Coetzee e Foster Wallace: acadêmicos sem fraque

Literatura

26.12.11

Comecei a com­pi­lar, men­tal­men­te, casos de auto­res que cri­ti­cam o mun­do aca­dê­mi­co. O núme­ro de escri­to­res que ado­ta esta pos­tu­ra é tão gran­de que arris­co dizer que isso se tor­nou uma ten­dên­cia das letras con­tem­po­râ­ne­as. Há, por um lado, os casos bas­tan­te dire­tos, como o de Jonathan Franzen, em As cor­re­ções, e o de Zadie Smith em Sobre a bele­za. Ambos os auto­res pra­ti­cam um rea­lis­mo mui­to pró­xi­mo do roman­ce de cos­tu­mes, e suas crí­ti­cas são sem­pre atra­vés do com­por­ta­men­to de seus per­so­na­gens. Há outros escri­to­res, no entan­to, que pas­sa­ram por uma mudan­ça de para­dig­ma. Iniciaram suas car­rei­ras fas­ci­na­dos por teo­ria lite­rá­ria e foram pro­gres­si­va­men­te aban­do­nan­do esta pai­xão, até se tor­na­rem crí­ti­cos de vári­as face­tas da aca­de­mia. É o caso, acre­di­to, de David Foster Wallace e J.M. Coetzee.

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O jar­gão aca­dê­mi­co está na raiz da obra de David Foster Wallace, seja a fic­ci­o­nal ou a ensaís­ti­ca. Graduado em filo­so­fia e obce­ca­do por lógi­ca, Wallace fez das notas de roda­pé peças oni­pre­sen­tes em seu tex­to. O autor ame­ri­ca­no tam­bém usa vári­os ter­mos comuns em dis­ser­ta­ções e teses, mas que geram estra­nhe­za em con­tos, como “i.e.”, “[sic]”, “ref.” “cf.”.

O pri­mei­ro roman­ce de DFW, The bro­om of the sys­tem, foi víti­ma do fas­cí­nio pelo mun­do aca­dê­mi­co, pelo menos na opi­nião do autor. Na lon­ga entre­vis­ta que cedeu a David Lipsky, Wallace con­ta que o seu edi­tor suge­riu uma mudan­ça no final de The bro­om of the sys­tem, e o escri­tor res­pon­deu o edi­tor com uma car­ta de dezes­se­te pági­nas expli­can­do como aque­le final repre­sen­ta­va uma con­ver­sa entre Derrida e Wittgenstein, entre pre­sen­ça e ausên­cia. O edi­tor acei­tou a argu­men­ta­ção e não mudou o final. Em 1996, ano da entre­vis­ta com Lipsky, Wallace demons­tra ter muda­do de ideia. “Quer saber? É um docu­men­to teó­ri­co bri­lhan­te, mas um final de mer­da”. O autor jus­ti­fi­ca o que con­si­de­ra ser o “fra­cas­so” do livro no fato de que, para escre­vê-lo, não con­se­guiu se sol­tar de seus laços com a teo­ria lite­rá­ria: “Eu esta­va com qua­tro­cen­tas mil pági­nas de filo­so­fia con­ti­nen­tal e teo­ria lite­rá­ria na cabe­ça, e eu iria usar isso para pro­var que era mais inte­li­gen­te do que ele”. Para encon­trar sua voz como fic­ci­o­nis­ta, Wallace con­si­de­ra que pre­ci­sou se liber­tar das amar­ras aca­dê­mi­cas — e fez, pelo menos em minha lei­tu­ra, uma crí­ti­ca par­ti­cu­lar­men­te vene­no­sa à teo­ri­za­ção exa­ge­ra­da em seu con­to A pes­soa depri­mi­da, incluí­do no livro Breves entre­vis­tas com homens hedi­on­dos. Neste con­to, a his­tó­ria da pes­soa depri­mi­da em ques­tão é pro­gres­si­va­men­te “domi­na­da” por notas de roda­pé, que tomam espa­ço na pági­na e lotam o tex­to de um jar­gão que não con­se­gue dizer nada, de fato, sobre aque­la pes­soa. Mas é cla­ro: Wallace faz estas crí­ti­cas “de den­tro”. Professor uni­ver­si­tá­rio, o autor ame­ri­ca­no pare­ce sen­tir, no mes­mo nível, atra­ção e repul­sa por teo­ria — seja esta filo­só­fi­ca, psi­ca­na­lí­ti­ca ou lite­rá­ria.

Conversando com o escri­tor Vinicius Castro, espe­ci­a­lis­ta em Foster Wallace e inter­lo­cu­tor vali­o­so des­te meu tex­to, ele apre­sen­tou o seguin­te insight sobre o assun­to: “Acho que ele [DFW] tinha uma atra­ção enor­me pela aca­de­mia e pela abs­tra­ção inte­lec­tu­al sofis­ti­ca­da, mas tam­bém um medo enor­me de soar pre­ten­si­o­so e de se dei­xar sedu­zir pelo jar­gão auto­má­ti­co e o pala­vró­rio vazio. Talvez por isso ele equi­li­bras­se os tiques de i.e., e.g. e n.b. com o regis­tro bas­tan­te infor­mal e cheio de gíri­as. Querendo soar como um pro­fes­sor de Oxbridge de boné vira­do pro lado e ska­te debai­xo do bra­ço. Acho que dá para dizer que ele loca­li­za­va inau­ten­ti­ci­da­de nes­ses regis­tros mui­to pre­ten­si­o­sos e auto-envol­vi­dos (embo­ra tives­se algum gos­to por eles), assim como no manu­seio retó­ri­co da publi­ci­da­de e na auto­cons­ci­ên­cia hiper­tro­fi­a­da dos per­so­na­gens dele. Nada esca­pa­va, afi­nal de con­tas”.

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Mais inte­res­san­te e com­ple­xo é o caso do sul-afri­ca­no J.M. Coetzee. Em seu fas­ci­nan­te livro de ensai­os Doubling the point (1992, infe­liz­men­te nun­ca lan­ça­do no Brasil), diz não ser um filó­so­fo “trei­na­do”, e que sen­te mai­or liber­da­de pro­cu­ran­do res­pos­tas teó­ri­cas na fic­ção do que na crí­ti­ca. Ainda assim, os ensai­os de Doubling the point estão mer­gu­lha­dos em teo­ria pesa­da. Um exem­plo é o caso do ensaio sobre The bur­row, de Kafka, um arti­go exce­len­te no qual o autor sul-afri­ca­no ana­li­sa os tem­pos ver­bais empre­ga­dos pelo escri­tor tche­co para ten­tar com­pre­en­der como fun­ci­o­na o tem­po na obra de Kafka. É curi­o­so obser­var que a com­pi­la­ção de ensai­os que Coetzee lan­çou quin­ze anos depois, Mecanismos inter­nos, não tem qua­se nada de teó­ri­co. O autor sul-afri­ca­no era mui­to mais fas­ci­na­do por teo­ria pesa­da, aca­dê­mi­ca, for­ra­da de refe­rên­ci­as a Derrida e Foucault, no iní­cio de sua car­rei­ra.

Também pre­ci­sa ser ana­li­sa­do o fato de que o pri­mei­rís­si­mo livro de Coetzee, Dusklands, já come­ça com um jogo meta­fic­ci­o­nal — e a meta­fic­ção (o arti­fí­cio de expor que cer­to tex­to é fic­ci­o­nal, o que pode se dar de vári­as for­mas, geral­men­te colo­can­do um “livro den­tro do livro”) tem pro­fun­da liga­ção com o pen­sa­men­to aca­dê­mi­co. Coetzee, em Doubling the point comen­ta­rá que “a meta­fic­ção logo per­de sua atra­ção” e que “escre­ver sobre escre­ver não ofe­re­ce mui­to pra­zer nar­ra­ti­vo (e não sou ascé­ti­co ao pon­to de rene­gar o pra­zer nar­ra­ti­vo)”. No entan­to, ape­sar des­te comen­tá­rio, o autor sul-afri­ca­no nun­ca aban­do­nou este dis­po­si­ti­vo lite­rá­rio, e con­ti­nu­ou uti­li­zan­do-o (e revo­lu­ci­o­nan­do-o) até em seus livros mais recen­tes, como Diário de um ano ruim.

Ainda assim, sin­to que Coetzee pas­sou por uma mudan­ça de para­dig­ma, no sen­ti­do de que come­çou a car­rei­ra como um entu­si­as­ta do mun­do aca­dê­mi­co ten­do, depois, aban­do­na­do esta pers­pec­ti­va. Como pos­sí­vel pro­va para a hipó­te­se que levan­tei, apre­sen­to o caso de Foe/Elizabeth Costello.

Em Foe (1986), Coetzee recon­ta a his­tó­ria de Robinson Crusoé do pon­to de vis­ta de uma mulher, que teria sido excluí­da da his­tó­ria por Daniel Foe (que ain­da não se cha­ma­va Defoe). Foe, em inglês, sig­ni­fi­ca ini­mi­go, e aqui tería­mos um caso exem­plar de um nar­ra­dor mas­cu­li­no que, ao con­tar a his­tó­ria, apa­ga tra­ços e cons­trói a sua ver­são da his­tó­ria, que pas­sa­rá a ser enca­ra­da como “ofi­ci­al”.

Porém, em Elizabeth Costello, de 2003, Coetzee nos apre­sen­ta sua alter ego,  Elizabeth Costello, que escre­veu um livro onde con­ta a his­tó­ria de Ulisses do pon­to de vis­ta da mulher, isto é, de Molly Bloom. A liga­ção des­te livro fic­tí­cio com Foe é bas­tan­te óbvia. O deta­lhe é que em Elizabeth Costello a per­so­na­gem-títu­lo se vê per­se­gui­da no pri­mei­ro capí­tu­lo por aca­dê­mi­cos que ten­tam extrair dela opi­niões aca­dê­mi­cas e posi­ções polí­ti­cas que ela, auto­ra, não é capaz de ofe­re­cer. A nar­ra­do­ra des­cre­ve toda a cena na Universidade com uma iro­nia bru­tal, espe­ci­al­men­te ao falar sobre uma pro­fes­so­ra femi­nis­ta que diz ser sua admi­ra­do­ra. Costello ain­da faz uma decla­ra­ção radi­cal, que ser­ve de crí­ti­ca ao seu pró­prio pas­sa­do (e, por con­sequên­cia, ao de Coetzee e seu Foe): “Não pode­mos para­si­tar os clás­si­cos para sem­pre. Precisamos inven­tar algu­mas coi­sas nos­sas tam­bém”. Já no segun­do capí­tu­lo, Coetzee apre­sen­ta atra­vés de Costello uma crí­ti­ca aos estu­dos lite­rá­ri­os foca­dos na iden­ti­da­de naci­o­nal, ao mos­trar uma Costello que não se sen­te à von­ta­de ao falar sobre “nós, os afri­ca­nos”, quan­do ela escre­ve sobre assun­tos oci­den­tais (como Joyce) e não tra­ba­lha dire­ta­men­te com estes temas.

Isso não quer dizer, cla­ro, que Coetzee seja um anti­a­ca­dê­mi­co, mui­to menos que este­ja em uma cam­pa­nha con­tra os estu­dos cul­tu­rais ou algo assim. O que faz o autor sul-afri­ca­no tão fas­ci­nan­te de ler é o fato de que ele apre­sen­ta uma crí­ti­ca “de den­tro”. Assim como Wallace, é fas­ci­na­do por mui­tos aspec­tos da teo­ria aca­dê­mi­ca, mas se reve­la crí­ti­co a diver­sas face­tas des­te uni­ver­so. E, como em todos os tex­tos de Coetzee, não há uma men­sa­gem cla­ra ou uma res­pos­ta, ape­nas ambi­va­lên­cia, dúvi­da e mui­tas, mui­tas per­gun­tas.

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