Como nascem os monstros

No cinema

06.06.14

Na ava­lan­che de títu­los que estão entran­do em car­taz nes­te últi­mo fim de sema­na antes da Copa, mere­cem des­ta­que dois exce­len­tes fil­mes bra­si­lei­ros: Riocorrente, de Paulo Sacramento, e O lobo atrás da por­ta, de Fernando Coimbra. Sobre o pri­mei­ro, escre­vi aqui por oca­sião de sua exi­bi­ção no Festival de Brasília. Vamos então ao segun­do.

Ambientado nos dias de hoje no subúr­bio do Rio de Janeiro, O lobo pode ser enqua­dra­do, gros­so modo, no gêne­ro poli­ci­al. Há um cri­me (o seques­tro de uma cri­an­ça), há sus­pei­tos, há uma inves­ti­ga­ção para des­co­brir o que acon­te­ceu. Sem per­der o fio da ten­são e do sus­pen­se, o fil­me trans­cen­de os limi­tes e con­ven­ções do gêne­ro por vári­os lados.

O tem­po pre­sen­te da nar­ra­ti­va é o do inqué­ri­to poli­ci­al: um dele­ga­do (Juliano Cazarré) inter­ro­ga paren­tes da víti­ma, sus­pei­tos, tes­te­mu­nhas. Reconstituem-se então os acon­te­ci­men­tos em suces­si­vos flash­backs, a par­tir dos diver­sos depoi­men­tos. Só que, embo­ra ence­na­das sem­pre com a mes­ma den­si­da­de rea­lis­ta, nem todas as ver­sões são “ver­da­dei­ras” (se é que algu­ma é). Resulta daí que temos flash­backs fal­sos, à manei­ra do que acon­te­cia no clás­si­co Testemunha de acu­sa­ção, de Billy Wilder.

A fic­ção de cada um

Esse, a meu ver, é um dos pon­tos de mai­or inte­res­se do fil­me. É sig­ni­fi­ca­ti­vo que seu títu­lo alu­da a uma fábu­la (aliás, a duas: Chapeuzinho Vermelho e Os três por­qui­nhos), pois é de fabu­la­ção que se tra­ta aqui. Todos os per­so­na­gens, em algu­ma medi­da, inven­tam, fan­ta­si­am, fabu­lam. É como se não exis­tis­se uma rea­li­da­de últi­ma, mas ape­nas ver­sões dela. A pró­pria memó­ria, como sabe­mos, encer­ra em si um boca­do de fic­ção.

Mas que não se pen­se, com base no que foi dito, que se tra­ta de um exer­cí­cio de esti­lo, de uma espe­cu­la­ção abs­tra­ta sobre a “cons­tru­ção cine­ma­to­grá­fi­ca da men­ti­ra” ou coi­sa que o valha. Pelo con­trá­rio. O Brasil de hoje, ou uma lei­tu­ra bas­tan­te per­ti­nen­te do Brasil de hoje, trans­pi­ra no fil­me por todos os poros, isto é, por todas as ima­gens e falas, ain­da que de modo oblí­quo e sutil, amal­ga­ma­do à ele­tri­zan­te tra­ma cen­tral de seques­tro, adul­té­rio, abor­to, fal­sa iden­ti­da­de e cri­me pas­si­o­nal.

Chama a aten­ção a segu­ran­ça – sur­pre­en­den­te para um estre­an­te em lon­ga-metra­gem – com que Fernando Coimbra man­tém vivo o sus­pen­se sem lan­çar mão dos recur­sos e mule­tas mais vul­ga­res do gêne­ro (a mon­ta­gem sôfre­ga, a músi­ca enfá­ti­ca, o san­gue, os sus­tos). Em vez de mani­pu­lar o olhar e a emo­ção do espec­ta­dor com esse tipo de tru­que, ele apos­ta na sua par­ti­ci­pa­ção ati­va. Em vez de apos­tar nos cor­tes e no pin­gue-pon­gue roti­nei­ro do campo/contracampo, cons­trói ela­bo­ra­dos pla­nos-sequên­ci­as que abar­cam a cena em toda a sua rique­za, gra­ças a uma uti­li­za­ção admi­rá­vel da pro­fun­di­da­de de cam­po.

Integridade da ação

Um exem­plo notá­vel é o pla­no de três minu­tos em que uma per­so­na­gem (tenho que ser vago para não entre­gar a his­tó­ria) entra em casa à noi­te e cami­nha até a cozi­nha, pas­san­do pelos pais que estão na sala. Um espe­lho na pare­de divi­de o qua­dro em duas par­tes. Na par­te da direi­ta vemos a tal per­so­na­gem encher um copo d’água e sen­tar-se dian­te dele à mesa, pen­sa­ti­va. Na meta­de da esquer­da, pelo espe­lho, vemos seus pais na sala. Alguém toca a cam­pai­nha, a mãe abre a por­ta, apa­re­cem no fun­do do qua­dro as luzes gira­tó­ri­as de um car­ro de polí­cia. Num fil­me con­ven­ci­o­nal, essa cena seria reta­lha­da numa dúzia de pla­nos. Em O lobo ela é man­ti­da em sua per­tur­ba­do­ra inte­gri­da­de. A câme­ra se move mui­to pou­co, e com suti­le­za. O efei­to é pode­ro­so.

Entre parên­te­ses: pelo modo como arti­cu­la o gêne­ro poli­ci­al com um estu­do de per­so­na­gens e de emo­ções, pela cons­tru­ção retros­pec­ti­va e lacu­nar da nar­ra­ti­va, pela inte­li­gên­cia da mise-en-scè­neO lobo se apro­xi­ma, de cer­ta for­ma, do tam­bém cari­o­ca No meu lugar, de Eduardo Valente. Fecha parên­te­se.

Cabe uma últi­ma pala­vra sobre a qua­li­da­de do elen­co, em que a atu­a­ção ter­ra a ter­ra da óti­ma Fabiula Nascimento ali­men­ta de cer­to modo a den­si­da­de trá­gi­ca de Leandra Leal. Entre as duas, Milhem Cortaz, des­pi­do dos exces­sos his­tri­ô­ni­cos de outros tra­ba­lhos, osci­la con­vin­cen­te­men­te entre a fra­gi­li­da­de e a ener­gia bru­ta.

Não há vilões nem heróis em O lobo atrás da por­ta. O que ele nos mos­tra de mais ter­rí­vel é que não é pre­ci­so ser um mons­tro para come­ter mons­tru­o­si­da­des.

Assista ao trai­ler: 

 

 

Sessões de cine­ma no IMS-RJ

O lobo atrás da por­ta

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