Como Kubrick dirigiu os filmes da chegada do homem à Lua

Cinema

30.07.12

Teóricos da cons­pi­ra­ção se debru­çam há mui­to tem­po sobre o fil­me que regis­tra a che­ga­da do homem à Lua para denun­ci­ar suas falhas e, por­tan­to, sua auten­ti­ci­da­de: a qua­li­da­de téc­ni­ca, a ausên­cia de atmos­fe­ra e a bai­xa gra­vi­da­de colo­ca­ri­am em xeque a sobre­vi­vên­cia da pelí­cu­la ao impac­to de uma via­gem espa­ci­al; o tre­mu­lar da ban­dei­ra nor­te-ame­ri­ca­na em solo lunar e a pro­fun­di­da­de das pega­das dos pri­mei­ros astro­nau­tas no saté­li­te que orbi­ta a Terra, além de som­bras con­tra­di­tó­ri­as em dife­ren­tes cenas e a defi­ni­ção dos deta­lhes das foto­gra­fi­as, mes­mo em con­tra­luz e sem flash.  As teo­ri­as mais para­noi­cas inclu­si­ve apon­tam para a pre­sen­ça de Stanley Kubrick, que, um ano antes da che­ga­da da Apollo 11 à Lua, havia fil­ma­do o épi­co 2001 — Uma Odisseia no Espaço

Nenhuma teo­ria é tão irre­sis­tí­vel quan­to a con­ta­da no fal­so docu­men­tá­rio Dark side of the Moon, do fran­cês William Karel em 2002.

Karel, cuja obra como docu­men­ta­ris­ta con­ta com qua­se 20 fil­mes (a mai­or par­te fei­ta para a TV, um deles ven­ce­dor de um Emmy, em 1995), é conhe­ci­do por focar temas nor­te-ame­ri­ca­nos e sua fami­li­a­ri­da­de com o assun­to o dei­xou à von­ta­de para explo­rar melhor esta teo­ria da cons­pi­ra­ção com a aju­da da pró­pria viú­va de Kubrick, Christiane, e de cele­bri­da­des da polí­ti­ca nor­te-ame­ri­ca­na, em cenas edi­ta­das ao bel pra­zer da nar­ra­ti­va aber­ta­men­te men­ti­ro­sa do docu­men­tá­rio.

São cenas que tra­zem per­so­na­gens-cha­ve da his­tó­ria do sécu­lo XX con­ver­san­do sobre supos­tos segre­dos de Estado como se esti­ves­sem lem­bran­do his­tó­ri­as da épo­ca da facul­da­de. Alternando tre­chos edi­ta­dos de entre­vis­tas sobre assun­tos com­ple­ta­men­te aves­sos ao tema do docu­men­tá­rio fake, nomes como Donald Rumsfeld, Henry Kissinger, Vernon Walters e o ex-astro­nau­ta Buzz Aldrin dis­cor­rem sobre como o pro­gra­ma espa­ci­al nor­te-ame­ri­ca­no sem­pre foi uma des­cul­pa para fazer a opi­nião públi­ca apoi­ar aumen­tos no orça­men­to mili­tar que cul­mi­na­ri­am com o pro­je­to do escu­do espa­ci­al nor­te-ame­ri­ca­no, Star Wars, pro­pos­to pelo gover­no Reagan na déca­da de 1980.

O docu­men­tá­rio mos­tra como a União Soviética esta­va à fren­te dos EUA na cor­ri­da espa­ci­al e como a Casa Branca enten­deu que havia a neces­si­da­de de trans­for­mar a che­ga­da à Lua em um espe­tá­cu­lo, que no fim aumen­ta­ria a cor­ri­da arma­men­tis­ta da Guerra Fria. Após acu­sa­ções vela­das sobre o fato de o gover­no nor­te-ame­ri­ca­no ter sabo­ta­do o pro­gra­ma espa­ci­al sovié­ti­co, Dark side of the Moon che­ga em seu melhor momen­to: aque­le em que Donald Rumsfeld suge­re a Nixon que cha­me Stanley Kubrick para diri­gir um fil­me para entre­ter a opi­nião públi­ca — caso o fil­me que vies­se da Lua fos­se inu­ti­li­zá­vel ou se a mis­são fra­cas­sas­se.

A sequên­cia de entre­vis­tas reve­la­do­ras é hilá­ria e a intro­mis­são de Kubrick no pro­ces­so teria acon­te­ci­do por pura bir­ra per­fec­ci­o­nis­ta do dire­tor, quan­do viu que os cine­gra­fis­tas da Nasa não enten­di­am nada sobre fil­mar no espa­ço. Sua cola­bo­ra­ção lhe garan­ti­ria inclu­si­ve o aces­so à tec­no­lo­gia de pon­ta — e assim Kubrick teve aces­so às melho­res câme­ras de sua épo­ca, incluin­do um mode­lo úni­co desen­vol­vi­do pela Nasa para regis­trar cenas à luz de velas, sua obses­são na épo­ca do míti­co e não-fil­ma­do Napoleão, que se mate­ri­a­li­zou em Barry Lyndon (1975).

Dark side of the Moon brin­ca com a manei­ra como nar­ra­ti­vas bem fei­tas podem ilu­dir o espec­ta­dor. Além de entre­vis­tas “reve­la­do­ras” (Rumsfeld come­ça seu depoi­men­to dizen­do “vou lhe con­tar uma his­tó­ria fas­ci­nan­te”), a edi­ção é cru­ci­al para que a teo­ria se sus­ten­te, cri­an­do con­tex­to e con­seqüên­ci­as que não foram cogi­ta­das pelos teó­ri­cos da cons­pi­ra­ção tra­di­ci­o­nais. Um cer­to pro­du­tor Jack Torrance (o nome do per­so­na­gem de Jack Nicholson em O ilu­mi­na­do, de Stanley Kubrick) che­ga a mos­trar que a elei­ção de Reagan teria sido a for­ma de agra­de­ci­men­to dos “power that be” à aju­da de Hollywood — “a fábri­ca dos sonhos”, como o docu­men­tá­rio fri­sa diver­sas vezes — nes­te momen­to tão deli­ca­do da Guerra Fria. Outro entre­vis­ta­do, o astro­nau­ta Dave Bowman, é um per­so­na­gem fic­tí­cio espe­ci­fi­ca­men­te kubric­ke­a­no — pois é o pro­ta­go­nis­ta de 2001, ao lado do com­pu­ta­dor HAL 9000.

E na hora em que as “falhas” dos regis­tros cine­ma­to­grá­fi­cos da Lua são expos­tas, elas não pare­cem ape­nas um delí­rio de men­tes obce­ca­das com uma men­ti­ra — sob esta nova luz, pare­cem crí­veis e sen­sa­tas. Um gol­pe de mes­tre de um dire­tor mui­to cons­ci­en­te de sua ati­vi­da­de, que sem­pre recor­re à clás­si­ca fra­se de Truffaut sobre o for­ma­to docu­men­tá­rio — de que “um docu­men­tá­rio é mil vezes mais men­ti­ro­so do que uma fic­ção, pois na fic­ção tudo é escla­re­ci­do des­de o iní­cio”.

A len­da urba­na do envol­vi­men­to de Kubrick com os fil­mes da Apollo 11 entre­te­ve o dire­tor ain­da em vida — a pon­to de ele ves­tir o per­so­na­gem Danny, em O ilu­mi­na­do, com um sué­ter em refe­rên­cia à mais memo­rá­vel mis­são espa­ci­al nor­te-ame­ri­ca­na.

O fil­me intei­ro pode ser vis­to no YouTube:

Na ima­gem da home que ilus­tra o post: cena do fil­me O ilu­mi­na­do, de Stanley Kubrick.

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