Copacabana me engana

No cinema

11.10.11

Quem resis­te a ver um fil­me cha­ma­do Copacabana e estre­la­do por Isabelle Huppert? Em todo caso, eu não resis­ti.

O fil­me de Marc Fitoussi pode ser defi­ni­do como uma agra­dá­vel crô­ni­ca de cos­tu­mes sobre Babou (Huppert), uma fran­ce­sa de meia-ida­de em per­ma­nen­te desa­jus­te com a soci­e­da­de capi­ta­lis­ta glo­ba­li­za­da. A his­tó­ria se pas­sa no nor­te da França e no bal­neá­rio de Ostende, na Bélgica. E onde entra a Copacabana do títu­lo?

Aí é que está o que, pelo menos para nós outros, bra­si­lei­ros, tor­na o fil­me mais do que um mero veí­cu­lo para o talen­to cômi­co e dra­má­ti­co da atriz, que aqui con­tra­ce­na com sua pró­pria filha, Lolita Chammah.

Num mun­do frio e inós­pi­to, de regras que ela não res­pei­ta e de gen­te com quem ela não sim­pa­ti­za, Babou fan­ta­sia um Brasil enso­la­ra­do e feliz. Um país que não exis­te, por supu­es­to. Um ima­gi­ná­rio pon­to de fuga, cons­truí­do à base de folhe­tos de turis­mo e can­ções de Jorge Benjor, Astrud Gilberto e Marcos Valle.

 

Reserva afe­ti­va

No cine­ma nor­te-ame­ri­ca­no e euro­peu, o Brasil já foi refú­gio de cri­mi­no­sos e paraí­so eró­ti­co. Terra sem lei e sem peca­do, lugar onde impe­ra o prin­cí­pio do pra­zer, onde o juí­zo moral está sus­pen­so até segun­da ordem.

Em Copacabana, não é bem isso o que acon­te­ce. O Brasil sonha­do por Babou não é o da impu­ni­da­de nem o da per­mis­si­vi­da­de sexu­al, mas sim uma espé­cie de reser­va de afe­ti­vi­da­de, como se esta esti­ves­se — e tal­vez este­ja mes­mo — em extin­ção no pla­ne­ta. O que ela bus­ca, de cer­to modo, é o “homem cor­di­al” tal como defi­ni­do por Sérgio Buarque de Holanda, aque­le que se pau­ta mais pelo cora­ção do que pela razão, mais pelo “jei­ti­nho”, pelo “jogo de cin­tu­ra”, do que pelas nor­mas impes­so­ais da soci­e­da­de moder­na.

É como se Babou acre­di­tas­se na céle­bre fra­se de Maiakóvski: “Dizem que em algum lugar, pare­ce que no Brasil, exis­te um homem feliz”. Mais do que numa pai­sa­gem exu­be­ran­te, é na exis­tên­cia des­se homem que ela apos­ta.

Não dei­xa de ser sig­ni­fi­ca­ti­vo que um fil­me com tal enfo­que apa­re­ça num momen­to em que a Europa glo­ba­li­za­da, em pro­fun­da cri­se, des­ce pela pri­mei­ra vez do pedes­tal do etno­cen­tris­mo e come­ça a admi­tir a pos­si­bi­li­da­de de rece­ber aju­da dos “fei­os, sujos e mal­va­dos” de ontem (leia-se os paí­ses do cha­ma­do Bric: Brasil, Rússia, Índia e China). Veja abai­xo o trai­ler:

 

Film com­mis­si­on

Se a ima­gem do Brasil no mun­do depen­de mui­to dos fil­mes estran­gei­ros rea­li­za­dos total ou par­ci­al­men­te aqui, é evi­den­te a impor­tân­cia das film com­mis­si­ons — agên­ci­as encar­re­ga­das de for­ne­cer as con­di­ções logís­ti­cas, téc­ni­cas, legais e polí­ti­cas para as fil­ma­gens.

Confesso que, tal­vez por uma anti­pa­tia reni­ten­te e démo­dé à hege­mo­nia cul­tu­ral nor­te-ame­ri­ca­na (outro­ra conhe­ci­da como impe­ri­a­lis­mo), fiquei um tan­to cho­ca­do ao des­co­brir que o pre­si­den­te da Rio Film Commission, cri­a­da em 2009 como uma par­ce­ria da RioFilme com a Secretaria da Cultura do Estado do Rio, é nin­guém menos que Steve Solot, que foi duran­te mui­to tem­po o repre­sen­tan­te da MPAA (Motion Pictures Association of America) para a América Latina.

Talvez seja por isso que, entre as últi­mas pro­du­ções com apoio da Rio Film Commission (ou seja, apoio esta­tal) este­jam títu­los como Velozes e furi­o­sos 5, Os mer­ce­ná­ri­os de Silvester Stallone e Saga Crepúsculo: Amanhecer. É o que anti­ga­men­te se des­cre­via como “colo­car o lobo para cui­dar do gali­nhei­ro”.

 

* Na ima­gem da home que ilus­tra este post: Lolita Chammah e Isabelle Huppert em Copacabana, de Marc Fitoussi

 

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