Copacabana em transe, Recife em ebulição

No cinema

23.01.15

O que apro­xi­ma e o que afas­ta Amor, plás­ti­co e baru­lho, de Renata Pinheiro, que aca­ba de entrar em car­taz, de Copacabana mon amour, rea­li­za­do por Rogério Sganzerla em 1970 e que che­ga ago­ra ao DVD em cópia res­tau­ra­da?

Antes de pros­se­guir, cabe enfa­ti­zar que não se tra­ta de uma com­pa­ra­ção, no sen­ti­do de esta­be­le­cer uma hie­rar­quia de valor. É óbvio que Amor, plás­ti­co e baru­lho é menor e menos fun­da­men­tal do que Copacabana, mas pou­cos outros fil­mes não o seri­am. Aqui, uma bre­ve repor­ta­gem sobre o fil­me de Sganzerla e sua res­tau­ra­ção:

O inte­res­se de uma apro­xi­ma­ção esdrú­xu­la como essa é pro­du­zir faís­cas que tal­vez aju­dem a ilu­mi­nar cada uma das obras em ques­tão e os con­tex­tos cul­tu­rais em que foram rea­li­za­das.

Comecemos pelas afi­ni­da­des. Ambos os fil­mes ope­ram um cora­jo­so cor­po a cor­po com a cha­ma­da “rea­li­da­de soci­al” de uma geo­gra­fia espe­cí­fi­ca: o de Sganzerla com uma Copacabana fer­vi­lhan­te de con­tra­di­ções e em rápi­da trans­for­ma­ção; o de Renata Pinheiro com a “cena bre­ga” da peri­fe­ria de Recife, com sua eco­no­mia pró­pria, seu star sys­tem, sua vola­ti­li­da­de ver­ti­gi­no­sa.

Copacabana em rele­vo

As seme­lhan­ças ter­mi­nam por aí. Se Amor, plás­ti­co e baru­lho imer­ge de cabe­ça em seu obje­to, ade­rin­do qua­se sem dis­tan­ci­a­men­to a seus valo­res e ado­tan­do uma abor­da­gem rea­lis­ta, semi­do­cu­men­tal (com exce­ção da fan­ta­si­o­sa sequên­cia final), Sganzerla inter­fe­re vio­len­ta­men­te na Copacabana que retra­ta, medi­an­te uma ence­na­ção anti­na­tu­ra­lis­ta, a inde­pen­dên­cia entre ima­gem e som, a mon­ta­gem des­con­tí­nua e a pró­pria tex­tu­ra da ima­gem, cap­ta­da com câme­ra na mão em Cinemascope.

O pro­ce­di­men­to foto­grá­fi­co de Copacabana mon amour põe lite­ral­men­te em rele­vo a topo­gra­fia da região, con­tras­tan­do mor­ro e asfal­to, do mes­mo modo que sobre­põe à Copacabana míti­ca (da músi­ca popu­lar e do turis­mo) a Copacabana real do ater­ro, do pare­dão de pré­di­os (na épo­ca mui­to menos den­so que hoje), dos becos e dos bote­cos.

Cena de Copacabana mon amour

É por esse micro­cos­mo geo­grá­fi­co e soci­al dis­pos­to em cama­das que tra­fe­gam a pros­ti­tu­ta Sonia Silk (Helena Ignez) e seu irmão Vidimar (Otoniel Serra), apai­xo­na­do pelo patrão, o Dr. Grilo (Paulo Vilaça). Figuras ambí­guas e sem nome com­ple­tam o qua­dro: uma lin­da mulher (Lilian Lemmertz, em carac­te­ri­za­ção que reme­te à Ana Karina dos fil­mes de Godard) com quem Sonia faz amor, um lúm­pen (Guará Rodrigues) que pede money a mari­nhei­ros ame­ri­ca­nos e dedu­ra “sub­ver­si­vos” à polí­cia.

No calei­dos­có­pio de Sganzerla, poten­ci­a­li­za­do por uma tri­lha sono­ra que une can­ções fei­tas por Gilberto Gil para o fil­me e clás­si­cos da músi­ca popu­lar cari­o­ca, tudo se ilu­mi­na de modo ori­gi­nal: a opres­são soci­al, a dita­du­ra polí­ti­ca, a revo­lu­ção sexu­al, a degra­da­ção urba­na, o entre­cho­que de cul­tu­ras (África, Oriente, América), con­fi­gu­ran­do um caos fér­til de onde pare­cia poder sur­gir a civi­li­za­ção mais avan­ça­da ou a bar­bá­rie mais devas­ta­do­ra. O ensan­de­ci­do dis­cur­so em off vin­cu­la o local ao cós­mi­co, o minu­to à eter­ni­da­de. 

Amor bre­ga no Recife

Necessariamente mais modes­to, Amor, plás­ti­co e baru­lho é o pri­mei­ro lon­ga diri­gi­do pela tarim­ba­da dire­to­ra de arte de fil­mes como Baixio das bes­tas, Hotel Atlântico e Tatuagem.

É um mer­gu­lho fas­ci­nan­te num uni­ver­so pou­co conhe­ci­do em outras regiões do pais: o mun­do da músi­ca bre­ga-sexy da peri­fe­ria de Recife, com suas cele­bri­da­des locais ins­tan­tâ­ne­as, seus can­to­res e can­to­ras, suas ban­das, seus DJs, suas peque­nas gra­va­do­ras, seu cir­cui­to de bares e casas de shows. Todo um mer­ca­do, toda uma cul­tu­ra que flo­res­ce à mar­gem dos gran­des mei­os de comu­ni­ca­ção.

Por meio da his­tó­ria de duas can­to­ras ami­gas e rivais, a “vete­ra­na” Jaqueline (Maeve Jinkins) e a nova­ta Shelly (Nash Laila), a dire­to­ra tra­ça um qua­dro bas­tan­te expres­si­vo das rela­ções fuga­zes – e fre­quen­te­men­te vora­zes – que se esta­be­le­cem nes­se mun­do que, como o show busi­ness em geral, ali­men­ta-se da novi­da­de e, ao mes­mo tem­po, da repe­ti­ção. Autofagia é a pala­vra. Só que ali tudo é mais cru, qua­se sel­va­gem: a rapi­dez do des­car­te, a vio­lên­cia da com­pe­ti­ção, a cru­el­da­de do declí­nio.

Cena de Amor, plástico e barulho

O gran­de trun­fo do fil­me – sua imer­são sem ante­pa­ros no uni­ver­so que des­cre­ve – é tam­bém, de cer­to modo, sua mai­or limi­ta­ção. Em sua abor­da­gem per­meá­vel, poro­sa, a feiu­ra e a sujei­ra entram por todos os lados. Diferentemente da satu­ra­ção cro­má­ti­ca e ceno­grá­fi­ca con­tro­la­da de uma obra como Tatuagem, aqui pare­ce que o fil­me sub­mer­ge no caos que pre­ten­de retra­tar, fica à mer­cê de sua estri­dên­cia, de tal modo que o plás­ti­co e o ruí­do por pou­co não soter­ram o amor do títu­lo.

Há que lou­var, de todo modo, a cora­gem e a inte­gri­da­de da dire­to­ra, a ener­gia da con­du­ção nar­ra­ti­va e a entre­ga de suas atri­zes. Em suma, mais um títu­lo que dig­ni­fi­ca a vigo­ro­sa cine­ma­to­gra­fia per­nam­bu­ca­na.

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