Coutinho e a poética do encontro

No cinema

08.05.15

Duas pre­ci­o­si­da­des estão entran­do nas bre­chas de nos­so mes­qui­nho cir­cui­to exi­bi­dor. É pre­ci­so vê-las antes que sejam eje­ta­das. Estou falan­do de Últimas con­ver­sas, der­ra­dei­ro docu­men­tá­rio de Eduardo Coutinho, e do tur­co Sono de inver­no, de Nuri Bilge Ceylan, ganha­dor da Palma de Ouro em Cannes no ano pas­sa­do. Sobre este últi­mo escre­vi aqui quan­do foi exi­bi­do na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Falemos do outro, então, em car­taz no IMS-RJ.

Coutinho, mor­to de for­ma trá­gi­ca há pou­co mais de um ano, aos 80, não ter­mi­nou de dizer o que tinha a dizer – ou melhor, a escu­tar, já que esta era tal­vez sua mai­or vir­tu­de. Suas últi­mas pala­vras – ditas e ouvi­das – estão nes­te novo docu­men­tá­rio, que ele não che­gou a ver con­cluí­do. A tare­fa de fina­li­zá-lo cou­be à mon­ta­do­ra Jordana Berg e ao cine­as­ta João Moreira Salles, ami­gos e par­cei­ros cri­a­ti­vos de lon­ga data do docu­men­ta­ris­ta.

Uma das jovens entrevistadas no documentário

Últimas con­ver­sas, con­ce­bi­do para ser um diá­lo­go com múl­ti­plos rapa­zes e moças no final da ado­les­cên­cia, abre com o pró­prio Coutinho expon­do seu legen­dá­rio pes­si­mis­mo ran­zin­za ao falar a seus cola­bo­ra­do­res sobre a difi­cul­da­de de con­ver­sar com jovens, já que estes che­gam dian­te da câme­ra maqui­a­dos, pre­pa­ra­dos – “arma­dos”, para usar sua expres­são. Furar esse blo­queio para che­gar a algu­ma ver­da­de era um desa­fio que lhe pare­cia fada­do ao fra­cas­so.

Frestas do dis­cur­so

Mas, ain­da uma vez, Coutinho con­se­guiu o mila­gre. As expe­ri­ên­ci­as de vida que se expõem em segui­da, ain­da que a con­tra­pe­lo ou mes­mo a con­tra­gos­to, são de uma rique­za extra­or­di­ná­ria. Da garo­ta reli­gi­o­sa que cho­ra ao falar do padras­to que a asse­di­ou na infân­cia, quan­do ela espe­ra­va dele “o amor de um pai”, ao rapaz rejei­ta­do na esco­la como pati­nho feio e que, depois de dois anos de tera­pia, vol­tou deci­di­do a mos­trar arro­gan­te­men­te sua supe­ri­o­ri­da­de inte­lec­tu­al sobre os cole­gas, tudo é mui­to vivo e pun­gen­te, rega­do aqui e ali por poe­mas e can­ções dos pró­pri­os per­so­na­gens.

Algumas his­tó­ri­as são espe­ci­al­men­te tocan­tes, como a da meni­na negra que cha­ma cari­nho­sa­men­te de “padras­ta” a com­pa­nhei­ra da mãe. “Ela tirou minha mãe da noi­te, onde ela mal­tra­ta­va o pró­prio cor­po para poder ali­men­tar os filhos”, diz, com um sor­ri­so encan­ta­dor.

O mais inte­res­san­te, con­tu­do, tal­vez seja jus­ta­men­te o que se des­ve­la à reve­lia dos per­so­na­gens, nas fres­tas e con­tra­di­ções de seu dis­cur­so, nas hesi­ta­ções da fala, nos silên­ci­os. Uma garo­ta mula­ta afir­ma, a cer­ta altu­ra, que nun­ca sofreu pre­con­cei­to ou dis­cri­mi­na­ção. Logo em segui­da, meio rin­do, diz que seus pró­pri­os irmãos, de pele mais cla­ra, a escon­di­am dos ami­gos, mos­tran­do-lhes ape­nas a outra irmã, que era bran­ca. Também con­ta que se emo­ci­o­nou às lágri­mas ao atu­ar na esco­la numa peça sobre navi­os negrei­ros.

O silên­cio e o vazio

Um caso sin­gu­lar é o de um rapaz que che­ga total­men­te arma­do de sen­ten­ci­o­sos luga­res-comuns. A cada coi­sa que Coutinho lhe diz ele res­pon­de com um cli­chê abs­tra­to de livro de auto­a­ju­da, pílu­la de sabe­do­ria extraí­da de algum post de rede soci­al. O dire­tor ten­ta ini­ci­al­men­te res­pon­der na mes­ma moe­da, suge­rin­do outras tan­tas fra­ses-fei­tas, qua­se como quem lan­ça iscas. Não dá mui­to cer­to. O arse­nal do outro pare­ce ines­go­tá­vel. Coutinho ata­ca então com o silên­cio. O garo­to se des­con­cer­ta, ri de ner­vo­so, mur­mu­ra algo sobre o cons­tran­gi­men­to do silên­cio. Seu vazio se reve­la de modo dolo­ro­so. Dá von­ta­de de pegá-lo no colo ou dar-lhe uns safa­nões.

Em nenhum de seus outros docu­men­tá­ri­os Coutinho falou tan­to. Neste, um cer­to can­sa­ço ou fal­ta de paci­ên­cia o leva a inter­rom­per de quan­do em quan­do a fala do entre­vis­ta­do e até a dar con­se­lhos oca­si­o­nais. Não é pos­sí­vel saber se essas inter­ven­ções seri­am man­ti­das por ele na edi­ção final. O fato é que estão lá e tes­te­mu­nham o esta­do de espí­ri­to do dire­tor pou­co antes de sua mor­te ines­pe­ra­da. Penso que os res­pon­sá­veis pela fina­li­za­ção do fil­me acer­ta­ram em man­tê-las, como tam­bém em pre­ser­var as con­ver­sas de bas­ti­do­res.

A cer­ta altu­ra, por exem­plo, ouvi­mos Coutinho reco­men­dar a uma entre­vis­ta­da: “Agora você sai sem olhar para trás e dei­xa a por­ta entre­a­ber­ta, pra gen­te aca­bar a cena com essa ima­gem”. Em outro momen­to, a toma­da come­ça com o dire­tor de foto­gra­fia Jacques Cheuiche, fora do qua­dro, dizen­do a Coutinho: “Você está fuman­do? Apaga esse cigar­ro”. O cine­as­ta res­pon­de: “Já está aca­ban­do. Pode rodar.” Vemos então a fuma­ça do cigar­ro entrar em qua­dro no alto, à direi­ta. Quem conhe­ceu Eduardo Coutinho sabe que a fuma­ça do cigar­ro era uma exten­são do seu cor­po, o que con­fe­re a essa ima­gem um sig­ni­fi­ca­do qua­se meta­fí­si­co.

Últimas con­ver­sas ter­mi­na com um diá­lo­go deli­ci­o­so entre Coutinho e uma garo­ti­nha de seis anos. Mais do que a mani­fes­ta­ção de uma “nos­tal­gia de ancião”, como escre­veu o crí­ti­co Inácio Araujo, essa con­ver­sa é, a meu ver, um fecho per­fei­to para uma fil­mo­gra­fia toda dedi­ca­da ao encon­tro de dife­ren­tes, à bus­ca da ilu­mi­na­ção pelo entre­cho­que de expe­ri­ên­ci­as. Diante da cri­an­ça, o velho Coutinho desar­ma a si mes­mo, rela­xa, mani­fes­ta rei­te­ra­das vezes seu encan­ta­men­to dian­te de uma fra­se da meni­na (“Deus é um homem que mor­reu”) e expres­sa um dese­jo infe­liz­men­te irre­a­li­za­do: “Eu devia fazer um fil­me só com cri­an­ças”.

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