a cha­ve do céu e pedir para que eu apre­sen­te meu caso, como nós, advo­ga­dos, dize­mos, o que teria eu para lhe con­tar? Que his­tó­ri­as me defi­ni­ri­am?

Como mor­to, nes­te lim­bo, meu pre­sen­te é escu­ro e estan­que. Meu futu­ro ine­xis­te. O úni­co que me sobrou foi a memó­ria: os momen­tos de minha exis­tên­cia aca­ba­da.

Aqui, que­ro que esses momen­tos defi­ni­do­res de mim che­guem-me espon­ta­ne­a­men­te e que a lem­bran­ça do que foi mais impor­tan­te em minha vida se impo­nha. Sinto-me como o artis­ta lou­co que pre­pa­rou um rotei­ro para sua apre­sen­ta­ção a Deus. A dife­ren­ça é que eu não sou nem lou­co nem artis­ta e igno­ro tudo o que se pas­sa comi­go nes­ta dimen­são.

Terei de falar de mim, e você sabe­rá coi­sas que eu não gos­ta­ria que nin­guém sou­bes­se. Mas não fará sen­ti­do men­tir. Morto, terei de ser hones­to. Um cadá­ver encon­tra­do nas con­di­ções em que foi o meu per­deu todo direi­to à pri­va­ci­da­de.

 

A identificação da alma

Um dia, me cha­ma­ram de bicha. Foi o Marcos Bauer quem, do nada, me cha­mou de bicha e me deu um soco na bar­ri­ga na saí­da da esco­la, na fren­te de todo o mun­do. Foi uma ofen­sa defi­ni­ti­va, que ficou eco­an­do para sem­pre na minha cabe­ça.

Arremedava os meus ges­tos, ridi­cu­la­ri­za­va-me, ria de mim. Fez com que eu sen­tis­se medo e ver­go­nha. Tornou minha vida um infer­no. Cheguei a pen­sar em sui­cí­dio. Eu tinha nove anos de ida­de.

Antes de dor­mir, inven­ta­va pla­nos per­fei­tos para assas­si­nar Marcos Bauer. Anos depois, gos­tei de des­co­brir que ele mor­re­ra cedo, ain­da mais jovem do que eu.

O fato de ele ter mor­ri­do antes e de ter vivi­do menos me deu a sen­sa­ção de que eu havia sido jus­ti­ça­do pelo des­ti­no e de que, no final das con­tas, eu esta­va cer­to, e ele, erra­do.

Quando eu ain­da esta­va vivo, dei um goo­gle no nome dele: “Marcos Carmenzini Bauer”, assim mes­mo, entre aspas.

Não apa­re­ceu nenhum resul­ta­do.

Quem é que ine­xis­te na inter­net? Só os que mor­re­ram antes do come­ço da inter­net e não fize­ram nada de rele­van­te, como deve ter sido o caso dele, por­que sem­pre vem algu­ma coi­sa: uma mul­ta de trân­si­to, um regis­tro no car­tó­rio, uma men­ção no Diário Oficial.

Foi o irmão dele, o Fabio, que me con­tou que ele tinha mor­ri­do aos 18 anos, mas não entrou em por­me­no­res. Conversei com um cole­ga de esco­la e fiquei saben­do que o cor­po dele havia sido encon­tra­do, afo­ga­do, numa bar­ra­gem do rio Pinheiros, no dia de Natal. As cir­cuns­tân­ci­as não dei­xa­vam cla­ro se a mor­te tinha sido aci­den­tal ou não.

Confesso ter sen­ti­do uma pon­ta de pra­zer ao saber dos deta­lhes da mor­te de Marcos Bauer. No entan­to, pro­cu­rei afas­tar tal sen­ti­men­to Schadenfreude, não pos­so me esque­cer des­sa pala­vra.

Durante mui­tos anos, agra­de­ci-lhe o aler­ta ante­ci­pa­do. Tive tem­po de me pre­pa­rar. Ele me ser­viu como avi­so de que ser bicha não era bom. Por anos, valo­ri­zei seu ensi­na­men­to.

Não que eu sou­bes­se des­de sem­pre, mas sabia há tem­po sufi­ci­en­te para  me esque­cer de quan­do foi que me dei con­ta pela pri­mei­ra vez. Não sei se isso exis­te em todo mun­do, se todo mun­do sen­te isso igual.

Até o dia de minha mor­te, porém, me lem­bra­va do chei­ro de clo­ro no cor­po do pro­fes­sor de nata­ção. Minha cabe­ça de cri­an­ça con­tra seu pei­to molha­do. O vapor subin­do da pis­ci­na aque­ci­da, água mor­na entran­do por minhas nari­nas. Eu nos seus bra­ços, suas mãos no meu cor­po, segu­ran­do-me, ensi­nan­do-me a nadar.

Em minha memó­ria, não há abra­ço mais anti­go que o dele. Se você per­gun­tas­se ontem, dez minu­tos antes de eu mor­rer, se ain­da me lem­bra­va do chei­ro de clo­ro no cor­po do pro­fes­sor de nata­ção, minha res­pos­ta seria sim. Poderia des­cre­vê-lo.

O xin­ga­men­to de Marcos Bauer che­gou como sur­pre­sa, mas pres­sen­ti que “bicha” e o que eu sen­tia quan­do o pro­fes­sor de nata­ção me abra­ça­va e que eu ins­tin­ti­va­men­te escon­dia eram rela­ci­o­na­dos.

Aquela pala­vra, “bicha”, que me defi­nia con­tra minha von­ta­de, tira­va de mim a pos­si­bi­li­da­de de ino­cên­cia. Depois daque­la reve­la­ção, cabe­ria a mim a res­pon­sa­bi­li­da­de de quem eu iria ser ou me tor­nar.

Ele e eu havía­mos per­ce­bi­do algo sobre mim que nin­guém mais per­ce­be­ra. Ele arti­cu­lou em pala­vras algo de que eu sus­pei­ta­va, mas não sou­be­ra ain­da defi­nir. Marcos Bauer foi quem pri­mei­ro deu limi­tes à minha iden­ti­da­de.

Não sabia se alguém mais na esco­la me acha­va efe­mi­na­do, mas, por pre­cau­ção, pas­sei a me pre­o­cu­par em pare­cer mas­cu­li­no. Tentava falar em tom mais gra­ve do que o que me seria natu­ral e movia-me mais deva­gar, com mais cons­ci­ên­cia sobre meus ges­tos. Passei o res­to dos anos me con­tro­lan­do. Toda a minha vida foi assim.

Comprei a ami­za­de de Marcos Bauer com um car­ri­nho mat­ch­box. No meu ani­ver­sá­rio de 10 anos, meus tios Zuza e Carlos me deram dois des­ses car­ri­nhos de pre­sen­te. Na manhã seguin­te, levei-os para a esco­la. Deixei um na mochi­la e pus o outro sobre minha car­tei­ra, esta­ci­o­na­do ao lado do esto­jo de lápis, em exi­bi­ção.

Percebi o olhar de Marcos Bauer para meu drags­ter ver­me­lho em seu cami­nho para o fun­do da sala. Quando o alar­me do recreio tocou, não me levan­tei. Deixei que os cole­gas de trás saís­sem, como se tives­se coi­sas a orga­ni­zar antes de ir embo­ra.

Quando Marcos Bauer pas­sou por mim, eu ain­da esta­va sen­ta­do. Ele parou e olhou com cobi­ça para o car­ri­nho, mas, antes de que ele pudes­se falar qual­quer coi­sa, dis­pa­rei, olhan­do-o de bai­xo para cima: “minha tia me deu dois, quer um pra você?”, já meten­do a mão na mochi­la para entre­gar-lhe o mai­or dos dois car­ros que eu havia ganha­do.

Conquistei o cora­ção daque­le sádi­co mirim com um car­ri­nho de metal de três dóla­res. Depois des­se epi­só­dio, seu com­por­ta­men­to comi­go mudou. Passou a me tra­tar com res­pei­to e che­gou a dizer na fren­te de todos, na hora da saí­da da esco­la, que eu era “gen­te fina”.

Depois do aler­ta ante­ci­pa­do que ele inad­ver­ti­da­men­te me dera, enten­di que a manei­ra mais efi­caz para não ser cha­ma­do de bicha era ter uma namo­ra­da. Voltei às aulas na quar­ta série dis­pos­to a me rein­ven­tar, diga­mos assim.

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