Como des-cobrir poemas

Literatura

22.11.12

Descobrir que um tex­to é uma foto, que a foto é a ima­gem de um tex­to que em si escon­de a ima­gem evi­den­ci­a­da pela artis­ta.

O tra­ba­lho de Natalie Czech (1976), artis­ta recém-pre­mi­a­da com a bol­sa para foto­gra­fia Ellen-Auerbach 2012, pela Akademie der Künste de Berlim, onde foi expos­to recen­te­men­te, pas­seia entre a nar­ra­ti­va do tex­to e a potên­cia da ima­gem foto­gra­fa­da com uma sin­gu­lar sen­si­bi­li­da­de poé­ti­ca.

A sig­ni­fi­ca­ti­va — embo­ra peque­na — expo­si­ção de Natalie Czech para a pre­mi­a­ção aci­ma cita­da sur­pre­en­de pela eloquên­cia de um tra­ba­lho ela­bo­ra­do pró­xi­mo ao silên­cio.

A série apre­sen­ta­da, “Today I wro­te nothing”(2009), baseia-se no diá­rio de Daniil Kharms (1905–42), reco­nhe­ci­do poe­ta e per­for­mer ico­no­clas­ta da então cena lite­rá­ria sovié­ti­ca. Acusado de antis­so­vié­ti­co, foi pre­so em 1931 e, em 1941, enclau­su­ra­do numa clí­ni­ca psi­quiá­tri­ca, vin­do a mor­rer um ano depois.

Em 9 de julho de 1937, Kharms escre­ve em seu diá­rio:

Today I wro­te nothing.

Doesn’t mat­ter.

January 9th.

Natalie extrai des­se vazio apa­ren­te uma elo­quen­te série de 22 foto­gra­fi­as da pági­na do diá­rio. Em cada uma das fotos, algu­mas das pala­vras fal­tam, rede­fi­nin­do o con­tex­to e o sig­ni­fi­ca­do da men­sa­gem.

Em outra série de seu tra­ba­lho deno­mi­na­da “Hidden Poems”, a artis­ta foto­gra­fa ima­gens de revis­ta, jor­nais e livros ilus­tra­dos jun­ta­men­te com o tex­to ao qual se refe­rem e dali, num intrin­ca­do e minu­ci­o­so tra­ba­lho de sele­ção voca­bu­lar, encon­tra e mar­ca com uma cane­ta hidro­grá­fi­ca colo­ri­da cada pala­vra cons­ti­tuin­te de um deter­mi­na­do poe­ma esco­lhi­do entre nomes como, por exem­plo, Robert Creeley (1926 — 2005), Frank O’Hara (1926 — 1966), Rolf Dieter Brinkmann (1940 — 1975), E. E. Cummings (1894 — 1962) e Velimir Khlebnikov (1885 — 1922). A esco­lha não é ale­a­tó­ria. Pelo con­trá­rio, faz sur­gir um diá­lo­go que dis­sol­ve fron­tei­ras do que acre­di­ta­mos ser foto­gra­fia, poe­sia e tex­to. Há uma alte­ra­ção de sen­ti­dos, cons­truin­do um labi­rin­to com mui­tas saí­das, de onde saí­mos pelas entra­das.

Num tra­ba­lho mais recen­te, “A small bou­quet”, Czech uti­li­za o cali­gra­ma do poe­ta Frank O’Hara para con­fron­tar e mes­clar tex­to e ima­gem, des­ta vez fei­ta pelo pró­prio tex­to.

Ela inver­te ago­ra o que havia fei­to no pro­ces­so de “Hidden Poems”, ao ins­cre­ver o poe­ma na estru­tu­ra de um tex­to já exis­ten­te. Aqui, o prin­cí­pio do pro­ces­so se dá com esse poe­ma-ima­gem, em for­ma de cali­gra­ma, do poe­ta ame­ri­ca­no Frank O’Hara (1926–66). A artis­ta con­vi­dou sete auto­res (Andrew Berardini, Maia Gianakos, Julien Bismuth, Leslie-Ann Murray, Mick Peter, Nathania Rubin e Alix Rule), para que cada um absor­ves­se e recon­tex­tu­a­li­zas­se o cali­gra­ma de O’Hara num novo tex­to, man­ten­do as pala­vras do mes­mo na dis­po­si­ção e rela­ção espa­ci­al do ori­gi­nal. O poe­ma per­ma­ne­ce ali ins­cri­to na tes­si­tu­ra do novo tex­to e qua­se desa­pa­re­ce, se não fos­se pela re-inter­ven­cão de Natalie, mar­can­do as pala­vras em lápis de cera pas­tel e fazen­do res­sur­gir “A small bou­quet”, enfa­ti­za­do pelo dese­nho.

Esse resul­ta­do é então foto­gra­fa­do e expos­to em sequên­cia, dan­do ao espec­ta­dor a pos­si­bi­li­da­de de múl­ti­plas lei­tu­ras.

Surge uma nova ques­tão: a rela­ção entre essas cama­das — a ima­gem, o tex­to e o poe­ma — que se con­ta­gi­am de tal for­ma que nada mais pode­rá ser vis­to, lido ou sen­ti­do sem cada uma das atri­bui­ções que cada uma car­re­ga­va ante­ri­or­men­te.

É aí, tal­vez, que sur­ja no tra­ba­lho de Natalie Czech a evi­dên­cia da ques­tão foto­grá­fi­ca, meio aglu­ti­nan­te des­se pro­ces­so que a artis­ta não pres­cin­de. Muito pelo con­trá­rio, ela o rea­fir­ma atra­vés des­se per­cur­so.

* Carla Guagliardi é artis­ta plás­ti­ca, vive e tra­ba­lha no Rio de Janeiro e em Berlim.

Créditos das ima­gens:

Natalie Czech
o.T. / Today I wro­te nothing / Daniil Kharms, 2009
38 x 28 cm, C-Print
Courtesy Galerie Kadel Willborn, Karlsruhe
Copright: VG Bild-Kunst Bonn

Natalie Czech — A hid­den poem by Robert Lax, 2012
C-Print, 77 x 105 cm
Courtesy Galerie Kadel Willborn, Karlsruhe
Copright: VG Bild-Kunst Bonn

Natalie Czech — A small bou­quet by Andrew Berardini, 2011
85 x 60 cm, oil pas­tel on C-Print
Courtesy Galerie Kadel Willborn, Karlsruhe
Copright: VG Bild-Kunst Bonn

Natalie Czech — A small bou­quet by Maia Gianakos, 2011
85 x 60 cm, oil pas­tel on C-Print
Courtesy Galerie Kadel Willborn, Karlsruhe
Copright: VG Bild-Kunst Bonn

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