Comum, errante e alegre

Colunistas

11.02.16

O ano de 1926 esta­va pres­tes a come­çar e, com ele, os efei­tos da Grande Guerra se acen­tu­a­vam. Como todo trau­ma, as reper­cus­sões ain­da eco­a­vam – e eco­a­ri­am – por mui­tos anos. O filó­so­fo ale­mão Walter Benjamin ain­da viria a escre­ver “O nar­ra­dor”, tex­to de 1936, no qual cons­ta­ta­rá o fim da expe­ri­ên­cia com­par­ti­lha­da, uma for­ma mui­to pró­pria de des­cre­ver os efei­tos do indi­vi­du­a­lis­mo. É sobre essa pas­sa­gem da vida comu­ni­tá­ria para a vida indi­vi­du­al que tra­ta a últi­ma tem­po­ra­da de Downton Abbey, em car­taz no GNT.

Imagem de divul­ga­ção da sex­ta tem­po­ra­da de Downton Abbey

A série con­ta a his­tó­ria de uma famí­lia aris­to­crá­ti­ca bri­tâ­ni­ca cuja vida soci­al é cole­ti­va. Cabe aos aris­to­cra­tas uma res­pon­sa­bi­li­da­de sobre o con­da­do onde estão suas ter­ras. Cabe a todos os outros vive­rem sob a res­pon­sa­bi­li­da­de da famí­lia do con­de Graham e, natu­ral­men­te, sob seu coman­do. Ao lon­go das tem­po­ra­das, essa vida comu­ni­tá­ria vai sen­do aba­la­da, pri­mei­ro pela guer­ra, e em segui­da, como con­sequên­cia ines­pe­ra­da, pelas aspi­ra­ções pes­so­ais de cada per­so­na­gem. O fim da série é tam­bém o iní­cio de uma nova era, como se o sécu­lo XX esti­ves­se se ini­ci­an­do ali, naque­la fes­ta de ano novo do últi­mo epi­só­dio.

Para esse novo come­ço, vão sain­do de cena os anti­gos coman­dan­tes. A pri­mei­ra a se res­sen­tir da per­da do seu lugar de poder é a velha con­des­sa, magis­tral­men­te inter­pre­ta­da por Maggie Smith, cuja par­ti­ci­pa­ção é mar­ca­da por uma mara­vi­lho­sa cole­ção de fra­ses irô­ni­cas em rela­ção aos novos tem­pos, como “pen­sar duas vezes sobre o mes­mo assun­to está super-valo­ri­za­do atu­al­men­te”. Ela per­de a auto­ri­da­de sem per­der pro­ta­go­nis­mo na série, ape­nas acei­tan­do, não sem algu­ma resis­tên­cia, que os tem­pos são outros.

Mulheres assu­mem, de for­ma mui­to sutil, posi­ções femi­nis­tas, e a eman­ci­pa­ção vai che­gan­do, como ain­da hoje, de for­ma mais fácil para a eli­te, de for­ma mais peno­sa para as clas­ses mais bai­xas. Nesse que­si­to, é exem­plar a con­quis­ta da liber­da­de de Lady Mary, aque­la que seria a nova viú­va no poder. Seu ves­tuá­rio, des­de o iní­cio mui­to luxu­o­so, vai se tra­du­zin­do em outras for­mas de ele­gân­cia. Os cabe­los são mais cur­tos e as gra­va­tas entram no figu­ri­no como sím­bo­lo de igual­da­de, fazen­do pen­sar que o este­reó­ti­po da femi­nis­ta feia, bru­ta e sem char­me só pode ter sido mes­mo inven­ta­do pelo machis­mo.

A rigor, todos os des­fe­chos das tra­je­tó­ri­as de vida – seja dos nobres, seja dos empre­ga­dos – indi­cam o pri­ma­do do indi­ví­duo sobre a comu­ni­da­de. O fim des­se mun­do com­par­ti­lha­do que Abbey nar­ra tão bem é hoje um tema impor­tan­te na filo­so­fia polí­ti­ca. Autores como Judith Butler, Jacques Rancière e Antonio Negri, entre outros tan­tos, estão pen­san­do sobre o fim da noção de indi­ví­duo – esta que apa­re­ce na tem­po­ra­da final de Abbey como sinal de auto­no­mia e liber­da­de –, não para um retor­no nos­tál­gi­co de uma for­ma comu­ni­tá­ria que tam­bém era auto­ri­tá­ria, mas a fim de recu­pe­rar algo de bom da dimen­são do comum.

Trata-se de um deba­te que opõe os libe­rais, para os quais a vida é indi­vi­du­al, e para man­tê-la devem ser fei­tos todos os esfor­ços em prol daque­le indi­ví­duo, aos cha­ma­dos comu­ni­ta­ris­tas, para quem a vida é cole­ti­va, inse­pa­rá­vel das rela­ções soci­ais, afe­ti­vas e fami­li­a­res envol­vi­das. Na Inglaterra do iní­cio do sécu­lo pas­sa­do, retra­ta­da em Abbey, a vida era pri­o­ri­ta­ri­a­men­te cole­ti­va, mar­ca­da pelas exi­gên­ci­as do que sig­ni­fi­ca­va estar em comu­ni­da­de. Ainda que esta comu­ni­da­de pudes­se ofe­re­cer algum tipo de pro­te­ção – a mes­ma que foi pos­ta abai­xo no final dos anos 1960, quan­do implo­di­ri­am as hie­rar­qui­as e ins­ti­tui­ções por elas sus­ten­ta­das –, cobra­va um pre­ço alto por isso.

No entan­to, os 90 anos que nos sepa­ram da cena final de Downton Abbey tam­bém mos­tra­ram os limi­tes e alto pre­ço de fun­da­men­tar a exis­tên­cia ape­nas em rotei­ros indi­vi­du­ais. De cer­ta for­ma, a recu­pe­ra­ção do comum só tem algum sen­ti­do por não ser uma visão nos­tál­gi­ca dos tem­pos pas­sa­dos, mas estar car­re­ga­da de um ide­al de comu­ni­da­de na qual se pos­sa com­par­ti­lhar a con­di­ção pre­cá­ria de todo viven­te. Ao invés da bus­ca por pro­te­ção, o cami­nho é neces­sa­ri­a­men­te comum, erran­te e ale­gre, como num bom blo­co de car­na­val.

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